O Romance na Era Digital

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Comportamento bizarro e inconstante
De olhares furtados e sorrateiros,
Contrastados a frequentes
Curtidas e visualizações.
Um ritual de conversas noturnas
Vazias, que almejam
Sair de uma tela
Mas, no processo,
Perdem-se no
Des-
Interesse.

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Os céus das cidades, azuis opacos,
Riscados de fios elétricos condutores
Permeados de ondas invisíveis,
Que carregam a codificação criada
Para representar o que pouco sabemos.
Mensagens de amor, de cônjuges a amantes,
Destinadas a cruzarem-se revestidas
Da aura do sigilo e do mistério.

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As medidas no virtual são sígnicas;
Os comportamentos codificados significam
Análises objetivas das atitudes digitais.
Entre visitas às histórias e reações às
Exposições feitas de si mesmo – pergunta-se –
O que resta saber e que importa além da tela
Para além do espectro magnético;
Como é que se transita do holograma ao físico?

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Debaixo da Lua Cheia

Na linha tênue do horizonte
Sob uma noite bem iluminada
O mar levemente toca a areia fria
Chiando suavemente pelas suas ondas

Um abraço repentino captura um coração
Sequestrando o fôlego num suspiro
Os olhares distando sobre a água
Os corpos tímidos encostados

Então os olhares se encontram
E numa longa pausa o pensamento
Se desfaz no vento que ali os envolve

E sussurra-lhes: “Deixe a lua os guiar!”
Que ela é cheia de amor; e os une
Num suave e eterno beijo.

Quando encontrar esse alguém

O que fazer quando se encontra aquela pessoa
Capaz de lhe arrancar um sorriso somente
Por lembrar-se dela e imaginar-se perto?
Quando ao ouvir sua voz os olhos até brilham,
Chegam a doer as bochechas pelo quanto
Se é incapaz de esconder o bem que lhe faz.

Do que chamaremos tal sentimento? Não sei.
Seria injusto querer rotular algo tão belo e meu
E expor a todos que o julguem mediante as
Definições que cercam a nós todos falantes
E nos impedem de viver e sermos livres na
Liberdade do outro diante do nosso afeto.

Ah, mas quando encontrar esse alguém…
Meu caro, que sorte a sua, perceberás.
Notarás que menos importa que corresponda
E mais importa que de alguma forma
Se faça presente na sua vida esse humano
Que em meio a todo caos lhe traz um refúgio.
Digo isso porque já encontrei esse alguém.

Foi tudo culpa de um sonho

            O shopping center estava bastante movimentado. Escondida no vão de um corredor estava uma garota. Carregava em seu bolso um pequeno papel com palavras-chave das quais deveria se lembrar para finalizar um caso que estava investigando. A lógica diria que ela era jovem demais para isso. Ao que tudo indicava, uma menina sofria de abuso emocional e físico por parte de seu pai e mais dois irmãos brutos.

            Os três homens desnecessariamente másculos também circulavam pelo edifício capitalista de quatro andares como pessoas normais em busca da garota que se escondia com algumas provas do que estava acontecendo. Em algum canto do lugar também estava a menina, que havia procurado por ela para lhe ajudar por indicação de uma outra amiga. O problema é que a suposta detetive não conseguia descobrir o motivo da mais recente explosão de fúria e buscava seguir os passos da menina para chegar a alguma evidência, uma vez que esta se recusava a se pronunciar.

            Ao final daquele corredor havia um sanitário feminino, o último local em que a vítima havia estado. Entrou discretamente pela porta única. Trancou-a, fitou o lixo e revirou-o. Um teste de gravidez – ela deveria estar desconfiada e causou um transtorno em sua família machista que provavelmente se envergonharia de uma jovem filha grávida sem sequer ter um namorado.

            Naquele momento, a porta, violentamente golpeada, se abriu e lá estavam os três brutamontes, prontos para encurralar a nada profissional scherlock. Ela estendeu a mão com o teste envolto num papel higiênico: negativo. Os três suspiraram aliviados. Três nomes foram anunciados no auto-falante do shopping e os homens com olhar de pânico decidiram atender ao chamado, já imaginando que a filha conseguira chamar a polícia.

            Acabou o drama. Quem sabe devesse seguir uma carreira de investigadora, delegada, ou advogada. O caso não estava mais em suas mãos, o que era de fato um alívio. O que diabos estava fazendo se metendo em tal enrascada?! Uma temporada toda de Jessica Jones em uma semana definitivamente não lhe fez bem.

            Mas o cenário já era outro. Passado o estresse da resolução de um caso que nada lhe competia, agora a garota era vista encostada na parede do shopping abraçada por um garoto pouco mais alto que ela. Os olhos de um estão fixados nos do outro, hesitantes. Os dois se beijam – tensos, finalmente, apaixonados. São longos os beijos subsequentes e várias pessoas reparam no belo casal que nem se importava com a publicidade do local.

            De um sobressalto, ela sentou na cama. Tudo foi um sonho. Passado o susto, ela riu loucamente. Detetive… logo ela, tão medrosa. Realmente, péssimo negócio a escolha do seriado. Mas os risos voltaram com força ao se lembrar que ao final ela estava beijando um de seus melhores amigos. “Nada a ver, nada a ver”, repetia para si mesma. Compartilhou o fato com sua amiga companheira de apartamento, elas riram juntas. Porém, lá no fundo, alguma coisa daquele sonho havia ficado. Aquele beijo… ela sentiu aquele beijo fora do sonho. Não fazia sentido algum, mas foi bom. Bastante bom. Parecia simplesmente certo. Quer saber? Fazia sentido sim.

            Naquela tarde, encontrou o tal amigo para tomar um café. Contou-lhe o sonho omitindo a parte que lhe cabia.  Enquanto olhava convenientemente em seus olhos lembrava da loucura que era essa ideia. Como parte da rotina, se encontravam frequentemente e ela acostumada com aquela sensação insossa. Passaram-se meses, mudaram as estações, e o sonho era uma lembrança escondida atrás das cortinas da mente, mas engolia seco cada vez que as mãos se encostavam. Poucos dias depois era seu aniversário. Ele lhe deu um pequeno caderno roxo e ela achou justo que fosse como um livro em branco.

            Logo ele estava namorando uma outra garota. Ela também namorou outro garoto. Ela se mudou de cidade. Mudou de estado. De país. Continente. Foi muito feliz, conheceu 58 países, aprendeu 17 línguas, concluiu estudos avançados, ganhou prêmios pelos seus trabalhos. Em noites esparsas ela tinha outros sonhos bizarros, havia várias outras cenas finais indiferentes ao referido contexto.

            Cinco anos haviam se passado quando ela retornou à casa dos pais. Filha única que era, encontrou seu quarto exatamente como estava quando o deixou, exceto por uma grande cesta de doces dada como boas-vindas. Ouviu- se batidas na porta da casa. Desceu as escadas apressadamente. Abrindo a porta, contudo, foi surpreendida por uma ilustre presença. E o sonho, por tanto tempo reservado ao imaginário, lhe voltou à tona enquanto seu rosto corava. As palavras se desfizeram quando seu coração foi eletrocutado pelo choque de ver ali seu antigo melhor amigo por quem um dia se apaixonara. Ele lhe interrompeu os devaneios: “tomar um café?”, ao que ela respondeu “claro!”, e assim foram.

Amores instantâneos

Os maiores amores se travam
Na primeira troca de olhares,
No primeiro abraço,
Na primeira conversa longa,
No primeiro sorriso tímido,
No primeiro riso sincero.

Aos maiores amores
Preferem chamar de paixão,
Porque quando é amor
Sentem a obrigação de agir,
Quando na verdade o amor é
A libertação do coração do ser
Esperando encontrar aquele
Outro ser aberto para se unir.

Once upon a time

 

Once upon a time
There were two friends
Who were kept together
By destiny doing the same stuff.
They were united through
Ideas, goals, passions, dreams,
And none ever told them
That our soulmate is
One who we least expect
And can’t see because it’s so close
Our sight can’t catch it.

blog 1

What i wish you knew

I wish you knew how
When you smile at me
All I can do is smile back

Makes me feel like hugging you,
And when you do that,
I feel like holding you,
And not letting you go.

When you get my hand
Before saying good bye
I look in your eyes and wish
That i’d really say, I might be
In love with you,

So please don’t hurry away,
Give us some time,
And maybe you’ll see it
Just as I did, that we are
In some way meant to be.
That’s what my heart says today.

Quando nossas testas se tocaram 2

A vida não é feita dos encontros marcados,
Nem é marcada pelos horários cumpridos,
Muito menos se deixa levar pelo planejado.

Seja o acaso a solução para sobrevivência,
Enquanto a vida nos obriga à consciência,
Me convenço de que os maiores suspiros estão no inesperado.

E parece que a vida não quis nos favorecer,
Mas em meio a tantos desencontros e desvios,
Eis que nos últimos minutos da partida algo se reservava.

Coração sabe quando algo bom está para acontecer,
E, quando nossas testas se tocaram,
Num curto momento talvez conseguimos fazer valer
O que o medo e o tempo nos roubaram da outra vez.

A arte de amar – parte 2

Erich Fromm aborda rapidamente o amor na sociedade do consumo, que resulta em enxergar as pessoas como opções no mercado e escolher aquela que parece ser a melhor opção disponível no mercado. Isso até lembra Bauman em Amor Líquido, dizendo que o se apaixonar na era do consumo se assemelha à especulação na bolsa de valores. Outro problema do amor na era atual, para Fromm, é que poucas pessoas aceitam que ele é uma arte – tanto quanto viver é uma arte – e, portanto, é necessário aprender esta arte. Diante disso, surge outro problema: demanda-se tempo, raciocínio e aprendizado para se tornar hábil nesta arte; e mais uma vez recorremos a Bauman, dizendo que na sociedade líquida (veloz e incerta) não há tempo a perder, e nisso a natureza humana cabe bem (convenhamos, todos nós somos egoístas, só não gostamos de assumir isso para não manchar nossa moral, o que prova novamente que somos egoístas).

Irônico é observar um comentário de Fromm acerca da lógica capitalista. Diz ele que assumiu-se um pensamento de igualdade no sentindo de des-individualizar o ser humano, tal qual os autômatos e os objetos produzíveis o são. De certa forma, seres humanos são produzíveis também – é para isso que nos reproduzimos como espécie. Assustador é termos a coragem de comparar tais coisas como se fossem iguais. Um pensador atual de comunicação e sociologia, Ciro Marcondes Filho, afirma em várias de suas obras que o ser humano criou as máquinas e passou a admirá-las mais do que a si mesmo, tanto que, inicialmente, ele delegava algumas de suas tarefas, seu sonho passou a ser que elas fizessem todas suas atividades, como se as máquinas pudessem viver por ele para que então o ser pudesse “curtir” (pergunto o que é que sobra se a máquina faz tudo); finalmente, ele deseja ser uma máquina.

Mas se a máquina e/ou o produto são seriados, embora eles façam as atividades de cada indivíduo, eles são todos iguais – objetos subordinados e ao mesmo tempo dominadores. Ao mesmo tempo em que se buscar ter um algo que se encaixe só para si mesmo, todos desejam ter o que é comum ao grupo e ao status para que possam estar coberto dos signos que lhe fazem ser alguém. Eis um paradoxo, ser um único igual. Mas se olhamos para todos como iguais, onde está a grande dificuldade de escolha? Porque que fizemos das nossas relações um mercado especulativo e analisamos tanto sem vivê-lo de fato? De tão autênticos que tentamos ser no nosso comportamento, nos tornamos mais um de todos.

Quando nossas testas se tocaram

Se bem que nunca as coisas são como esperamos,
As pessoas que vemos – bem, não se pode ver dentro delas –
E nem adivinhar como elas mudam, ou mesmo nós também.
Tampouco me importam aqui rimas e métrica, quando eu só queria dizer o que senti.

Porque é que vivemos com tanta gente em banho maria?
E como que olhamos para todo mundo como coadjuvante,
E nos sentimos estrelas do nosso próprio espetáculo,
Sem dar conta que somos o reverso do ponto de vista do outro?

Aí acontece de vir um momento de solidão a dois,
Vendo-se obrigados a consolar-se pelo acaso que os trouxe ali,
E num silêncio de vozes e diários da vida abertos,
Aquilo de que falávamos se tornara realidade – e meu maior medo era que fosse como um todo, inclusive os problemas.

O ponto chave pode até ter sido o abraço, ou um deles,
Mas posso me lembrar de um auge:
Quando numa pausa de falas nossas testas se tocaram,
E de repente meu maior medo passou a ser esse,
Que fosse você o próximo a ocupar as linhas dessa poesia.