No mesmo lugar

            Parece que foi ontem. Quase consigo vê-la na minha frente, corando de vergonha enquanto a amiga dela me conta que ela gosta de mim e em seguida tenta nos deixar a sós para conversar. Tenho vergonha da minha falta de reação. É claro que não era para acontecer nada, éramos muito crianças, uns 12 ou 13 anos. E foi bem aqui, debaixo dessa árvore, onde tínhamos algumas atividades escolares ao ar livre.

            Hoje tudo mudou. O lugar onde passei minha infância tem outro nome. Não mais casa, mas faculdade, internato, estudo, esforço, desgaste, saudade. A casa onde morei abriga outra família. Às vezes tenho vontade de entrar lá novamente, sentir a emoção de deitar na cama que estiver no quarto que era meu e tentar me sentir um garoto de novo, antes da notícia que iríamos embora, que eu deixaria para trás todo o universo restrito e rudimentar que eu conhecia e iria para a cidade grande, a capital nacional.

Nós só nos falamos através de redes sociais. Mas eu a vi, lá no meio de tantos conhecidos, com o sorriso mais bonito que eu poderia ter imaginado, conversando com tanta naturalidade que tive dificuldade de recordar sua antiga imagem tímida. Tento acenar, mas não tenho coragem. Não tive coragem. Nos falamos depois, lamentando não termos nos encontrado. Então descobri que ela estaria aqui definitivamente (pelo menos por enquanto) neste ano. Senti um arrepio percorrer minhas costas. Lembrei de uma frase que minha mãe me disse certa vez quando falei sobre ela logo que nos mudamos – “você vai ver, um dia você a encontrará no mesmo lugar onde se encontraram pela primeira vez”.

Decidi dar uma volta com meus amigos pelo campus e não pude deixar de fitar os banquinhos debaixo da árvore. Aquele dia. Algo tão infantil, inocente que hoje me faz tremer de nervosismo quando ela passa, obriga meus olhos a se desviarem quando encontro os dela e provoca uma amnésia de todas as palavras conhecidas ao meu vocabulário. Decido seguir a caminhada sem olhar para trás, sem olhar para aquilo dia que me obriga até hoje a avaliar qualquer outra garota baseando-me na minha amiga.

A verdade é que não tenho tempo. Para conseguir falar com ela preciso desenvolver uma conversa, no mínimo encontrar um assunto em comum. Não é por falta de identificação, temos muito em comum. Só não sei mesmo como me dirigir a ela. Mas há um medo, medo de perdê-la para tantos outros que simplesmente sabem o que falar para ela e tirar o riso mais incrível que já vi. Ao mesmo tempo, há uma certeza de que jamais perderei ela, que ela sempre voltará para mim, talvez no mesmo lugar onde a encontrei pela primeira vez. Não a primeira vez literal, mas a primeira vez que encontrei nela alguém que eu amava. Não só, era também apaixonado. Mas tantos outros a rodeiam, talvez eu devesse esperar que ela viesse diretamente até mim. Não posso perder o foco dos estudos, além de que tenho muito tempo para planejar meus relacionamentos. Mas há algo impossível naquele sorriso que se rasga naquele rosto tão meigo, tão sutil, tão imponente, tão atraente.

Ela virá até mim, naquele mesmo lugar, tenho certeza. Mas não posso esperar, mas também não posso simplesmente me assentar aqui e arquitetar uma estratégia para reconquistar uma garota. Seria perder tempo. Exceto que para o coração qualquer tempo perdido significa menos vida. Pode significar alguns dias somente sem ela, ou pode significar perder a oportunidade que me custará anos para recuperá-la. Não a vejo como um alvo a ser alcançado, um troféu a ganhar. É só o resultado natural de seguir os passos das palpitações cardíacas.

Foi numa tarde em que estava desprevenido tentando por em prática o hábito esportivo que vi uma figura familiar andando pelo gramado. Nem me lembro o que ela estava indo fazer por lá. Mas me lembro de ter notado seus cabelos esvoaçantes ao vento, aquele olhar penetrante que prende quem olhá-lo na direção exata e aquele sorriso que ainda estava se formando tão discretamente. Eu só consegui pronunciar um “olá” e disso me lembro. O restante da conversa deve estar preso no meu inconsciente e deve se revelar em imagens esparsas nos meus sonhos. Lembro-me de sentar naquele mesmo banco debaixo da árvore. E quase ouvi minha mãe dizer, “no mesmo lugar em que se encontraram da primeira vez.” E reencontrei aquela força da paixão que me fazia olhar tão diretamente em seus olhos e me perder no seu sorriso enquanto eu não fazia a menor ideia da expressão que eu tinha no meu rosto.

Devo ter digo algo bobo, algum comentário sobre a faculdade, não sei. Mas ela riu, riu e jogou sua cabeça pra trás, como sempre fazia, com os cabelos soltos e os olhos apertados pelas bochechas num sorriso largo. E eu a beijei.

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