Inusitado

Acordei de um longo cochilo num sábado à tarde. Pulei o almoço. Saí para um evento das 8h às 10h, cheguei em casa às 11h, me joguei na cama e eram 17h quando a gata da Alexandra, amiga com quem divido o apartamento, “amassava pão” nas minhas costas e eu abri os olhos cegados pela luz que entrava pela porta. A Alexa em pé encostada no batente com uma térmica de café na mão me dizia coisas que eu não entendia direito, algo sobre acordar que eu já havia dormido demais, tinha um lanche na sala, se eu estava de ressaca, havia bilhetes de recados no balcão.

Movi-me vagarosamente, a cabeça doía. Alcancei o celular e sentei-me na cama. Várias mensagens que eu não pretendia responder antes de segunda-feira. Uma mensagem de um amigo, o Bruno, me chamando para sair, já que o restante de nosso grupo de amigos estava viajando ou ocupado. Olhei para a Alexa sentada, com um coque preso por um lápis, à frente de seu notebook bem concentrada num freela. Respondi que iria sim. Cinema, ver qualquer coisa que tivesse por ali.

Tomei um banho rápido, vesti a primeira camiseta que encontrei, uma calça jeans, um cardigã, uma sandália hippie. Ao olhar no espelho vi um rosto com olheiras leves e um cabelo um pouco despenteado. Sem me importar muito, joguei o cabelo para trás – aquela ilusão de que ao cair ele estará arrumado – e nem passei maquiagem. Não era um passeio que requeria tal cuidado. Vendo que eu saía assim tão despretensiosamente, minha companheira deve ter suposto que eu iria à praça tomar um ar ou comprar pão.

Entrei no elevador quando recebi uma mensagem do Rodrigo. Parece que soube que eu iria ao cinema, ele morava uma quadra antes, ia encomendar algo da lanchonete ali da esquina, algum problema no cartão, sem dinheiro pra entrega, preso em casa terminando um projeto para um cliente. O resumo era que ele me pedia o favor de buscar o lanche e deixar na casa dele. Realmente, estava fácil. Embora fosse meu melhor amigo, ele andava muito folgado e eu sem paciência. Sentia-o ingrato e acomodado na nossa amizade. Quer saber? Fique sem comer, faria bem em emagrecer um pouco. E segui minha caminhada rumo ao cinema.

Encontrei o Bruno escorado na parede me esperando. Nem o cumprimentei direito e já falei para irmos entrando e pegar a fila. Escolhemos uma comédia que parecia razoável. Já sentados, eu estava atenta aos trailers quando o senti pegar a minha mão. Deitei em seu ombro, cansada que estava, não haveria mal nenhum nisso, e ali permaneci até o fim do filme.

Saímos da sessão sem comentar o enredo, nem do filme, nem o nosso.

“Está com fome?”, ele me perguntou, como se não fosse óbvio.

“Sim, claro, vamos para aquele barzinho de sempre pegar uma batata.”

A batata e mais uns dois pratos de petisco. Bebemos suco mesmo – a sugestão foi minha, três taças de vinho e dois shots de tequila na noite anterior me bastavam para aquele final de semana. Aquele bar era até requintado, mas destoava em seu interior com uma mesa de sinuca e um fliperama. Jogamos por umas duas horas, eu ri à beça. Até que eu, quase exausta, o abracei e disse que precisava ir embora.

Ele me acompanhava no caminho para casa, mas fez um desvio pela praça. De repente um alarme soou em minha cabeça. Já sabemos onde isso vai chegar. Paramos num ponto diante de uma ladeira, a vista era bonita. As luzes antigas do centro da cidade, a lua estava cheia, dando aquele tom enevoado no céu, a noção do rio correndo ao final daquela rua. Olhando para o coreto do outro lado da praça, se não houvesse uma leve preocupação com a nossa segurança ali, poderia dizer que regredimos algumas décadas e vivíamos uma noite de encontro dos nossos avôs.

Ele segurava minha mão, se aproximava do meu rosto, eu discretamente desviava. Não poderia deixar acontecer algo ali sem pensar bastante. Éramos amigos, não o suficiente para ser estranho, nem o bastante para eu saber se eu o achava interessante, mas eu definitivamente sentia ali algo eletrizante no seu toque. Era um romance válido, mas eu me sentia insegura.

Ele me segurou pela cintura, eu de braços cruzados apoiei os cotovelos sobre seus ombros, os narizes quase se encostando. Especialistas em linguagem corporal me digam se há algo mais paradoxal e confuso do que essa atitude. Conversávamos baixinho, rindo um do outro, os sorrisos largos e tímidos. Desviei de suas inclinações umas duas vezes, até que os lábios se tocaram numa longa pausa das palavras.

Meu celular tocou. Era o Rodrigo. Eu havia me esquecido de responder que não lhe faria o favor, ele queria saber se eu ainda teria tempo de fazê-lo. O coração chegou a tremer. Estava lá minha recente paixão platônica que se somou a uma intensa amizade, que eu estava ignorando na última semana por motivos de orgulho. Disse a ele que já estava longe da lanchonete, ficaria devendo essa.

Chegando ao apartamento, encontrei a Alexa sentada frente à TV vendo série. Perguntou-me onde eu havia ido. Dei um breve resumo sobre meu itinerário. Ela nem desconfiou de nada. O Bruno era recente em nosso círculo de amigos, ela mesma nem tinha proximidade com ele. Lancei-me novamente sobre o travesseiro, pensando se estava mais perdendo ou ganhando algo com minha atitude juvenil de indecisão.

De repente já era segunda-feira. Eu estava na agência, quando me disseram que alguém me esperava na recepção. Era o Bruno. Surpresa, eu o cumprimentei cordialmente apenas. Ele havia me trazido uma marmita de almoço. Agradeci. Perguntou se poderia me encontrar mais tarde, eu disse que sim. Ali mesmo, no complexo empresarial onde trabalhamos.

Era por volta das 19h quando ele me encontrou sentada num banco perto à galeria mexendo em meu celular. A franja caída sobre os olhos, que se erguiam por sobre os óculos – um forte indicativo de nervosismo.

“Venha, eu sei de um lugar interessante”, ele lhe disse.

“Vai me explicar ou devo me preocupar que isso seja arriscado?”

“Já foi ao jardim atrás do complexo jurídico?”

Segui-o ligeiramente para trás do prédio. Conhecia aquele lugar muito bem – a vista daquele campo era familiar, embora pouco freqüentasse aquele ponto exato. Após tantas andanças em rotas inusitadas sentia-me na verdade um tanto roubada do local que considerava meu segundo lar, trabalhava ali há seis anos, mas quem guiava o excitante e objetivo passeio era meu novo amigo que mal completava dois anos de competência profissional por ali e parecia conhecer cada ângulo possível.

Virei a esquina e ele estava escorado num canto da parede. Os oito passos até ele passaram como que num vácuo. Toda a tensão de dois dias atrás presa naquela ansiedade e calor que precede o momento – nada disso teve lugar na pressa de alcançar o buscado ponto cego. Mal cheguei até ele e já lancei os braços ao redor de seu pescoço enquanto ele me abraçava pela cintura e me puxava para perto. Em fragmentos de segundos estávamos nos beijando; e não foi nada como todo o clima criado na fracassada noite, com toda a cautela, os risos, os olhares tímidos, as conversas aleatórias para preencher o silêncio estranho, ou como as batidas entrecortadas do coração dúbio entre o certo e o errado daquela história.

Não, nem houve tempo de preparação, nos beijamos numa atitude que somava a retirada do atraso dos dias passados, o risco de sermos vistos e a graça que dava o segredo desse romance. No fim das contas, toda a preocupação com a ética e a legalidade sobre estarmos juntos havia sido em vão, estilhaçada no toque dos lábios, que se encontraram entre pequenas mordidas e longas junções. Antes tivesse me rendido na primeira vez, pelo menos teria o benefício da emoção do ato espontâneo, daquilo que simplesmente acontece. Jamais saberia o que teria acontecido, tivesse me permitido ser livre para sentir aquele momento.

Saímos do canto. Ele me puxou até encostar-se a uma pilastra longe da parede. Eu até queria dar mais uma olhada na paisagem ocultada pela noite – sempre gostei da discrição e graciosidade que o céu negro depunha sobre os prédios. Novamente nos beijamos. Eu sentia as mãos dele descerem pelas minhas costas e periodicamente tentar puxar-me para mais perto ainda, como se não houvéssemos preenchido todo o espaço entre nós.

Ele interrompeu um beijo, de sobressalto, ao ouvir o andar lento de alguém que não deveria estar ali e parou a poucos metros nos observando. Desconcertados pela presença do inusitado visitante. Era um segurança que nos olhava como uma estátua. Notando que teriam de sair dali, entre risos, caminhamos para longe dali abraçados até o meu carro, ele havia vindo de ônibus.

“Eu lhe deixo na sua casa,” eu disse enquanto colocava o cinto de segurança.

“Nos encontramos amanhã no mesmo horário? Vou achar outro lugar”

“Depende, vai me trazer a marmita de novo? Lembre que eu detesto berinjela da próxima vez,” nós rimos.

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Posfácio

            Entrei na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Eu deveria ter o hábito da leitura mais desenvolvido, mas a verdade é que o trabalho empresarial ocupa muito tempo. Lidar com números o dia todo é fatigante para a mente. Por isso, dedico minhas horas vagas à prática de exercício físico e algumas meditações. Eventualmente ganho como presente um desses livros sobre gerenciar negócios, ter mais poder, tornar-se um milionário. Imaginam que essas seriam leituras úteis para um jovem de 27 anos que ingressou há pouco tempo no mercado de trabalho. Não os condeno, apenas acho uma leitura insossa, dirigida a pessoas de ambição mal direcionada; leio por respeito a quem teve o trabalho de gastar tal dinheiro por mim.

            Porém, numa tarde de quarta-feira meu chefe me dispensou por volta das 15h e fui andar pela avenida, já que estava lá mesmo. Entrei na galeria apenas para pegar um café, quando avistei a livraria e pensei “porque é que as pessoas gostam tanto deste lugar?!”, mas por algum impulso decidi entrar. Comecei pela sessão de livros em branco, coisas que se tornam úteis para a produtividade – os molesquines, cadernetas, blocos de notas. Darei um para minha namorada, pensei, ela gosta destas coisas.

            Notei um alvoroço numa ala da livraria, um amontoado de gente: maioria mulheres, de 17-35 anos, classe B talvez definiria uma média ali. Perguntei a um vendedor o que se passava, ele me disse que se tratava do lançamento de um livro.

            “A autora é famosa?”, perguntei.

            “É bem jovem ainda, acho que sua primeira obra escrita no gênero, mas parece que era blogueira e acabou conseguindo um público interessante. Ela deu uma entrevista para um jornal e para a TV num dia desses, trabalha para a editora Abril.”

            “Sim, entendi. Pelo alvoroço feminino, suponho que seja um romance, certo?”

            “É sim, no sentido literal, não como gênero. Ela costumava ser da escrita acadêmica, migrou recentemente para as narrativas pelo que ouvi dizer.”

            “Obrigado!”, eu disse, pretendendo dispensar o moço que parecia bem empolgado para trabalhar me dando um relatório mais completo do que eu esperava.

            Dirigi-me com ar desconfiado e debochado para o ajuntamento. Achava extremamente imaturo esse comportamento das garotas em cima de um romance, não poderia imaginar algo relevante nessas leituras. Sempre agradeci que a Fabiana não é como elas, senão muito provavelmente não conseguiria namorá-la.

            A autora autografava alguns livros e conversava com as pessoas, parecia realmente muito simpática. Ao me aproximar mais notei que também era bem bonita. “Não é à toa que conseguiu esses empregos, entrevistas, fama”. Não era uma beleza espetacular, era um ar curiosamente cativante. Pele levemente morena, longos cabelos castanhos presos num rabo de cavalo caído. Vestida bem simples, uma camiseta preta com jeans claro. “Na verdade ela até parece uma moça bem comum”. Julguei pela aparência que ela tinha por volta da minha idade. Não usava aliança. “Solteira aos 20 e tantos, escrevendo um romance”, eu ria sozinho.

            Enviei um áudio pelo WhatsApp para minha namorada contando da minha empreitada de tentar entender o alvoroço deste público do qual eu agradecia ela não fazer parte. Vesti uma nova expressão facial, fingindo real interesse no evento. Entrei no aglomerado, peguei um exemplar da pilha de livros e tentei olhar nos olhos da jovem autora, pretendia cumprimentá-la e fazer questionamentos objetivos sobre sua obra, mas ela parecia bem atenta ao desabafo de uma menina que aparentava ter seus 17 anos e ter se identificado com a história fictícia presente nas 280 páginas.

            Percebi que eu precisaria aguardar um pouco para ser atendido, então decidi folhear o livro e ver se pelo menos se tratava de uma boa escrita. Abri em páginas avulsas, escolhendo parágrafos soltos – as ideias me pareciam coesas, de repente eu até seguia adiante, algumas ironias embora bobas me fizeram rir, outras frases me pareceram bem filosóficas. “Que combinação estranha”, pensei, “mas parece que deu certo”. Foi quando consegui finalmente ouvir sua voz e tentei aplicá-la àquelas palavras escritas – e eu senti um arrepio. Olhei para ela novamente.

            Havia algo familiar naqueles gestos, no jeito de balançar a cabeça e os ombros, no seu sorriso, mas eu não conseguia ver bem seus olhos. Eu a conhecia. Ocorreu-me que eu não havia olhado o seu nome na capa do livro, nem perguntado ao funcionário-informante. Mirella Cortês. Por Deus! Não era possível! Minha respiração até parou por uns quatro segundos. Eu tive uma espécie de relacionamento com essa garota, anos atrás. Quanto tempo? Eu não conseguia me lembrar ao certo, cinco ou seis anos.

            Meio atordoado, sentei num pufe que encontrei por ali e tentei ler por alto mais páginas do livro. Ela sempre gostou de escrever, é verdade, bem que me lembrava dela ter cursado Jornalismo, eu nunca tive muita paciência de ouvi-la falar sobre seus estudos e trabalho, na verdade. Não imaginaria que ela estivesse no Brasil ainda; uma pena, alguém que não aproveitou seu potencial para crescer tanto.

            Voltei ao livro, apenas para perder ainda mais o fôlego. Algumas impressões daquela história me pareciam familiares. Mas que viagem! Aquela era a nossa história. Ela escreveu um livro para contar o que aconteceu entre nós dois?! Que loucura é essa, fui vendido, descrito certamente como um decrépito garoto que acabou com sua vida amorosa e a levou a dar a volta por cima. Ou será que ela romantizou tudo para ter um “felizes para sempre”? Com raiva, continuei lendo. Ela alterou apenas alguns detalhes objetivos, mas era a história na íntegra, até os diálogos me pareceram bastante possíveis de serem reais.

            Ela ainda lembrava? Não superou? Ah não, lembrei-me de que ela me disse certa vez, enquanto ainda estávamos juntos, que havia feito algumas tentativas de escrever nossa história porque ela era bizarra. De fato, não poderia negar que eu devo tê-la magoado bastante. A realidade é que depois do segundo término perdemos o contato quando fiz um intercâmbio e eu nunca mais procurei saber dela.

            Considerei ter sido um grande erro ter ido até ali, uma perda de tempo. De que me importava? Levantei-me e ia me virando para ir embora, mas me desequilibrei e quase caí. Ótimo, chamei a atenção do conglomerado de apaixonadinhas. De volta à estabilidade, em pé, o olhar dela me alcançou. Eu, acanhado, apenas disse “está tudo bem”. Ela me reconheceu, fisgava o canto da boca, dando um meio sorriso.

            “Você não veio para o lançamento, imagino”, ela disse simpaticamente.

            Ela obteve como resposta meu silêncio e um olhar embaraçado.

            “Mas fique à vontade, logo mais haverá um café com entrevista aberta.”

            “Você acha que esse livro seria um bom presente para minha namorada?”, não sei por que, mas agi com essa audácia.

            “Na verdade eu queria lhe dar um de presente, Pedro.”

            Senti que meu rosto se avermelhava e a multidão tentava compreender de que se tratava aquela tensão toda.

            “Não, não precisa. Eu não tenho tempo para ler. Além do mais, eu já sei essa história”, por alguma razão a última frase saiu e me deu vontade de ver se ela saberia jogar com suas emoções em público, ela costumava ser meio descontrolada.

            Algumas pessoas pareceram suspeitar o que acontecia ali. Ela apenas assentiu, com aquele meio sorriso novamente. Eu desconhecia essa Mirella. Ela tinha os olhos determinados, frios. Ela não retrucou, não haveria o circo pegando fogo. Dei as costas, caminhei uns três passos, mas parei e me virei para ela.

            “Mirella, você tem uma versão da história crua, sem as camadas fictícias?”

            “Não foi preciso. Mas uma boa história sempre deve ser contada, mesmo que de maneira diferente.”

            Eu sorri discretamente. Dirigi-me ao caixa e comprei um exemplar e uma caderneta. Enquanto saía da livraria imaginava-a tendo que explicar às suas fãs que eu era a razão daquele livro ter sido escrito, ou inventando alguma explicação improvisada. Talvez eu nem lerei aquele livro, acho que me falta a coragem. Darei para a Fabiana de presente – a caderneta, com boa razão; o livro como um presente de amigo da onça, e ela vai ler, rir e dizer que é tudo bobagem.

Guardo-lhe como a um segredo

Guardo-lhe como a um segredo,
Já que está longe dos olhos de todos
Permaneça também distante dos ouvidos.

Guardo-lhe numa parte do coração
Que aprendi a cobrir com a normalidade
E apenas desvelo a mim mesma.

Guardo-lhe sem nome e sem endereço,
Pois do que os outros não sabem, não perguntam
E apenas farei força para que não percebam.

Guardo-lhe numa caixinha de surpresas,
Não a vejo com constância, nem a abro,
Mas tenho na memória tudo o que contém.

Guardo-lhe em nossas conversas,
Junto a abraços e beijos de lembranças,
Os quais paradoxalmente desejo compartilhar.

Guardo-lhe, por fim, neste poema,
E será que, se passar, ainda estará aqui;
Mas quanto menos falo, mais real você fica.

O Romance na Era Digital

                                     1

Comportamento bizarro e inconstante
De olhares furtados e sorrateiros,
Contrastados a frequentes
Curtidas e visualizações.
Um ritual de conversas noturnas
Vazias, que almejam
Sair de uma tela
Mas, no processo,
Perdem-se no
Des-
Interesse.

                                     2
Os céus das cidades, azuis opacos,
Riscados de fios elétricos condutores
Permeados de ondas invisíveis,
Que carregam a codificação criada
Para representar o que pouco sabemos.
Mensagens de amor, de cônjuges a amantes,
Destinadas a cruzarem-se revestidas
Da aura do sigilo e do mistério.

                                      3
As medidas no virtual são sígnicas;
Os comportamentos codificados significam
Análises objetivas das atitudes digitais.
Entre visitas às histórias e reações às
Exposições feitas de si mesmo – pergunta-se –
O que resta saber e que importa além da tela
Para além do espectro magnético;
Como é que se transita do holograma ao físico?

Debaixo da Lua Cheia

Na linha tênue do horizonte
Sob uma noite bem iluminada
O mar levemente toca a areia fria
Chiando suavemente pelas suas ondas

Um abraço repentino captura um coração
Sequestrando o fôlego num suspiro
Os olhares distando sobre a água
Os corpos tímidos encostados

Então os olhares se encontram
E numa longa pausa o pensamento
Se desfaz no vento que ali os envolve

E sussurra-lhes: “Deixe a lua os guiar!”
Que ela é cheia de amor; e os une
Num suave e eterno beijo.

Quando encontrar esse alguém

O que fazer quando se encontra aquela pessoa
Capaz de lhe arrancar um sorriso somente
Por lembrar-se dela e imaginar-se perto?
Quando ao ouvir sua voz os olhos até brilham,
Chegam a doer as bochechas pelo quanto
Se é incapaz de esconder o bem que lhe faz.

Do que chamaremos tal sentimento? Não sei.
Seria injusto querer rotular algo tão belo e meu
E expor a todos que o julguem mediante as
Definições que cercam a nós todos falantes
E nos impedem de viver e sermos livres na
Liberdade do outro diante do nosso afeto.

Ah, mas quando encontrar esse alguém…
Meu caro, que sorte a sua, perceberás.
Notarás que menos importa que corresponda
E mais importa que de alguma forma
Se faça presente na sua vida esse humano
Que em meio a todo caos lhe traz um refúgio.
Digo isso porque já encontrei esse alguém.

Foi tudo culpa de um sonho

            O shopping center estava bastante movimentado. Escondida no vão de um corredor estava uma garota. Carregava em seu bolso um pequeno papel com palavras-chave das quais deveria se lembrar para finalizar um caso que estava investigando. A lógica diria que ela era jovem demais para isso. Ao que tudo indicava, uma menina sofria de abuso emocional e físico por parte de seu pai e mais dois irmãos brutos.

            Os três homens desnecessariamente másculos também circulavam pelo edifício capitalista de quatro andares como pessoas normais em busca da garota que se escondia com algumas provas do que estava acontecendo. Em algum canto do lugar também estava a menina, que havia procurado por ela para lhe ajudar por indicação de uma outra amiga. O problema é que a suposta detetive não conseguia descobrir o motivo da mais recente explosão de fúria e buscava seguir os passos da menina para chegar a alguma evidência, uma vez que esta se recusava a se pronunciar.

            Ao final daquele corredor havia um sanitário feminino, o último local em que a vítima havia estado. Entrou discretamente pela porta única. Trancou-a, fitou o lixo e revirou-o. Um teste de gravidez – ela deveria estar desconfiada e causou um transtorno em sua família machista que provavelmente se envergonharia de uma jovem filha grávida sem sequer ter um namorado.

            Naquele momento, a porta, violentamente golpeada, se abriu e lá estavam os três brutamontes, prontos para encurralar a nada profissional scherlock. Ela estendeu a mão com o teste envolto num papel higiênico: negativo. Os três suspiraram aliviados. Três nomes foram anunciados no auto-falante do shopping e os homens com olhar de pânico decidiram atender ao chamado, já imaginando que a filha conseguira chamar a polícia.

            Acabou o drama. Quem sabe devesse seguir uma carreira de investigadora, delegada, ou advogada. O caso não estava mais em suas mãos, o que era de fato um alívio. O que diabos estava fazendo se metendo em tal enrascada?! Uma temporada toda de Jessica Jones em uma semana definitivamente não lhe fez bem.

            Mas o cenário já era outro. Passado o estresse da resolução de um caso que nada lhe competia, agora a garota era vista encostada na parede do shopping abraçada por um garoto pouco mais alto que ela. Os olhos de um estão fixados nos do outro, hesitantes. Os dois se beijam – tensos, finalmente, apaixonados. São longos os beijos subsequentes e várias pessoas reparam no belo casal que nem se importava com a publicidade do local.

            De um sobressalto, ela sentou na cama. Tudo foi um sonho. Passado o susto, ela riu loucamente. Detetive… logo ela, tão medrosa. Realmente, péssimo negócio a escolha do seriado. Mas os risos voltaram com força ao se lembrar que ao final ela estava beijando um de seus melhores amigos. “Nada a ver, nada a ver”, repetia para si mesma. Compartilhou o fato com sua amiga companheira de apartamento, elas riram juntas. Porém, lá no fundo, alguma coisa daquele sonho havia ficado. Aquele beijo… ela sentiu aquele beijo fora do sonho. Não fazia sentido algum, mas foi bom. Bastante bom. Parecia simplesmente certo. Quer saber? Fazia sentido sim.

            Naquela tarde, encontrou o tal amigo para tomar um café. Contou-lhe o sonho omitindo a parte que lhe cabia.  Enquanto olhava convenientemente em seus olhos lembrava da loucura que era essa ideia. Como parte da rotina, se encontravam frequentemente e ela acostumada com aquela sensação insossa. Passaram-se meses, mudaram as estações, e o sonho era uma lembrança escondida atrás das cortinas da mente, mas engolia seco cada vez que as mãos se encostavam. Poucos dias depois era seu aniversário. Ele lhe deu um pequeno caderno roxo e ela achou justo que fosse como um livro em branco.

            Logo ele estava namorando uma outra garota. Ela também namorou outro garoto. Ela se mudou de cidade. Mudou de estado. De país. Continente. Foi muito feliz, conheceu 58 países, aprendeu 17 línguas, concluiu estudos avançados, ganhou prêmios pelos seus trabalhos. Em noites esparsas ela tinha outros sonhos bizarros, havia várias outras cenas finais indiferentes ao referido contexto.

            Cinco anos haviam se passado quando ela retornou à casa dos pais. Filha única que era, encontrou seu quarto exatamente como estava quando o deixou, exceto por uma grande cesta de doces dada como boas-vindas. Ouviu- se batidas na porta da casa. Desceu as escadas apressadamente. Abrindo a porta, contudo, foi surpreendida por uma ilustre presença. E o sonho, por tanto tempo reservado ao imaginário, lhe voltou à tona enquanto seu rosto corava. As palavras se desfizeram quando seu coração foi eletrocutado pelo choque de ver ali seu antigo melhor amigo por quem um dia se apaixonara. Ele lhe interrompeu os devaneios: “tomar um café?”, ao que ela respondeu “claro!”, e assim foram.

Amores instantâneos

Os maiores amores se travam
Na primeira troca de olhares,
No primeiro abraço,
Na primeira conversa longa,
No primeiro sorriso tímido,
No primeiro riso sincero.

Aos maiores amores
Preferem chamar de paixão,
Porque quando é amor
Sentem a obrigação de agir,
Quando na verdade o amor é
A libertação do coração do ser
Esperando encontrar aquele
Outro ser aberto para se unir.

Once upon a time

 

Once upon a time
There were two friends
Who were kept together
By destiny doing the same stuff.
They were united through
Ideas, goals, passions, dreams,
And none ever told them
That our soulmate is
One who we least expect
And can’t see because it’s so close
Our sight can’t catch it.

blog 1

What i wish you knew

I wish you knew how
When you smile at me
All I can do is smile back

Makes me feel like hugging you,
And when you do that,
I feel like holding you,
And not letting you go.

When you get my hand
Before saying good bye
I look in your eyes and wish
That i’d really say, I might be
In love with you,

So please don’t hurry away,
Give us some time,
And maybe you’ll see it
Just as I did, that we are
In some way meant to be.
That’s what my heart says today.