O homem que não vigiava

Um homem vivia seguro de seu orgulho. Advogado, tinha segurança de que fazia justiça todos os dias em seu trabalho e conhecia o que se passava em sua cidade com toda a confiança. Certa noite, deitou-se para dormir ao lado da esposa. Lá pelas tantas da madrugada, ouviu-se um estouro. Assustado, acordam os dois juntos. Ele desespera-se com o som do tiro. Ouve mais um. Se lembram de que não têm nada para se defender, não possuíam mais armas em casa. A casa, aliás, de dia era um agradável lar familiar, mas de noite facilmente acomodaria um conto mal assombrado. Alocada ao fundo de um terreno cheio de árvores, a casa era fria e velha, cheia de quadros de tinta a óleo e papeis de parede decorados. Alguns azulejos e pisos rachados, tal que quando alguém andava todos ouviam. Ouviu passos. Apavorado, esgueirou-se cama abaixo e, deixando sua esposa no quarto, engatinhou até o quarto da sogra, que dormia só. Acordou-a e implorou que se unisse no medo e numa solução. Ela fez pouco caso, disse que não ouviu nada. Ele voltou do modo como foi, talvez ela nem quisesse mais viver ou estivesse surda. Ligou para os vizinhos, um advogado, outro juiz, outro ainda médico. Por fim, tornou a dormir. Na manhã seguinte notou que ainda vivia e que nada faltava em casa. Intrigado, olhou debaixo da cama e dos móveis em busca  de alguma bala perdida. Ao invés disso, encontrou o resto de bexigas de aniversário  estouradas e lembrou-se da festa da filha. Decepcionado consigo mesmo, foi trabalhar de cabeça baixa. Os vizinhos vieram consolar e saber o que houvera. Envergonhado disse apenas que nenhum suspeito foi encontrado.

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