Inusitado

Acordei de um longo cochilo num sábado à tarde. Pulei o almoço. Saí para um evento das 8h às 10h, cheguei em casa às 11h, me joguei na cama e eram 17h quando a gata da Alexandra, amiga com quem divido o apartamento, “amassava pão” nas minhas costas e eu abri os olhos cegados pela luz que entrava pela porta. A Alexa em pé encostada no batente com uma térmica de café na mão me dizia coisas que eu não entendia direito, algo sobre acordar que eu já havia dormido demais, tinha um lanche na sala, se eu estava de ressaca, havia bilhetes de recados no balcão.

Movi-me vagarosamente, a cabeça doía. Alcancei o celular e sentei-me na cama. Várias mensagens que eu não pretendia responder antes de segunda-feira. Uma mensagem de um amigo, o Bruno, me chamando para sair, já que o restante de nosso grupo de amigos estava viajando ou ocupado. Olhei para a Alexa sentada, com um coque preso por um lápis, à frente de seu notebook bem concentrada num freela. Respondi que iria sim. Cinema, ver qualquer coisa que tivesse por ali.

Tomei um banho rápido, vesti a primeira camiseta que encontrei, uma calça jeans, um cardigã, uma sandália hippie. Ao olhar no espelho vi um rosto com olheiras leves e um cabelo um pouco despenteado. Sem me importar muito, joguei o cabelo para trás – aquela ilusão de que ao cair ele estará arrumado – e nem passei maquiagem. Não era um passeio que requeria tal cuidado. Vendo que eu saía assim tão despretensiosamente, minha companheira deve ter suposto que eu iria à praça tomar um ar ou comprar pão.

Entrei no elevador quando recebi uma mensagem do Rodrigo. Parece que soube que eu iria ao cinema, ele morava uma quadra antes, ia encomendar algo da lanchonete ali da esquina, algum problema no cartão, sem dinheiro pra entrega, preso em casa terminando um projeto para um cliente. O resumo era que ele me pedia o favor de buscar o lanche e deixar na casa dele. Realmente, estava fácil. Embora fosse meu melhor amigo, ele andava muito folgado e eu sem paciência. Sentia-o ingrato e acomodado na nossa amizade. Quer saber? Fique sem comer, faria bem em emagrecer um pouco. E segui minha caminhada rumo ao cinema.

Encontrei o Bruno escorado na parede me esperando. Nem o cumprimentei direito e já falei para irmos entrando e pegar a fila. Escolhemos uma comédia que parecia razoável. Já sentados, eu estava atenta aos trailers quando o senti pegar a minha mão. Deitei em seu ombro, cansada que estava, não haveria mal nenhum nisso, e ali permaneci até o fim do filme.

Saímos da sessão sem comentar o enredo, nem do filme, nem o nosso.

“Está com fome?”, ele me perguntou, como se não fosse óbvio.

“Sim, claro, vamos para aquele barzinho de sempre pegar uma batata.”

A batata e mais uns dois pratos de petisco. Bebemos suco mesmo – a sugestão foi minha, três taças de vinho e dois shots de tequila na noite anterior me bastavam para aquele final de semana. Aquele bar era até requintado, mas destoava em seu interior com uma mesa de sinuca e um fliperama. Jogamos por umas duas horas, eu ri à beça. Até que eu, quase exausta, o abracei e disse que precisava ir embora.

Ele me acompanhava no caminho para casa, mas fez um desvio pela praça. De repente um alarme soou em minha cabeça. Já sabemos onde isso vai chegar. Paramos num ponto diante de uma ladeira, a vista era bonita. As luzes antigas do centro da cidade, a lua estava cheia, dando aquele tom enevoado no céu, a noção do rio correndo ao final daquela rua. Olhando para o coreto do outro lado da praça, se não houvesse uma leve preocupação com a nossa segurança ali, poderia dizer que regredimos algumas décadas e vivíamos uma noite de encontro dos nossos avôs.

Ele segurava minha mão, se aproximava do meu rosto, eu discretamente desviava. Não poderia deixar acontecer algo ali sem pensar bastante. Éramos amigos, não o suficiente para ser estranho, nem o bastante para eu saber se eu o achava interessante, mas eu definitivamente sentia ali algo eletrizante no seu toque. Era um romance válido, mas eu me sentia insegura.

Ele me segurou pela cintura, eu de braços cruzados apoiei os cotovelos sobre seus ombros, os narizes quase se encostando. Especialistas em linguagem corporal me digam se há algo mais paradoxal e confuso do que essa atitude. Conversávamos baixinho, rindo um do outro, os sorrisos largos e tímidos. Desviei de suas inclinações umas duas vezes, até que os lábios se tocaram numa longa pausa das palavras.

Meu celular tocou. Era o Rodrigo. Eu havia me esquecido de responder que não lhe faria o favor, ele queria saber se eu ainda teria tempo de fazê-lo. O coração chegou a tremer. Estava lá minha recente paixão platônica que se somou a uma intensa amizade, que eu estava ignorando na última semana por motivos de orgulho. Disse a ele que já estava longe da lanchonete, ficaria devendo essa.

Chegando ao apartamento, encontrei a Alexa sentada frente à TV vendo série. Perguntou-me onde eu havia ido. Dei um breve resumo sobre meu itinerário. Ela nem desconfiou de nada. O Bruno era recente em nosso círculo de amigos, ela mesma nem tinha proximidade com ele. Lancei-me novamente sobre o travesseiro, pensando se estava mais perdendo ou ganhando algo com minha atitude juvenil de indecisão.

De repente já era segunda-feira. Eu estava na agência, quando me disseram que alguém me esperava na recepção. Era o Bruno. Surpresa, eu o cumprimentei cordialmente apenas. Ele havia me trazido uma marmita de almoço. Agradeci. Perguntou se poderia me encontrar mais tarde, eu disse que sim. Ali mesmo, no complexo empresarial onde trabalhamos.

Era por volta das 19h quando ele me encontrou sentada num banco perto à galeria mexendo em meu celular. A franja caída sobre os olhos, que se erguiam por sobre os óculos – um forte indicativo de nervosismo.

“Venha, eu sei de um lugar interessante”, ele lhe disse.

“Vai me explicar ou devo me preocupar que isso seja arriscado?”

“Já foi ao jardim atrás do complexo jurídico?”

Segui-o ligeiramente para trás do prédio. Conhecia aquele lugar muito bem – a vista daquele campo era familiar, embora pouco freqüentasse aquele ponto exato. Após tantas andanças em rotas inusitadas sentia-me na verdade um tanto roubada do local que considerava meu segundo lar, trabalhava ali há seis anos, mas quem guiava o excitante e objetivo passeio era meu novo amigo que mal completava dois anos de competência profissional por ali e parecia conhecer cada ângulo possível.

Virei a esquina e ele estava escorado num canto da parede. Os oito passos até ele passaram como que num vácuo. Toda a tensão de dois dias atrás presa naquela ansiedade e calor que precede o momento – nada disso teve lugar na pressa de alcançar o buscado ponto cego. Mal cheguei até ele e já lancei os braços ao redor de seu pescoço enquanto ele me abraçava pela cintura e me puxava para perto. Em fragmentos de segundos estávamos nos beijando; e não foi nada como todo o clima criado na fracassada noite, com toda a cautela, os risos, os olhares tímidos, as conversas aleatórias para preencher o silêncio estranho, ou como as batidas entrecortadas do coração dúbio entre o certo e o errado daquela história.

Não, nem houve tempo de preparação, nos beijamos numa atitude que somava a retirada do atraso dos dias passados, o risco de sermos vistos e a graça que dava o segredo desse romance. No fim das contas, toda a preocupação com a ética e a legalidade sobre estarmos juntos havia sido em vão, estilhaçada no toque dos lábios, que se encontraram entre pequenas mordidas e longas junções. Antes tivesse me rendido na primeira vez, pelo menos teria o benefício da emoção do ato espontâneo, daquilo que simplesmente acontece. Jamais saberia o que teria acontecido, tivesse me permitido ser livre para sentir aquele momento.

Saímos do canto. Ele me puxou até encostar-se a uma pilastra longe da parede. Eu até queria dar mais uma olhada na paisagem ocultada pela noite – sempre gostei da discrição e graciosidade que o céu negro depunha sobre os prédios. Novamente nos beijamos. Eu sentia as mãos dele descerem pelas minhas costas e periodicamente tentar puxar-me para mais perto ainda, como se não houvéssemos preenchido todo o espaço entre nós.

Ele interrompeu um beijo, de sobressalto, ao ouvir o andar lento de alguém que não deveria estar ali e parou a poucos metros nos observando. Desconcertados pela presença do inusitado visitante. Era um segurança que nos olhava como uma estátua. Notando que teriam de sair dali, entre risos, caminhamos para longe dali abraçados até o meu carro, ele havia vindo de ônibus.

“Eu lhe deixo na sua casa,” eu disse enquanto colocava o cinto de segurança.

“Nos encontramos amanhã no mesmo horário? Vou achar outro lugar”

“Depende, vai me trazer a marmita de novo? Lembre que eu detesto berinjela da próxima vez,” nós rimos.

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