Caro colega

A sua ausência é extremamente incômoda,
A indiferença atingida por você me assusta,
O descarte do seu discurso me machuca,
O laço desatado entre nós atou-me.

A pessoa que conheci em você se perdeu,
A sua face que agora vejo me desconhece,
O bem que você me fez ficou em outra era,
O sumiço fez parecer que nunca existiu.

Agora eu lhe discurso sem que você ouça,
Onde sei que também não me encontrará.
Acomodo as palavras para fora de mim,

Orientando-as a deixarem rastros,
Até que desvaneçam sem resposta,
Obrigadas a retraírem-se no esquecimento.

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O tempo

O tempo é um espaço onde as coisas
Acontecem num patamar em que serão
Entendidas e guardadas de acordo
Com o significado que se dá a elas.

Ao longo da vida, acostumar-se
Torna-se natural para sobrevivência,
Mas nesse processo tende-se a nivelar
Todas as partes da existência

Numa única linha.

Carta aberta às amigas

Querido diário,

            Hoje eu venho agradecer pelas pessoas que realmente importam, que se importam, com quem encontro reciprocidade. Sei que isso é egoísta e anti-bíblico, mas eu estou aqui para prestar uma sincera homenagem para as pessoas que perdem seu tempo, gastam energia, riem e choram comigo. Eu não quero escrever o nome de ninguém aqui, porque se lerem isso é mais uma prova de que de fato se importam e vão saber que é delas mesmas que estou falando. Não há nada melhor do que o segredo não falado que é compreendido. Do que a mensagem recebida subentendida sem dar sinal nem alarde.

            Primeiramente preciso dizer que não menosprezo em hipótese alguma minhas amizades masculinas. Aliás, há alguns em específico que literalmente viraram noites ao telefone comigo para garantir que eu ficaria bem quando não conseguia dormir. De outros surgem chocolates quando estou de TPM, até aprendem a identificar esse meu estado. São capazes de me ouvir nos papos de menina, sabem elogiar como convém. Dão-me força de extrema importância. Não consigo compreender, muitas vezes, de onde tiram tanta paciência, sendo eles tão diferentes (ou creem eles assim).Porém, queria agradecer em especial às amigas. As mulheres têm poderes especiais quando usados para o bem.

            A verdade é que nunca encontro palavras ou gestos suficientes para agradecer pelo que elas fazem por mim. Por deixarem de fazer suas coisas para passar tempo comigo e me permitir chorar no ombro delas. Por marcarem encontros caseiros para me oferecer carinho e distrações. Por me alimentarem de coisas de sustância e de coisas altamente açucaradas. Pelo café levado nas manhãs de noites curtas. Por dividirem embalagens industrializadas pequenas. Por me doarem remédios de cólica e antialérgico. Por prestarem atenções médicas quando eu acho que vou morrer. Por ouvirem de novo a mesma história. Por escutarem áudios grandes que variam de viagens intelectuais, desabafos sobre a rotina, ou dramas sentimentais. Por empatizarem com o ranço e as mágoas. Por se tornarem agentes secretas e infiltradas.

            Muito além de pensar que unidas somos mais fortes é entender que passamos igual ou analogamente pelas mesmas coisas e que, talvez mais ainda que as qualidades, nossos problemas e feridas é que nos tornam iguais. Nesse encontro das almas cansadas – de lutar contra tudo, contra a sociedade doente, lógicas econômicas irracionais, os homens, os levantes, os mal entendidos, os desencantos com a vida, contra nós mesmas – encontramos uma na outra a força que nos falta, ou ao menos unimos os vazios na esperança de saber que não estamos sozinhas.

            Para cada uma destas pessoas que ajudaram na construção de uma versão melhor de mim, que partilham da espiritualidade, que doaram de si algo que talvez nem tivessem, eu retribuirei sempre que for preciso ou desejado.

            Com carinho para todas aquelas (e aqueles) que sabem fazer parte de mim, ou que encontram em si um toque meu,

            Eu.

Posfácio

            Entrei na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Eu deveria ter o hábito da leitura mais desenvolvido, mas a verdade é que o trabalho empresarial ocupa muito tempo. Lidar com números o dia todo é fatigante para a mente. Por isso, dedico minhas horas vagas à prática de exercício físico e algumas meditações. Eventualmente ganho como presente um desses livros sobre gerenciar negócios, ter mais poder, tornar-se um milionário. Imaginam que essas seriam leituras úteis para um jovem de 27 anos que ingressou há pouco tempo no mercado de trabalho. Não os condeno, apenas acho uma leitura insossa, dirigida a pessoas de ambição mal direcionada; leio por respeito a quem teve o trabalho de gastar tal dinheiro por mim.

            Porém, numa tarde de quarta-feira meu chefe me dispensou por volta das 15h e fui andar pela avenida, já que estava lá mesmo. Entrei na galeria apenas para pegar um café, quando avistei a livraria e pensei “porque é que as pessoas gostam tanto deste lugar?!”, mas por algum impulso decidi entrar. Comecei pela sessão de livros em branco, coisas que se tornam úteis para a produtividade – os molesquines, cadernetas, blocos de notas. Darei um para minha namorada, pensei, ela gosta destas coisas.

            Notei um alvoroço numa ala da livraria, um amontoado de gente: maioria mulheres, de 17-35 anos, classe B talvez definiria uma média ali. Perguntei a um vendedor o que se passava, ele me disse que se tratava do lançamento de um livro.

            “A autora é famosa?”, perguntei.

            “É bem jovem ainda, acho que sua primeira obra escrita no gênero, mas parece que era blogueira e acabou conseguindo um público interessante. Ela deu uma entrevista para um jornal e para a TV num dia desses, trabalha para a editora Abril.”

            “Sim, entendi. Pelo alvoroço feminino, suponho que seja um romance, certo?”

            “É sim, no sentido literal, não como gênero. Ela costumava ser da escrita acadêmica, migrou recentemente para as narrativas pelo que ouvi dizer.”

            “Obrigado!”, eu disse, pretendendo dispensar o moço que parecia bem empolgado para trabalhar me dando um relatório mais completo do que eu esperava.

            Dirigi-me com ar desconfiado e debochado para o ajuntamento. Achava extremamente imaturo esse comportamento das garotas em cima de um romance, não poderia imaginar algo relevante nessas leituras. Sempre agradeci que a Fabiana não é como elas, senão muito provavelmente não conseguiria namorá-la.

            A autora autografava alguns livros e conversava com as pessoas, parecia realmente muito simpática. Ao me aproximar mais notei que também era bem bonita. “Não é à toa que conseguiu esses empregos, entrevistas, fama”. Não era uma beleza espetacular, era um ar curiosamente cativante. Pele levemente morena, longos cabelos castanhos presos num rabo de cavalo caído. Vestida bem simples, uma camiseta preta com jeans claro. “Na verdade ela até parece uma moça bem comum”. Julguei pela aparência que ela tinha por volta da minha idade. Não usava aliança. “Solteira aos 20 e tantos, escrevendo um romance”, eu ria sozinho.

            Enviei um áudio pelo WhatsApp para minha namorada contando da minha empreitada de tentar entender o alvoroço deste público do qual eu agradecia ela não fazer parte. Vesti uma nova expressão facial, fingindo real interesse no evento. Entrei no aglomerado, peguei um exemplar da pilha de livros e tentei olhar nos olhos da jovem autora, pretendia cumprimentá-la e fazer questionamentos objetivos sobre sua obra, mas ela parecia bem atenta ao desabafo de uma menina que aparentava ter seus 17 anos e ter se identificado com a história fictícia presente nas 280 páginas.

            Percebi que eu precisaria aguardar um pouco para ser atendido, então decidi folhear o livro e ver se pelo menos se tratava de uma boa escrita. Abri em páginas avulsas, escolhendo parágrafos soltos – as ideias me pareciam coesas, de repente eu até seguia adiante, algumas ironias embora bobas me fizeram rir, outras frases me pareceram bem filosóficas. “Que combinação estranha”, pensei, “mas parece que deu certo”. Foi quando consegui finalmente ouvir sua voz e tentei aplicá-la àquelas palavras escritas – e eu senti um arrepio. Olhei para ela novamente.

            Havia algo familiar naqueles gestos, no jeito de balançar a cabeça e os ombros, no seu sorriso, mas eu não conseguia ver bem seus olhos. Eu a conhecia. Ocorreu-me que eu não havia olhado o seu nome na capa do livro, nem perguntado ao funcionário-informante. Mirella Cortês. Por Deus! Não era possível! Minha respiração até parou por uns quatro segundos. Eu tive uma espécie de relacionamento com essa garota, anos atrás. Quanto tempo? Eu não conseguia me lembrar ao certo, cinco ou seis anos.

            Meio atordoado, sentei num pufe que encontrei por ali e tentei ler por alto mais páginas do livro. Ela sempre gostou de escrever, é verdade, bem que me lembrava dela ter cursado Jornalismo, eu nunca tive muita paciência de ouvi-la falar sobre seus estudos e trabalho, na verdade. Não imaginaria que ela estivesse no Brasil ainda; uma pena, alguém que não aproveitou seu potencial para crescer tanto.

            Voltei ao livro, apenas para perder ainda mais o fôlego. Algumas impressões daquela história me pareciam familiares. Mas que viagem! Aquela era a nossa história. Ela escreveu um livro para contar o que aconteceu entre nós dois?! Que loucura é essa, fui vendido, descrito certamente como um decrépito garoto que acabou com sua vida amorosa e a levou a dar a volta por cima. Ou será que ela romantizou tudo para ter um “felizes para sempre”? Com raiva, continuei lendo. Ela alterou apenas alguns detalhes objetivos, mas era a história na íntegra, até os diálogos me pareceram bastante possíveis de serem reais.

            Ela ainda lembrava? Não superou? Ah não, lembrei-me de que ela me disse certa vez, enquanto ainda estávamos juntos, que havia feito algumas tentativas de escrever nossa história porque ela era bizarra. De fato, não poderia negar que eu devo tê-la magoado bastante. A realidade é que depois do segundo término perdemos o contato quando fiz um intercâmbio e eu nunca mais procurei saber dela.

            Considerei ter sido um grande erro ter ido até ali, uma perda de tempo. De que me importava? Levantei-me e ia me virando para ir embora, mas me desequilibrei e quase caí. Ótimo, chamei a atenção do conglomerado de apaixonadinhas. De volta à estabilidade, em pé, o olhar dela me alcançou. Eu, acanhado, apenas disse “está tudo bem”. Ela me reconheceu, fisgava o canto da boca, dando um meio sorriso.

            “Você não veio para o lançamento, imagino”, ela disse simpaticamente.

            Ela obteve como resposta meu silêncio e um olhar embaraçado.

            “Mas fique à vontade, logo mais haverá um café com entrevista aberta.”

            “Você acha que esse livro seria um bom presente para minha namorada?”, não sei por que, mas agi com essa audácia.

            “Na verdade eu queria lhe dar um de presente, Pedro.”

            Senti que meu rosto se avermelhava e a multidão tentava compreender de que se tratava aquela tensão toda.

            “Não, não precisa. Eu não tenho tempo para ler. Além do mais, eu já sei essa história”, por alguma razão a última frase saiu e me deu vontade de ver se ela saberia jogar com suas emoções em público, ela costumava ser meio descontrolada.

            Algumas pessoas pareceram suspeitar o que acontecia ali. Ela apenas assentiu, com aquele meio sorriso novamente. Eu desconhecia essa Mirella. Ela tinha os olhos determinados, frios. Ela não retrucou, não haveria o circo pegando fogo. Dei as costas, caminhei uns três passos, mas parei e me virei para ela.

            “Mirella, você tem uma versão da história crua, sem as camadas fictícias?”

            “Não foi preciso. Mas uma boa história sempre deve ser contada, mesmo que de maneira diferente.”

            Eu sorri discretamente. Dirigi-me ao caixa e comprei um exemplar e uma caderneta. Enquanto saía da livraria imaginava-a tendo que explicar às suas fãs que eu era a razão daquele livro ter sido escrito, ou inventando alguma explicação improvisada. Talvez eu nem lerei aquele livro, acho que me falta a coragem. Darei para a Fabiana de presente – a caderneta, com boa razão; o livro como um presente de amigo da onça, e ela vai ler, rir e dizer que é tudo bobagem.

Guardo-lhe como a um segredo

Guardo-lhe como a um segredo,
Já que está longe dos olhos de todos
Permaneça também distante dos ouvidos.

Guardo-lhe numa parte do coração
Que aprendi a cobrir com a normalidade
E apenas desvelo a mim mesma.

Guardo-lhe sem nome e sem endereço,
Pois do que os outros não sabem, não perguntam
E apenas farei força para que não percebam.

Guardo-lhe numa caixinha de surpresas,
Não a vejo com constância, nem a abro,
Mas tenho na memória tudo o que contém.

Guardo-lhe em nossas conversas,
Junto a abraços e beijos de lembranças,
Os quais paradoxalmente desejo compartilhar.

Guardo-lhe, por fim, neste poema,
E será que, se passar, ainda estará aqui;
Mas quanto menos falo, mais real você fica.

Desabafo da mágoa

Não é estranho que quanto mais tentamos fugir das pessoas, mais elas nos encontram? Junto a isso, uma terrível sensação – de que a mágoa que lhe machuca nem sequer é lembrança por quem a causou. São várias náuseas em cada encontro e desencontro com aquele a quem se dirige a mágoa.
Assim, você anda por aí torcendo para que os caminhos não se cruzem. Nos compromissos em comum, finge que nunca conheceu a criatura. Cada vez que mencionam seu nome numa conversa, faz comentários superficiais e distantes a seu respeito. Se de longe o avista, depressa recalcula a rota para evitar a fadiga.
Mas se não houver jeito e passarem um pelo outro, pega o celular e finge haver algo de muita importância a ser resolvido (como visualizar os contatos da agenda). Se ele quase esbarrar em você, apenas continue rindo com quem estiver à sua volta, siga fazendo o que deveria estar fazendo. Se realmente não tiver como, se está bem sentado à sua frente, faça cara de paisagem e conte histórias, fale sobre seu dia normalmente, ignore o suave sorrisinho que dirigir a você.
Porém, a real desgraça é que não importa o quanto você fuja, parece que o drama brota dos bueiros. Dos lugares mais óbvios aos inimagináveis, lá estará a pessoa evitada. Você vai se corroer cada vez que vê-la, pensando em quão desconfortável é, e em quanto o outro parece nem ligar. Vai ficar imaginando o que se passa naquela cabeça alheia e sempre torcer para que seja recíproca a sensação de estranheza.
No entanto, apesar do risco de ser todo um mal entendido, muito provavelmente toda a sua frieza, distância e olhares fulminantes serão suficientes para aniquilar qualquer tentativa de reconciliação. E lá estará você, com o estômago nas mãos, revirando cada vez que pensar que pode encontrar a carcaça que criou-se na sua mente.

Aviso prévio da Modernidade – A perda da visão 

Se eu pudesse voltar quarenta anos
Eu avisaria as pessoas que surgirá
Um bloco eletrônico que todos terão
Acumulando funções manuais
Instaurando a praticidade na palma da mão.

A atratividade desse slogan
É compatível com o vício resultante
Evolucionistas diriam que as gerações
Posteriores terão dedos alongados
De tanto e para tanto manuseá-lo.

Olhando ao redor penso que os criadores
Queriam demitir o mundo da vista,
E conseguiram que todos andassem cabisbaixos,
Com os olhos presos às malditas telas.

Corpos desalmados

Abaixo o platonismo,
Que dividiu mente e corpo,
Pois eis que somos uma coisa só.
Porém a palavra “alma”
Carrega em si uma aura
Que representa, vez ou outra,
Aquela essência do ser,
O que nos torna humanos.
Aí que vem a técnica,
Perfeita e funcional,
Nos encanta a mente,
Brilha os olhos cansados,
No reflexo de uma tela.
E com os olhares fixos,
Ficamos o carcaço,
Corpos desalmados.

O Romance na Era Digital

                                     1

Comportamento bizarro e inconstante
De olhares furtados e sorrateiros,
Contrastados a frequentes
Curtidas e visualizações.
Um ritual de conversas noturnas
Vazias, que almejam
Sair de uma tela
Mas, no processo,
Perdem-se no
Des-
Interesse.

                                     2
Os céus das cidades, azuis opacos,
Riscados de fios elétricos condutores
Permeados de ondas invisíveis,
Que carregam a codificação criada
Para representar o que pouco sabemos.
Mensagens de amor, de cônjuges a amantes,
Destinadas a cruzarem-se revestidas
Da aura do sigilo e do mistério.

                                      3
As medidas no virtual são sígnicas;
Os comportamentos codificados significam
Análises objetivas das atitudes digitais.
Entre visitas às histórias e reações às
Exposições feitas de si mesmo – pergunta-se –
O que resta saber e que importa além da tela
Para além do espectro magnético;
Como é que se transita do holograma ao físico?

O homem que não vigiava

Um homem vivia seguro de seu orgulho. Advogado, tinha segurança de que fazia justiça todos os dias em seu trabalho e conhecia o que se passava em sua cidade com toda a confiança. Certa noite, deitou-se para dormir ao lado da esposa. Lá pelas tantas da madrugada, ouviu-se um estouro. Assustado, acordam os dois juntos. Ele desespera-se com o som do tiro. Ouve mais um. Se lembram de que não têm nada para se defender, não possuíam mais armas em casa. A casa, aliás, de dia era um agradável lar familiar, mas de noite facilmente acomodaria um conto mal assombrado. Alocada ao fundo de um terreno cheio de árvores, a casa era fria e velha, cheia de quadros de tinta a óleo e papeis de parede decorados. Alguns azulejos e pisos rachados, tal que quando alguém andava todos ouviam. Ouviu passos. Apavorado, esgueirou-se cama abaixo e, deixando sua esposa no quarto, engatinhou até o quarto da sogra, que dormia só. Acordou-a e implorou que se unisse no medo e numa solução. Ela fez pouco caso, disse que não ouviu nada. Ele voltou do modo como foi, talvez ela nem quisesse mais viver ou estivesse surda. Ligou para os vizinhos, um advogado, outro juiz, outro ainda médico. Por fim, tornou a dormir. Na manhã seguinte notou que ainda vivia e que nada faltava em casa. Intrigado, olhou debaixo da cama e dos móveis em busca  de alguma bala perdida. Ao invés disso, encontrou o resto de bexigas de aniversário  estouradas e lembrou-se da festa da filha. Decepcionado consigo mesmo, foi trabalhar de cabeça baixa. Os vizinhos vieram consolar e saber o que houvera. Envergonhado disse apenas que nenhum suspeito foi encontrado.