O homem que não vigiava

Um homem vivia seguro de seu orgulho. Advogado, tinha segurança de que fazia justiça todos os dias em seu trabalho e conhecia o que se passava em sua cidade com toda a confiança. Certa noite, deitou-se para dormir ao lado da esposa. Lá pelas tantas da madrugada, ouviu-se um estouro. Assustado, acordam os dois juntos. Ele desespera-se com o som do tiro. Ouve mais um. Se lembram de que não têm nada para se defender, não possuíam mais armas em casa. A casa, aliás, de dia era um agradável lar familiar, mas de noite facilmente acomodaria um conto mal assombrado. Alocada ao fundo de um terreno cheio de árvores, a casa era fria e velha, cheia de quadros de tinta a óleo e papeis de parede decorados. Alguns azulejos e pisos rachados, tal que quando alguém andava todos ouviam. Ouviu passos. Apavorado, esgueirou-se cama abaixo e, deixando sua esposa no quarto, engatinhou até o quarto da sogra, que dormia só. Acordou-a e implorou que se unisse no medo e numa solução. Ela fez pouco caso, disse que não ouviu nada. Ele voltou do modo como foi, talvez ela nem quisesse mais viver ou estivesse surda. Ligou para os vizinhos, um advogado, outro juiz, outro ainda médico. Por fim, tornou a dormir. Na manhã seguinte notou que ainda vivia e que nada faltava em casa. Intrigado, olhou debaixo da cama e dos móveis em busca  de alguma bala perdida. Ao invés disso, encontrou o resto de bexigas de aniversário  estouradas e lembrou-se da festa da filha. Decepcionado consigo mesmo, foi trabalhar de cabeça baixa. Os vizinhos vieram consolar e saber o que houvera. Envergonhado disse apenas que nenhum suspeito foi encontrado.

O paradoxo do ser no mundo

No limitado espaço do ser
Carrego em mim o sentimento do mundo;
É sobre aquietar-se com as inquietações
E irromper todos os silêncios encontrados,
É sobre esvaziar-se de tudo que lhe preenche
E re-tornar-se um lugar aberto,
É sobre ser no mundo
E tentar encontrar-se
Na eterna busca por fixar-se,
À medida que se desvanece
Tenta se corporizar na liquidez
E se reconstruir cotidianamente.

Debaixo da Lua Cheia

Na linha tênue do horizonte
Sob uma noite bem iluminada
O mar levemente toca a areia fria
Chiando suavemente pelas suas ondas

Um abraço repentino captura um coração
Sequestrando o fôlego num suspiro
Os olhares distando sobre a água
Os corpos tímidos encostados

Então os olhares se encontram
E numa longa pausa o pensamento
Se desfaz no vento que ali os envolve

E sussurra-lhes: “Deixe a lua os guiar!”
Que ela é cheia de amor; e os une
Num suave e eterno beijo.

Oração de um pecador

Que a salvação me acorde a cada manhã
E apague a noite de culpa que sonhei.
Tenha misericórdia dessa minha inconstância
De orar pela manhã e dormir sem dizer adeus.
Me convença do meu pecado,
Mas garanta também que há perdão para mim.

Que o meu sorriso contagie a quem precisa
Independente das minhas queixas.
Tenha paciência com minhas distrações,
Quero tantas coisas que esqueço o principal.
Me ajuda a entender que só é bênção
Se não terminar em mim.

Que as minhas palavras digam apenas
Coisas que valem a pena serem ouvidas.
Tenha piedade da incoerência que há
Entre o que eu afirmo crer e o que eu faço.
Me torne em alguém que é ponte,
Que não é muro, nem abismo, nem vácuo.

Que o teu amor seja a tonalidade e a tua graça
O compasso em que reges a minha vida.
Tenha cuidado com minhas brechas
E use-as para que a tua luz me atravesse.
Me carrega por onde quiser como lhe convém,
Porque eu não posso viajar só.

Quando encontrar esse alguém

O que fazer quando se encontra aquela pessoa
Capaz de lhe arrancar um sorriso somente
Por lembrar-se dela e imaginar-se perto?
Quando ao ouvir sua voz os olhos até brilham,
Chegam a doer as bochechas pelo quanto
Se é incapaz de esconder o bem que lhe faz.

Do que chamaremos tal sentimento? Não sei.
Seria injusto querer rotular algo tão belo e meu
E expor a todos que o julguem mediante as
Definições que cercam a nós todos falantes
E nos impedem de viver e sermos livres na
Liberdade do outro diante do nosso afeto.

Ah, mas quando encontrar esse alguém…
Meu caro, que sorte a sua, perceberás.
Notarás que menos importa que corresponda
E mais importa que de alguma forma
Se faça presente na sua vida esse humano
Que em meio a todo caos lhe traz um refúgio.
Digo isso porque já encontrei esse alguém.

O produzir é um vício

O produzir é um vício que se aparenta bom,
Ele é a fonte do vetor da produtividade,
Que em somas traz a resultante do sucesso.

O produzir é um vício bem visto,
Pois definiu o que é utilidade e sucesso,
E passou a ser a medida de todas as coisas.

O produzir é um vício que nos prende
À necessidade de estarmos ocupados
E justificar-nos de nossa ausência dos outros.

O produzir é um vício que revela
Qual a moeda de troca do atual ser humano,
A qual dá-se no tempo mediante a perda.

O produzir é um vício que nos consome
Através das múltiplas atividades simultâneas,
Da necessidade de constante disponinilidade.

O produzir é um vício que nos impede
De perder tempo observando o mundo,
De nos encantarmos com o que leva tempo.

O produzir é um vício que exclui tudo
Que não se mede na escala da produtividade,
Aquilo que nos diferencia das máquinas.