Caro colega

A sua ausência é extremamente incômoda,
A indiferença atingida por você me assusta,
O descarte do seu discurso me machuca,
O laço desatado entre nós atou-me.

A pessoa que conheci em você se perdeu,
A sua face que agora vejo me desconhece,
O bem que você me fez ficou em outra era,
O sumiço fez parecer que nunca existiu.

Agora eu lhe discurso sem que você ouça,
Onde sei que também não me encontrará.
Acomodo as palavras para fora de mim,

Orientando-as a deixarem rastros,
Até que desvaneçam sem resposta,
Obrigadas a retraírem-se no esquecimento.

Aviso prévio da Modernidade – A perda da visão 

Se eu pudesse voltar quarenta anos
Eu avisaria as pessoas que surgirá
Um bloco eletrônico que todos terão
Acumulando funções manuais
Instaurando a praticidade na palma da mão.

A atratividade desse slogan
É compatível com o vício resultante
Evolucionistas diriam que as gerações
Posteriores terão dedos alongados
De tanto e para tanto manuseá-lo.

Olhando ao redor penso que os criadores
Queriam demitir o mundo da vista,
E conseguiram que todos andassem cabisbaixos,
Com os olhos presos às malditas telas.

O homem que não vigiava

Um homem vivia seguro de seu orgulho. Advogado, tinha segurança de que fazia justiça todos os dias em seu trabalho e conhecia o que se passava em sua cidade com toda a confiança. Certa noite, deitou-se para dormir ao lado da esposa. Lá pelas tantas da madrugada, ouviu-se um estouro. Assustado, acordam os dois juntos. Ele desespera-se com o som do tiro. Ouve mais um. Se lembram de que não têm nada para se defender, não possuíam mais armas em casa. A casa, aliás, de dia era um agradável lar familiar, mas de noite facilmente acomodaria um conto mal assombrado. Alocada ao fundo de um terreno cheio de árvores, a casa era fria e velha, cheia de quadros de tinta a óleo e papeis de parede decorados. Alguns azulejos e pisos rachados, tal que quando alguém andava todos ouviam. Ouviu passos. Apavorado, esgueirou-se cama abaixo e, deixando sua esposa no quarto, engatinhou até o quarto da sogra, que dormia só. Acordou-a e implorou que se unisse no medo e numa solução. Ela fez pouco caso, disse que não ouviu nada. Ele voltou do modo como foi, talvez ela nem quisesse mais viver ou estivesse surda. Ligou para os vizinhos, um advogado, outro juiz, outro ainda médico. Por fim, tornou a dormir. Na manhã seguinte notou que ainda vivia e que nada faltava em casa. Intrigado, olhou debaixo da cama e dos móveis em busca  de alguma bala perdida. Ao invés disso, encontrou o resto de bexigas de aniversário  estouradas e lembrou-se da festa da filha. Decepcionado consigo mesmo, foi trabalhar de cabeça baixa. Os vizinhos vieram consolar e saber o que houvera. Envergonhado disse apenas que nenhum suspeito foi encontrado.

Debaixo da Lua Cheia

Na linha tênue do horizonte
Sob uma noite bem iluminada
O mar levemente toca a areia fria
Chiando suavemente pelas suas ondas

Um abraço repentino captura um coração
Sequestrando o fôlego num suspiro
Os olhares distando sobre a água
Os corpos tímidos encostados

Então os olhares se encontram
E numa longa pausa o pensamento
Se desfaz no vento que ali os envolve

E sussurra-lhes: “Deixe a lua os guiar!”
Que ela é cheia de amor; e os une
Num suave e eterno beijo.

A abertura do ser

Entre o tudo e o nada muito em comum há,
O longo percurso de um a outro começa e termina no mesmo ponto
É um túnel no espaço-tempo questionando a realidade.

O nada nos oprime e nos liberta;
O tudo nos ilude e nos mantém;
Unem-se na indeterminação que é o viver.

A temporalidade do existir nos assombra,
O tempo gasto para determinar definições
Ignora a arte que há no desocultar o indefinido que é o ser.

Remember me by the rain

Remember me when the rain falls.

When you look out the window
And all your sight is blurred with
Minor running watery vessels,
Remember all our smiles.

When you walk in the fresh breeze
While you feel the humidity catch you
And everything looks gracefully grey,
Remember our tender looks.

When you hear thunders struck
And see the lightenings surprise
And feel so cozy inside the house
Know that I am also thinking of you.

Prólogo – a história

“Decidi contar tudo não por que eu pensasse que ia ganhar alguma coisa contando da minha vida para você, Bruno. Mas porque eu penso que boas histórias não podem ser perdidas.”

Outro dia eu conversava com uma amiga sobre ter histórias legais de conquista, romance e coisas do gênero para contar. Muitos me chamam de louca por querer achar que essa história foi boa, afinal, ela foi motivo de muitos suspiros, lágrimas, dramas, desabafos, confusões e de profundos arrependimentos. Mas também foi a causa de eu repensar muitas coisas sobre relacionamentos, comportamentos e ideologias que já tive, e me fez sorrir e rir muito também, me emocionar, suspirar por motivos bons.

Eu enrolei até agora e não contei a história.

“Vamos lá, Bruno, eu estou com calor e ficar aqui debaixo deste coqueiro não vai ajudar muito.”

“Quer aproveitar aquela piscina ali para o meio? Não tem ninguém lá. Danilo, dê seu aval”, com seu tom peculiar de ordem e impaciência cômico.

“Hum, não sei, água me relaxa e me distrai, acho que vou demorar ainda mais para contar a história. Você já sabe que ela é longa”, eu disse.

“Mas o lugar parece tão atraente…”, Danilo olhando para o horizonte como se nunca tivesse visto uma praia.

“Ai, já te disse que você é complicada? Eu to é morto de curiosidade e querendo matar esse canalha!”

“Sem escândalos, por favor, guarde-os para a história, você vai precisar, prometo”, só que na verdade eu estava mesmo querendo enrolar.

O Bruno já tinha me pedido para contar tantas vezes sobre meu último romance, mas nossa amizade se deu quando tudo estava no fim, então eu não me sentia encorajada a contar tudo. O Danilo acompanhou cada passo. Agora que ambos são meus confidentes, decidi fazer o Bruno de divã e o Dan acompanhará por pura graça. Estamos calmamente aproveitando um solzinho em Aruba, após uns três anos de economias para essa viagem.

“Ali naquele quiosque tem sorvetes de sabores naturais da fruta, acho que estou com vontade, sentemos ali saboreando e apreciando a vista”

Oui oui, madam, você que manda!” Danilo, eu, e nosso mísero francês.

Amores instantâneos

Os maiores amores se travam
Na primeira troca de olhares,
No primeiro abraço,
Na primeira conversa longa,
No primeiro sorriso tímido,
No primeiro riso sincero.

Aos maiores amores
Preferem chamar de paixão,
Porque quando é amor
Sentem a obrigação de agir,
Quando na verdade o amor é
A libertação do coração do ser
Esperando encontrar aquele
Outro ser aberto para se unir.

Dèja vu

Eis que estava num ônibus comum,
De um caminho quase constante,
Na vista que tantas vezes olhei.

Sentei do lado oposto ao de sempre,
Olhei para o meu antigo banco,
Lembrei de uma vez inusitada.

Aquele dia em que descobri que
As surpresas não se superam
Pelas rotas combinadas.

Quando o encontro é inesperado,
Algumas coisas se tornam obrigatórias,
E não importa se fazem sentido.