7 coisas toscas

Eu juro que não sou supersticiosa. Também detesto encontrar mensagens subliminares. Acredito só em coincidências. Ou acreditava. Ah, nem sei mais. Mas foi tudo ridículo, ridículo. Ridiculamente lindo. Ainda me pego sorrindo sozinha olhando no espelho quando lembro tudo que tive que passar pra chegar nisso. Valeu a pena? Claro que sim. Não amo ele, só estou apaixonada. Mas dizem que é assim que começa. Mas isso não importa, nem sei se é isso mesmo que eu quero agora. Mas vamos ao que interessa.

O Allan é muito gato. Isso é fato. Tenho uma queda por ele há tanto tempo que nem sei dizer como começou. Mas ele é popular e é dois anos mais velho que eu. Não que eu não seja popular, só me escondo um pouco mais das pessoas e estou no primeiro ano da faculdade. Isso deve explicar alguma coisa. A questão é que eu sempre desacredito dessas coisas, acho totalmente fútil se preocupar. Ou achava. Aprendi a conviver com um sentimento superficial que somente me provê um friozinho na barriga quando ele passa e um olhar de admiração. Por que eu quereria algo mais que isso? É tão bom poder estudar, sair e falar qualquer coisa sem se preocupar com um anexo em sua vida. Boba, ingênua e ignorante. Mal sabia eu que o problema era eu, que não fazia nem ideia do que era ser desinibida.

Tudo começou num dia estranho. Digo estranho porque nem me recordo qual foi a última vez que choveu na minha pequena cidade de Lauro de Freitas em pleno setembro. Meu aniversário havia se passado há dois dias. Estava indo para o restaurante universitário e encontrei na mesa que eu sempre sento um bilhete colado com meu nome. Pensei, “quem quer que tenha sido, é muito corajoso, ou é piada; e se eu mudasse de mesa logo hoje?” O bilhete trazia um “Feliz aniversário, Bela. Você é linda!” Eu ri. Quem tem uma ideia tão sem criatividade para mandar uma mensagem dessas. Até pensei que fosse algum de meus amigos. Mas eles pareciam tão surpresos quanto eu. Me indignei com a surpresa deles, pois era um espanto  no sentido de desacreditar que poderia haver alguém que se interessasse por mim sem ter minha amizade. (De acordo com eles, só é possível gostar de mim se me conhecer. Do contrário, sou insuportável).

Meu nível de estresse por causa da prova de cálculo não me permitiu refletir sobre quem poderia ser. Até que no dia seguinte encontrei um bilhetinho colado na minha cadeira. Primeiro, surpresa. Depois, medo. Alguém estava me observando avidamente. O recado simplesmente dizia, “Bom dia, linda!” Todos na sala me viram pegar o bilhete, então para tapear a vergonha eu exclamei “ah, já pode parar o autor sem criatividade dessa palhaçada!” Muitos riram murmúrios, inclusive o professor. Nessa hora o monitor fechou a porta da sala demorou a se virar, então começou a distribuir as provas corrigidas. Ah, aquele monitor! A minha foi a primeira. Achei interessante observá-lo com vergonha. “Provavelmente está com vergonha por mim, vergonha alheia, como chamam,” pensei. Só queria um buraco e uma bola de cristal.

Tirei 8 na prova. Não era o que eu queria, mas está bom. Folheei a prova para ver o que errei e me decepcionei com minhas distrações. Tentando engolir ainda que alguém possivelmente estava zombando de mim com aqueles bilhetes, decidi ir ao banheiro. Não entraria na minha cabeça que era sério. Fui dar uma volta de uns cinco minutos, bebi água, comprei chiclete na cantina e voltei para a sala. O professor estava começando a falar, então abri meu caderno para começar a anotar. Remexi meu estojo e achei um papel dobrado em pelo menos 8 vezes. Já com o coração disparado e o rosto corando, abri o bilhete que dizia “um dia ainda vou te surpreender”. Mais do que está me surpreendendo com essa falta de criatividade? Impossível – pensei. Cuspi para cima. Sempre posso ser surpreendida. Quando abri o caderno havia um coração desenhado com meu nome escrito no meio. Pufei tão alto que acho que todos ao meu redor me ouviram. Mas decidi me concentrar na aula.

No intervalo, estava andando com a Dani. Ela me disse para parar de drama, que eu devia agradecer porque alguém olhava pra mim.

“Não sou como você, que precisa de alguém te admirando para me sentir especial”, eu lhe disse.

“Sabe o que eu acho, Isabela? Você é tão orgulhosa que não enxerga que precisa dessa armadura de frieza pra fingir que é feliz como está. Na verdade, você se sente superior porque diz nunca ter se apaixonado por ninguém. Você nem sabe o que é sentir aquele friozinho na barriga por ver “o cara” passar. Ou melhor, você deve saber, impossível que com 18 anos nunca tenha passado por isso. Mas você faz a pior coisa de todas: finge que nunca sentiu isso, decidiu que os estudos seriam uma desculpa muito boa para te fazer parecer a candidata do momento para o futuro brilhante. Sabe, amiga, tenho dó de você.”

Quem ela pensa que é pra despejar essa análise psicoemocional de mim como se ela tivesse se formado em psicologia e não fosse uma mera estudante de Letras?

“Minha aula de isostática vai começar e é no outro prédio, já estou atrasada. Te vejo depois da aula.” Audácia.

Segui meu caminho. Cabeça erguida, postura ereta, bolsa de lado, cara de séria, olhar firme, utilizando toda minha visão periférica para observar tudo e garantir que não seria pega de surpresa por ninguém. Na minha cabeça se misturavam todas as frases da Dani. Todas ao mesmo tempo. Acusando-me de algo tão vago, mas também tão complexo, tão superficial, mas tão profundo, tão ridículo, mas tão real. Eu sentia que estava andando em slow motion. Parecia que o olhar de todos me queimava, como se eu fosse a criatura mais pobre, miserável, sofrida já vista. Senti um choque percorrer meu corpo. Estupidez. Sou miserável porque sou um pouco mais racional que emocional? Ah, tenha dó. Acredito que simplesmente um dia tudo que deve acontecer, acontece, então não preciso me preocupar com isso nem procurar as tais das coisas que devem acontecer. Meu olhar de bichinho assustado voltou ao equilíbrio.

Foi quando senti algo acertar a lateral da minha cabeça. Uma bolinha de papel. Olhei na direção da qual ela devia ter vindo, uma porta entreaberta. Peguei a bolinha. Pensei em jogá-la de volta para sua suposta origem, mas notei o coração vermelho pintado com tinta guache. Me perguntei por que diabos alguém na faculdade teria tinta guache. Nem me ocorreu que eu estava no corredor de Arte. Abri a bolinha, já desconfiando que se tratava do mesmo autor dos bilhetes anteriores. A caligrafia não era exatamente a mesma por motivos óbvios – ninguém escreve igual de caneta e de pincel. Uma frase simples, para variar: você está linda. Eu ri e disse alto o suficiente para o corredor todo ouvir:

“Seu imbecil, se quer me conquistar não deveria sugerir que estou linda somente hoje.”

Havia dois garotos e uma rodinha de uns quatro alunos perto da porta. Todos ouviram e, claro, acharam graça. Não me senti idiota. Me senti desejada, meu olhar assumindo tons sensuais. Eu andando devagar, sentindo meus passos fortes e seguros. Mal virei a esquina do corredor e senti uma bolinha acertar minhas costas. Havia uma quantidade significativa de tinta guache acumulada em volta dela.

“Oras, ainda mancha minha blusa. Espera mesmo me conquistar?”

Abri o bilhete e não me surpreendi quando li “Você sempre está linda.” Eu disse alto, mais uma vez:

“Ainda assim, você está fazendo isso errado. Eu não estou sempre linda, eu sou.

Soou totalmente arrogante, orgulhosa, convencida a minha fala, eu sei, mas queria encontrar o autor. Uma hora eu teria que ver. Dobrei a esquina, dei mais uns quatro passos e senti mais uma bolinha. Girei nos meus calcanhares o mais rápido que pude, a tempo de vê a mão do lançador ainda apoiada no quina da parede. Fotografei o tom daquela pele. Corri o pequeno trecho a tempo de sentir o vapor de passos apressados e ver a bainha das costas de um casaco azul marinho virando-se e fechando atrás de si a porta da sala de artes. Não tive dúvidas. Corri até a sala. Alcancei a maçaneta da porta, ofegante, me recompondo e me preparando psicologicamente para descobrir que é meu admirador secreto. Antes, porém, joguei meu material – caderno, dois livros e bolsa – no chão e abri a bolinha. “Me desculpe, você é linda”. Respirei fundo e abri a porta.

Entrei na sala e imediatamente cobri minha boca com as mãos. Como eu pude ter coragem de dizer que tinha uma queda pelo playboyzinho do Allan? O admirador, quem era? O meu monitor de Cálculo. Sempre achei ele bonito, mas o sentia ainda mais inatingível que o Allan, apesar de ele sempre ter o olhar mais carinhoso e atencioso que já vi na vida. Havia simplesmente um painel que cobria um bom trecho da parede e dizia nas mais simples palavras pintadas à guache: Você quer namorar comigo? Ele se aproximou de mim e disse nas, todo envergonhado:

“Sou muito tímido e péssimo com as palavras, mas devo ser bom em alguma coisa.”

Entre risos contidos, eu disse com a maior naturalidade: “É sim, em criatividade.”

Deixei que ele me abraçasse de modo que ficamos abraçados um de frente para o outro e disse: “Podemos descobrir se você é bom de outras formas também.” Ri e emendei um beijo de leve na boca dele.

Ele me respondeu, já tão vermelho e com o sorriso paralisado: “Vou entender isso como um ‘sim’ para o meu painel.”

Nos beijamos. Não foi o melhor, ainda não, pelo menos. Mas, de acordo com a Dani, agora posso afirmar que já vivi.

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