A menina e o rádio

Devia ser o ano de 1995. Era engraçado ver os grupos formados pelas crianças. Elas deveriam ter dez ou onze anos. Mas havia uma garota bonitinha, tímida e centrada, que parecia não se enquadrar em nenhum grupo. Era magra, cabelos pretos bem lisos num corte chanel, olhos verdes brilhantes, o rosto pintado com discretas sardas davam a ela uma aparência meiga. Dizer que ela não tinha amigos seria radical demais. Algumas meninas tentavam enturmá-la, mas por vezes ela recusava o convite. A professora elogiava Clarisse como uma aluna inteligente, responsável e educada, porém advertia sua mãe de que ela parecia solitária por opção própria, o que não era comum para uma criança. Houve alguma compreensão importante e séria naquela última reunião de pais antes que acabasse o quinto ano, pois a professora não mais se incomodava com a clássica cena da pequena garota ouvindo rádio sozinha no pátio.

Passaram-se mais alguns anos e ela havia acabado de começar o ensino médio. Estava acostumada a ser motivo de piadas a respeito do seu companheiro rádio. Seu limite de paciência, no entanto, foi atingido um dia, quando entrou na sala e encontrou desenhos de bullying explícito, referindo-se a ela de forma pejorativa. Ela se sentiu esvaziar por dentro enquanto os risos ecoavam dentro dela e as imagens pareciam se tornar banners gigantes em sua mente. Chorava e esbravejava, atraindo a atenção de alguns professores, mesmo sendo no horário do intervalo, porém se recusava a dar alguma explicação a eles. De alguma forma, sentia vergonha de contar a história.

Seu avô havia morrido quando ela tinha nove anos após lutar contra um câncer. Por não ter conhecido seu pai, o avô tomou este lugar. Ele tinha o costume de ouvir o rádio, desde as músicas até debates políticos e programas educacionais. Ouviu o sucesso dos Beatles e os anúncios da ditadura militar. Quando já estava de cama e sabia não ter mais solução, deu seu rádio à neta que tanto o admirava. Após seu falecimento, Clarisse passou a imitar o hábito do avô. Havia nela, porém, um olhar diferente. Era óbvio que uma garota dessa idade não se interessava ou mesmo compreendia as discussões sobre saúde, educação e política, mas ela o ouvia com tamanho favor que ninguém ousava oferecer-lhe outro passatempo.

A preocupação veio à medida que ela avançava na adolescência e o seu passatempo parecia ter se tornado uma obsessão. Sua mãe tentava descobrir o que levava a filha a agir de forma tão oposta à dos outros adolescentes. Pôs-se a conversar decisivamente para tirar o rádio dela, mas o que obteve foi um escândalo, com lágrimas e súplicas, palavras que tentavam dar alguma explicação sem sentido, algo como ouvir seu avô falar, até que Clarisse entrou no quarto com o rádio e trancou a porta.

Um ocorrido fez tudo vir à tona novamente. Certa vez no terceiro ano do ensino médio, durante uma prova de física, ela se recusava a retirar o rádio de cima de sua mesa. Diante da ameaça do professor, a menina se pôs a chorar feito criança e saiu aos prantos da sala de aula, com o rádio em uma mão, o estojo em outra, a bolsa e a blusa de frio jogadas no ombro, sabendo que ganhou uma prova anulada. A mãe foi contatada pela escola, a filha não negou. Lembranças vieram à mente da mãe, que agora se acalmava. Frases de seu pai, atitudes, a obsessão pelo rádio, uma extrema inteligência e a solidão; diagnósticos médicos, remédios que ela não conhecia a princípio, mas depois descobriu serem necessários para o avô de Clarisse. Era genético. Sabia para quem ligar – o mesmo médico que vira seu pai visitar tantas vezes. Seguindo as recomendações profissionais, Clarissa foi convidada a ficar internada numa clínica de síndromes psiquiátricas por um tempo.

Os anos já se passaram e ela estava prestes a se formar na faculdade. Todo dia é vista andando pela praça na mesma cidade em que morava, fazendo compras. Era uma manhã fria quando ela caminhava e passou na frente da escola onde estudou. Os colegas, os choros, as brincadeiras, o bullying, sua mãe, o médico, o hospital e, bem ao fundo, a imagem de seu avô, formaram-se todos na sua mente. Entrou num café, assentou-se e, enquanto aguardava seu pedido, ouvia o rádio.

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