A arte de amar – parte 2

Erich Fromm aborda rapidamente o amor na sociedade do consumo, que resulta em enxergar as pessoas como opções no mercado e escolher aquela que parece ser a melhor opção disponível no mercado. Isso até lembra Bauman em Amor Líquido, dizendo que o se apaixonar na era do consumo se assemelha à especulação na bolsa de valores. Outro problema do amor na era atual, para Fromm, é que poucas pessoas aceitam que ele é uma arte – tanto quanto viver é uma arte – e, portanto, é necessário aprender esta arte. Diante disso, surge outro problema: demanda-se tempo, raciocínio e aprendizado para se tornar hábil nesta arte; e mais uma vez recorremos a Bauman, dizendo que na sociedade líquida (veloz e incerta) não há tempo a perder, e nisso a natureza humana cabe bem (convenhamos, todos nós somos egoístas, só não gostamos de assumir isso para não manchar nossa moral, o que prova novamente que somos egoístas).

Irônico é observar um comentário de Fromm acerca da lógica capitalista. Diz ele que assumiu-se um pensamento de igualdade no sentindo de des-individualizar o ser humano, tal qual os autômatos e os objetos produzíveis o são. De certa forma, seres humanos são produzíveis também – é para isso que nos reproduzimos como espécie. Assustador é termos a coragem de comparar tais coisas como se fossem iguais. Um pensador atual de comunicação e sociologia, Ciro Marcondes Filho, afirma em várias de suas obras que o ser humano criou as máquinas e passou a admirá-las mais do que a si mesmo, tanto que, inicialmente, ele delegava algumas de suas tarefas, seu sonho passou a ser que elas fizessem todas suas atividades, como se as máquinas pudessem viver por ele para que então o ser pudesse “curtir” (pergunto o que é que sobra se a máquina faz tudo); finalmente, ele deseja ser uma máquina.

Mas se a máquina e/ou o produto são seriados, embora eles façam as atividades de cada indivíduo, eles são todos iguais – objetos subordinados e ao mesmo tempo dominadores. Ao mesmo tempo em que se buscar ter um algo que se encaixe só para si mesmo, todos desejam ter o que é comum ao grupo e ao status para que possam estar coberto dos signos que lhe fazem ser alguém. Eis um paradoxo, ser um único igual. Mas se olhamos para todos como iguais, onde está a grande dificuldade de escolha? Porque que fizemos das nossas relações um mercado especulativo e analisamos tanto sem vivê-lo de fato? De tão autênticos que tentamos ser no nosso comportamento, nos tornamos mais um de todos.

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