Intersecções temáticas

            “Vivemos hoje sob o governo da velocidade”, é a frase que eu já havia cansado de escrever, citando o pensador atual Eugênio Trivinho. Parecia caber perfeitamente enquanto eu visualizava o que seria o dia que eu estava prestes a encarar após a curta noite de sono que eu teria. Eu tinha metas, chegar a São Paulo, apresentar um artigo num congresso na USP, ir para o aeroporto de Guarulhos pegar o voo para Porto Alegre, embarcando numa missão madrinha de um de meus amigos mais próximos. Todo esse trajeto ocuparia 20h daquele 15 de dezembro. “Devemos estar prontos para sermos refinados, evoluídos, modificados – mesmo que isso signifique a própria perda de contato com o que consideramos como “humano” atualmente”, eu relia repetidamente as quotes chave do resumo expandido que eu deveria apresentar amanhã, sem a companhia da amiga com quem escrevi o artigo em perfeita sincronia.

            Não me lembro como foi que dormi, apenas sei que acordei bem cedo, como não estava acostumada há bastante tempo. Estava no carro enquanto minha mãe me levava para a rodoviária para alcançar o horário mais cedo de ônibus para São Paulo. A primeira reviravolta indicou que o dia tinha potencial para ser inesperado. Enquanto andava pela estrada que chegava à cidade, visualizei um carro conhecido que seguia o mesmo caminho e, por uma luz, suspeitei que ele estivesse indo para o mesmo destino que eu. Toda a família estava no carro e eles, de fato, me deram carona, deixando-me à frente da ponte que liga o início da marginal para o terminal rodoviário Tietê. “Quarenta e cinco reais economizados… vou comer em paz!”

            Entrei no metrô e dispus-me a correr tanto quanto pude, notando que as chances de chegar pontualmente eram remotas. Faltava um trecho que seria possível somente de ônibus, dado o trânsito e a pressa, optei por pegar um Uber. Oito minutos para o horário da minha apresentação e eu sequer havia encontrado o prédio correto. Para minha surpresa, porém, ao entrar finalmente no saguão, encontrei meu antigo orientador, o professor Paulo, ali mesmo e descobri que eu havia errado por meia hora o horário do meu painel temático. O alívio tomou conta de mim. A apresentação correu bem, embora eu tenha optado, parcialmente por covardia da discussão, por não expor totalmente minha perspectiva filosófica. Estava circundada por gente que achava inútil a pergunta pelo que é o humano e empolgados com o pós-humanismo. Que decepção. O moderador do painel merecia destaque, jovem e bonito.

            Almocei com o Paulo, uma conversa agradável, e depois tomamos nossos rumos separados. Eu estava fazendo hora, contemplando todo o movimento ao redor, procurei o café de cortesia – que evento de humanas não tem café grátis? Frustrada, encontrei outra distração: um estande da editora Paulus, um dos meus pontos fracos. Naveguei pelos títulos, desejei vários deles, quando de repente pensei que deveria conferir meus horários e notei que havia calculado tudo bastante mal. O gasto de dinheiro e de tempo eram altos de onde eu estava. Droga. Larguei tudo e apenas fui.

            Novamente, saí correndo para pegar um ônibus, entrei no metrô e desci na Avenida Paulista – infelizmente, numa altura oposta àquela em que eu deveria estar para pegar a linha fretada que chegaria ao aeroporto de Guarulhos. A peregrinação começou e imediatamente notei que eu não estava usando os calçados mais apropriados para uma longa caminhada. À medida que andava, me perdi com a diversidade dos problemas que podem ser confrontados num perímetro tão curto. A avenida parecia um painel pós-moderno, o encontro de todos e quaisquer discursos, gritando, a espera de não serem apenas ruído, redundância.

            Em meio à tentativa de manter o foco, minha mente perdia partes de si em cada esquina. Um mendigo abraçado a um cachorro grande portando uma placa pedindo dinheiro para ambos. Uma parada de resistência à ideologia de gênero por um grupo radical tradicional (aka MBL). Voluntários da Abring pedindo apoio com apenas uma curtida no Facebook. Como seria possível de fato apoiar uma ONG apenas num clique de uma rede social? Enquanto eu ouvia o discurso, duas outras garotas também representando a Abring elogiaram meu cabelo e perguntaram se eu era cabeleireira, tão bem feito lhes pareceu minha coloração. Claramente não viram as mechas inferiores, com falhas e marcas na tinta.

            Passei mais um quarteirão e eis que um Hare Krishna tentou me vender livros de sua filosofia religiosa e até me convidou para conhecer o templo. Eu estava andando há vinte minutos, debaixo de um sol quente, vestindo uma camisa social, calça jeans e uma sapatilha que já arrancava a pele do meu calcanhar. Na verdade havia me perdido nos quarteirões e frustrada por não ter conseguido ainda entrar em um Starbucks.

            Aproximando-me do meu ponto, percebi que os hotéis eram refinados o suficiente para eu nem pensar em pisar no lobby. Pedi informação fingindo sotaque estrangeiro à espera de misericórdia. Finalmente, encontrei o local onde o ônibus passaria e em poucos minutos embarquei rumo ao aeroporto. Chegando lá, passei tempo ignorando minha fome, esperando um tempo mais oportuno para evitar gastos posteriores, já que eu havia chegado com pelo menos 4 horas de antecedência. Para quem corria atrasada, definitivamente cálculos não são meu ponto forte. Iludi-me com o que parecia ser Yakisoba de cogumelos, na verdade era apenas shimeji refogado.

            Após 3 horas andando à toa, um café no Starbucks e infinitos cálculos para comprar um chocolate bom do qual eu desisti, mal acreditei quando enfim cruzei a sala de embarque. Já passava a hora do pôr-do-sol. Exausta e reflexiva, sentei ao lado da enorme fila para o vôo que já se atrasava em mais de uma hora. Meu amigo ia casar. Eu sequer conhecia sua noiva, mas não importava diante do quanto ele me contava dela. Todas as vivências do dia passavam como flashes em minha mente; eu ia me derramar em lágrimas; “quero minha mãe”, eu pensei.

            Para ignorar o presente vazio existencial (aka fome) e ocupar minha mente com outras coisas que não me fizessem chorar, pensava em todos os diferentes grupos de pessoas que encontrei, os diversos objetivos, maneiras de viver, necessidades, polos e forças opostas. Lá estava a lágrima prestes a escorrer novamente. Lembrei-me de um antigo medo: voar, principalmente viajando sozinha. Não fazia mais parte de mim, ou eu estava cansada demais para me importar. Havia tantas incertezas em minha mente, caixas de crises que eu me recusava a abrir naquele momento. Como toda pessoa da presente era virtual, eu pensava em tudo isso enquanto mexia no meu smartphone. Especificamente, eu estava limpando o bloco de notas.

            Deparei-me com uma mensagem salva. Notei que ainda não tinha pensado nele naquele dia. Estaria esse sentimento tomando espaço como fuga da exaustão mental? Durante as últimas duas semanas pretendia contar ao Kaike como eu me sentia. Nunca é fácil dizer a alguém “eu gosto de você”. Como não encontrei um bom momento para fazê-lo havia decidido deixar para lá, mas não resisti e escrevi uma mensagem seguindo minha intuição de “ele precisa saber”. Ridículo, é claro.

            Porém, sentada ali, prestes a voar, o ano de 2017 terminando, as férias por começar, após um dia totalmente maluco, não parecia haver muito a perder. Não sei se foi um pensamento romanceado sobre o que poderia dar errado naquela viagem, ou se estava comovida pela minha participação no casamento. Selecionei o texto, copiei, abri o WhatsApp, a conversa dele, colei o texto. Apaguei. Repeti o processo duas ou três vezes, até que apertei a tecla de envio de uma vez por todas e decidi não esperar por uma resposta.

            Foi anunciado o início do embarque na aeronave, a fila começou a andar. Reli a mensagem mais umas vezes, ele não estava online. Por que é que ele precisava saber? O que eu esperava que ele fizesse. “Tonta”, pensei, “agora já foi”. Aquela mensagem era a última coisa a ser resolvida do acúmulo de interjeições nas minhas amizades ao longo do ano. Não que causasse algum impacto social, era somente para mim mesmo. Retomando o foco no propósito matrimonial do fim de semana, apenas me preocupei em entrar no avião e torcer por haver algo além de água no serviço de bordo da TAM. Passei a viagem fazendo uma lista dos fatos que compuseram esse dia.

            Em menos de duas horas já estava em solo gaúcho. Tirei o celular do modo avião, encontrei meu povo e estava a caminho da casa da noiva – ela falando todo o itinerário até domingo, minhas responsabilidades e funções; eu pensando no que ela teria à disposição na geladeira de sua casa. Liguei a tela do celular e estremeci, a tão temida resposta. Pensei em apagar a conversa sem ler a resposta, talvez fosse mais cômodo apenas saber que mandei a mensagem e nunca saber o feedback, manter a ilusão da possibilidade, da abertura. “A origem etimológica de commodity está na palavra commodus: ‘adequado, em forma, conveniente, cômodo, fácil, apropriado, favorável, amigável’ – o texto do congresso ainda circulando em minha mente.

            A quem eu estava querendo enganar? Óbvio que eu não aguentaria de curiosidade. “Você me pegou desprevenido. Nem sei o que te responder agora. Posso lhe retornar depois? Não quero que você pense que estou lhe ignorando.” Ah sim, agora precisamos nos prevenir contra os sentimentos. “Não se preocupe, responda se quiser, está tudo bem”, eu devolvi. Poucos minutos depois, meu celular se colocou em estado de coma e fui obrigada emergir do virtual, encarando apenas a tela preta que esboçava indefinidamente minha feição de preocupada com os preparativos daquele casamento. Foi um domingo incrível. Retornei para São Paulo na segunda e a vida seguiu. Mal sabia eu que aquela mensagem voltaria a me perseguir quando nem me lembrava mais dela.

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Caro colega

A sua ausência é extremamente incômoda,
A indiferença atingida por você me assusta,
O descarte do seu discurso me machuca,
O laço desatado entre nós atou-me.

A pessoa que conheci em você se perdeu,
A sua face que agora vejo me desconhece,
O bem que você me fez ficou em outra era,
O sumiço fez parecer que nunca existiu.

Agora eu lhe discurso sem que você ouça,
Onde sei que também não me encontrará.
Acomodo as palavras para fora de mim,

Orientando-as a deixarem rastros,
Até que desvaneçam sem resposta,
Obrigadas a retraírem-se no esquecimento.

Posfácio

            Entrei na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Eu deveria ter o hábito da leitura mais desenvolvido, mas a verdade é que o trabalho empresarial ocupa muito tempo. Lidar com números o dia todo é fatigante para a mente. Por isso, dedico minhas horas vagas à prática de exercício físico e algumas meditações. Eventualmente ganho como presente um desses livros sobre gerenciar negócios, ter mais poder, tornar-se um milionário. Imaginam que essas seriam leituras úteis para um jovem de 27 anos que ingressou há pouco tempo no mercado de trabalho. Não os condeno, apenas acho uma leitura insossa, dirigida a pessoas de ambição mal direcionada; leio por respeito a quem teve o trabalho de gastar tal dinheiro por mim.

            Porém, numa tarde de quarta-feira meu chefe me dispensou por volta das 15h e fui andar pela avenida, já que estava lá mesmo. Entrei na galeria apenas para pegar um café, quando avistei a livraria e pensei “porque é que as pessoas gostam tanto deste lugar?!”, mas por algum impulso decidi entrar. Comecei pela sessão de livros em branco, coisas que se tornam úteis para a produtividade – os molesquines, cadernetas, blocos de notas. Darei um para minha namorada, pensei, ela gosta destas coisas.

            Notei um alvoroço numa ala da livraria, um amontoado de gente: maioria mulheres, de 17-35 anos, classe B talvez definiria uma média ali. Perguntei a um vendedor o que se passava, ele me disse que se tratava do lançamento de um livro.

            “A autora é famosa?”, perguntei.

            “É bem jovem ainda, acho que sua primeira obra escrita no gênero, mas parece que era blogueira e acabou conseguindo um público interessante. Ela deu uma entrevista para um jornal e para a TV num dia desses, trabalha para a editora Abril.”

            “Sim, entendi. Pelo alvoroço feminino, suponho que seja um romance, certo?”

            “É sim, no sentido literal, não como gênero. Ela costumava ser da escrita acadêmica, migrou recentemente para as narrativas pelo que ouvi dizer.”

            “Obrigado!”, eu disse, pretendendo dispensar o moço que parecia bem empolgado para trabalhar me dando um relatório mais completo do que eu esperava.

            Dirigi-me com ar desconfiado e debochado para o ajuntamento. Achava extremamente imaturo esse comportamento das garotas em cima de um romance, não poderia imaginar algo relevante nessas leituras. Sempre agradeci que a Fabiana não é como elas, senão muito provavelmente não conseguiria namorá-la.

            A autora autografava alguns livros e conversava com as pessoas, parecia realmente muito simpática. Ao me aproximar mais notei que também era bem bonita. “Não é à toa que conseguiu esses empregos, entrevistas, fama”. Não era uma beleza espetacular, era um ar curiosamente cativante. Pele levemente morena, longos cabelos castanhos presos num rabo de cavalo caído. Vestida bem simples, uma camiseta preta com jeans claro. “Na verdade ela até parece uma moça bem comum”. Julguei pela aparência que ela tinha por volta da minha idade. Não usava aliança. “Solteira aos 20 e tantos, escrevendo um romance”, eu ria sozinho.

            Enviei um áudio pelo WhatsApp para minha namorada contando da minha empreitada de tentar entender o alvoroço deste público do qual eu agradecia ela não fazer parte. Vesti uma nova expressão facial, fingindo real interesse no evento. Entrei no aglomerado, peguei um exemplar da pilha de livros e tentei olhar nos olhos da jovem autora, pretendia cumprimentá-la e fazer questionamentos objetivos sobre sua obra, mas ela parecia bem atenta ao desabafo de uma menina que aparentava ter seus 17 anos e ter se identificado com a história fictícia presente nas 280 páginas.

            Percebi que eu precisaria aguardar um pouco para ser atendido, então decidi folhear o livro e ver se pelo menos se tratava de uma boa escrita. Abri em páginas avulsas, escolhendo parágrafos soltos – as ideias me pareciam coesas, de repente eu até seguia adiante, algumas ironias embora bobas me fizeram rir, outras frases me pareceram bem filosóficas. “Que combinação estranha”, pensei, “mas parece que deu certo”. Foi quando consegui finalmente ouvir sua voz e tentei aplicá-la àquelas palavras escritas – e eu senti um arrepio. Olhei para ela novamente.

            Havia algo familiar naqueles gestos, no jeito de balançar a cabeça e os ombros, no seu sorriso, mas eu não conseguia ver bem seus olhos. Eu a conhecia. Ocorreu-me que eu não havia olhado o seu nome na capa do livro, nem perguntado ao funcionário-informante. Mirella Cortês. Por Deus! Não era possível! Minha respiração até parou por uns quatro segundos. Eu tive uma espécie de relacionamento com essa garota, anos atrás. Quanto tempo? Eu não conseguia me lembrar ao certo, cinco ou seis anos.

            Meio atordoado, sentei num pufe que encontrei por ali e tentei ler por alto mais páginas do livro. Ela sempre gostou de escrever, é verdade, bem que me lembrava dela ter cursado Jornalismo, eu nunca tive muita paciência de ouvi-la falar sobre seus estudos e trabalho, na verdade. Não imaginaria que ela estivesse no Brasil ainda; uma pena, alguém que não aproveitou seu potencial para crescer tanto.

            Voltei ao livro, apenas para perder ainda mais o fôlego. Algumas impressões daquela história me pareciam familiares. Mas que viagem! Aquela era a nossa história. Ela escreveu um livro para contar o que aconteceu entre nós dois?! Que loucura é essa, fui vendido, descrito certamente como um decrépito garoto que acabou com sua vida amorosa e a levou a dar a volta por cima. Ou será que ela romantizou tudo para ter um “felizes para sempre”? Com raiva, continuei lendo. Ela alterou apenas alguns detalhes objetivos, mas era a história na íntegra, até os diálogos me pareceram bastante possíveis de serem reais.

            Ela ainda lembrava? Não superou? Ah não, lembrei-me de que ela me disse certa vez, enquanto ainda estávamos juntos, que havia feito algumas tentativas de escrever nossa história porque ela era bizarra. De fato, não poderia negar que eu devo tê-la magoado bastante. A realidade é que depois do segundo término perdemos o contato quando fiz um intercâmbio e eu nunca mais procurei saber dela.

            Considerei ter sido um grande erro ter ido até ali, uma perda de tempo. De que me importava? Levantei-me e ia me virando para ir embora, mas me desequilibrei e quase caí. Ótimo, chamei a atenção do conglomerado de apaixonadinhas. De volta à estabilidade, em pé, o olhar dela me alcançou. Eu, acanhado, apenas disse “está tudo bem”. Ela me reconheceu, fisgava o canto da boca, dando um meio sorriso.

            “Você não veio para o lançamento, imagino”, ela disse simpaticamente.

            Ela obteve como resposta meu silêncio e um olhar embaraçado.

            “Mas fique à vontade, logo mais haverá um café com entrevista aberta.”

            “Você acha que esse livro seria um bom presente para minha namorada?”, não sei por que, mas agi com essa audácia.

            “Na verdade eu queria lhe dar um de presente, Pedro.”

            Senti que meu rosto se avermelhava e a multidão tentava compreender de que se tratava aquela tensão toda.

            “Não, não precisa. Eu não tenho tempo para ler. Além do mais, eu já sei essa história”, por alguma razão a última frase saiu e me deu vontade de ver se ela saberia jogar com suas emoções em público, ela costumava ser meio descontrolada.

            Algumas pessoas pareceram suspeitar o que acontecia ali. Ela apenas assentiu, com aquele meio sorriso novamente. Eu desconhecia essa Mirella. Ela tinha os olhos determinados, frios. Ela não retrucou, não haveria o circo pegando fogo. Dei as costas, caminhei uns três passos, mas parei e me virei para ela.

            “Mirella, você tem uma versão da história crua, sem as camadas fictícias?”

            “Não foi preciso. Mas uma boa história sempre deve ser contada, mesmo que de maneira diferente.”

            Eu sorri discretamente. Dirigi-me ao caixa e comprei um exemplar e uma caderneta. Enquanto saía da livraria imaginava-a tendo que explicar às suas fãs que eu era a razão daquele livro ter sido escrito, ou inventando alguma explicação improvisada. Talvez eu nem lerei aquele livro, acho que me falta a coragem. Darei para a Fabiana de presente – a caderneta, com boa razão; o livro como um presente de amigo da onça, e ela vai ler, rir e dizer que é tudo bobagem.

Guardo-lhe como a um segredo

Guardo-lhe como a um segredo,
Já que está longe dos olhos de todos
Permaneça também distante dos ouvidos.

Guardo-lhe numa parte do coração
Que aprendi a cobrir com a normalidade
E apenas desvelo a mim mesma.

Guardo-lhe sem nome e sem endereço,
Pois do que os outros não sabem, não perguntam
E apenas farei força para que não percebam.

Guardo-lhe numa caixinha de surpresas,
Não a vejo com constância, nem a abro,
Mas tenho na memória tudo o que contém.

Guardo-lhe em nossas conversas,
Junto a abraços e beijos de lembranças,
Os quais paradoxalmente desejo compartilhar.

Guardo-lhe, por fim, neste poema,
E será que, se passar, ainda estará aqui;
Mas quanto menos falo, mais real você fica.

Aviso prévio da Modernidade – A perda da visão 

Se eu pudesse voltar quarenta anos
Eu avisaria as pessoas que surgirá
Um bloco eletrônico que todos terão
Acumulando funções manuais
Instaurando a praticidade na palma da mão.

A atratividade desse slogan
É compatível com o vício resultante
Evolucionistas diriam que as gerações
Posteriores terão dedos alongados
De tanto e para tanto manuseá-lo.

Olhando ao redor penso que os criadores
Queriam demitir o mundo da vista,
E conseguiram que todos andassem cabisbaixos,
Com os olhos presos às malditas telas.

Corpos desalmados

Abaixo o platonismo,
Que dividiu mente e corpo,
Pois eis que somos uma coisa só.
Porém a palavra “alma”
Carrega em si uma aura
Que representa, vez ou outra,
Aquela essência do ser,
O que nos torna humanos.
Aí que vem a técnica,
Perfeita e funcional,
Nos encanta a mente,
Brilha os olhos cansados,
No reflexo de uma tela.
E com os olhares fixos,
Ficamos o carcaço,
Corpos desalmados.

O Romance na Era Digital

                                     1

Comportamento bizarro e inconstante
De olhares furtados e sorrateiros,
Contrastados a frequentes
Curtidas e visualizações.
Um ritual de conversas noturnas
Vazias, que almejam
Sair de uma tela
Mas, no processo,
Perdem-se no
Des-
Interesse.

                                     2
Os céus das cidades, azuis opacos,
Riscados de fios elétricos condutores
Permeados de ondas invisíveis,
Que carregam a codificação criada
Para representar o que pouco sabemos.
Mensagens de amor, de cônjuges a amantes,
Destinadas a cruzarem-se revestidas
Da aura do sigilo e do mistério.

                                      3
As medidas no virtual são sígnicas;
Os comportamentos codificados significam
Análises objetivas das atitudes digitais.
Entre visitas às histórias e reações às
Exposições feitas de si mesmo – pergunta-se –
O que resta saber e que importa além da tela
Para além do espectro magnético;
Como é que se transita do holograma ao físico?

O homem que não vigiava

Um homem vivia seguro de seu orgulho. Advogado, tinha segurança de que fazia justiça todos os dias em seu trabalho e conhecia o que se passava em sua cidade com toda a confiança. Certa noite, deitou-se para dormir ao lado da esposa. Lá pelas tantas da madrugada, ouviu-se um estouro. Assustado, acordam os dois juntos. Ele desespera-se com o som do tiro. Ouve mais um. Se lembram de que não têm nada para se defender, não possuíam mais armas em casa. A casa, aliás, de dia era um agradável lar familiar, mas de noite facilmente acomodaria um conto mal assombrado. Alocada ao fundo de um terreno cheio de árvores, a casa era fria e velha, cheia de quadros de tinta a óleo e papeis de parede decorados. Alguns azulejos e pisos rachados, tal que quando alguém andava todos ouviam. Ouviu passos. Apavorado, esgueirou-se cama abaixo e, deixando sua esposa no quarto, engatinhou até o quarto da sogra, que dormia só. Acordou-a e implorou que se unisse no medo e numa solução. Ela fez pouco caso, disse que não ouviu nada. Ele voltou do modo como foi, talvez ela nem quisesse mais viver ou estivesse surda. Ligou para os vizinhos, um advogado, outro juiz, outro ainda médico. Por fim, tornou a dormir. Na manhã seguinte notou que ainda vivia e que nada faltava em casa. Intrigado, olhou debaixo da cama e dos móveis em busca  de alguma bala perdida. Ao invés disso, encontrou o resto de bexigas de aniversário  estouradas e lembrou-se da festa da filha. Decepcionado consigo mesmo, foi trabalhar de cabeça baixa. Os vizinhos vieram consolar e saber o que houvera. Envergonhado disse apenas que nenhum suspeito foi encontrado.

O paradoxo do ser no mundo

No limitado espaço do ser
Carrego em mim o sentimento do mundo;
É sobre aquietar-se com as inquietações
E irromper todos os silêncios encontrados,
É sobre esvaziar-se de tudo que lhe preenche
E re-tornar-se um lugar aberto,
É sobre ser no mundo
E tentar encontrar-se
Na eterna busca por fixar-se,
À medida que se desvanece
Tenta se corporizar na liquidez
E se reconstruir cotidianamente.