O homem que não vigiava

Um homem vivia seguro de seu orgulho. Advogado, tinha segurança de que fazia justiça todos os dias em seu trabalho e conhecia o que se passava em sua cidade com toda a confiança. Certa noite, deitou-se para dormir ao lado da esposa. Lá pelas tantas da madrugada, ouviu-se um estouro. Assustado, acordam os dois juntos. Ele desespera-se com o som do tiro. Ouve mais um. Se lembram de que não têm nada para se defender, não possuíam mais armas em casa. A casa, aliás, de dia era um agradável lar familiar, mas de noite facilmente acomodaria um conto mal assombrado. Alocada ao fundo de um terreno cheio de árvores, a casa era fria e velha, cheia de quadros de tinta a óleo e papeis de parede decorados. Alguns azulejos e pisos rachados, tal que quando alguém andava todos ouviam. Ouviu passos. Apavorado, esgueirou-se cama abaixo e, deixando sua esposa no quarto, engatinhou até o quarto da sogra, que dormia só. Acordou-a e implorou que se unisse no medo e numa solução. Ela fez pouco caso, disse que não ouviu nada. Ele voltou do modo como foi, talvez ela nem quisesse mais viver ou estivesse surda. Ligou para os vizinhos, um advogado, outro juiz, outro ainda médico. Por fim, tornou a dormir. Na manhã seguinte notou que ainda vivia e que nada faltava em casa. Intrigado, olhou debaixo da cama e dos móveis em busca  de alguma bala perdida. Ao invés disso, encontrou o resto de bexigas de aniversário  estouradas e lembrou-se da festa da filha. Decepcionado consigo mesmo, foi trabalhar de cabeça baixa. Os vizinhos vieram consolar e saber o que houvera. Envergonhado disse apenas que nenhum suspeito foi encontrado.

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Foi tudo culpa de um sonho

            O shopping center estava bastante movimentado. Escondida no vão de um corredor estava uma garota. Carregava em seu bolso um pequeno papel com palavras-chave das quais deveria se lembrar para finalizar um caso que estava investigando. A lógica diria que ela era jovem demais para isso. Ao que tudo indicava, uma menina sofria de abuso emocional e físico por parte de seu pai e mais dois irmãos brutos.

            Os três homens desnecessariamente másculos também circulavam pelo edifício capitalista de quatro andares como pessoas normais em busca da garota que se escondia com algumas provas do que estava acontecendo. Em algum canto do lugar também estava a menina, que havia procurado por ela para lhe ajudar por indicação de uma outra amiga. O problema é que a suposta detetive não conseguia descobrir o motivo da mais recente explosão de fúria e buscava seguir os passos da menina para chegar a alguma evidência, uma vez que esta se recusava a se pronunciar.

            Ao final daquele corredor havia um sanitário feminino, o último local em que a vítima havia estado. Entrou discretamente pela porta única. Trancou-a, fitou o lixo e revirou-o. Um teste de gravidez – ela deveria estar desconfiada e causou um transtorno em sua família machista que provavelmente se envergonharia de uma jovem filha grávida sem sequer ter um namorado.

            Naquele momento, a porta, violentamente golpeada, se abriu e lá estavam os três brutamontes, prontos para encurralar a nada profissional scherlock. Ela estendeu a mão com o teste envolto num papel higiênico: negativo. Os três suspiraram aliviados. Três nomes foram anunciados no auto-falante do shopping e os homens com olhar de pânico decidiram atender ao chamado, já imaginando que a filha conseguira chamar a polícia.

            Acabou o drama. Quem sabe devesse seguir uma carreira de investigadora, delegada, ou advogada. O caso não estava mais em suas mãos, o que era de fato um alívio. O que diabos estava fazendo se metendo em tal enrascada?! Uma temporada toda de Jessica Jones em uma semana definitivamente não lhe fez bem.

            Mas o cenário já era outro. Passado o estresse da resolução de um caso que nada lhe competia, agora a garota era vista encostada na parede do shopping abraçada por um garoto pouco mais alto que ela. Os olhos de um estão fixados nos do outro, hesitantes. Os dois se beijam – tensos, finalmente, apaixonados. São longos os beijos subsequentes e várias pessoas reparam no belo casal que nem se importava com a publicidade do local.

            De um sobressalto, ela sentou na cama. Tudo foi um sonho. Passado o susto, ela riu loucamente. Detetive… logo ela, tão medrosa. Realmente, péssimo negócio a escolha do seriado. Mas os risos voltaram com força ao se lembrar que ao final ela estava beijando um de seus melhores amigos. “Nada a ver, nada a ver”, repetia para si mesma. Compartilhou o fato com sua amiga companheira de apartamento, elas riram juntas. Porém, lá no fundo, alguma coisa daquele sonho havia ficado. Aquele beijo… ela sentiu aquele beijo fora do sonho. Não fazia sentido algum, mas foi bom. Bastante bom. Parecia simplesmente certo. Quer saber? Fazia sentido sim.

            Naquela tarde, encontrou o tal amigo para tomar um café. Contou-lhe o sonho omitindo a parte que lhe cabia.  Enquanto olhava convenientemente em seus olhos lembrava da loucura que era essa ideia. Como parte da rotina, se encontravam frequentemente e ela acostumada com aquela sensação insossa. Passaram-se meses, mudaram as estações, e o sonho era uma lembrança escondida atrás das cortinas da mente, mas engolia seco cada vez que as mãos se encostavam. Poucos dias depois era seu aniversário. Ele lhe deu um pequeno caderno roxo e ela achou justo que fosse como um livro em branco.

            Logo ele estava namorando uma outra garota. Ela também namorou outro garoto. Ela se mudou de cidade. Mudou de estado. De país. Continente. Foi muito feliz, conheceu 58 países, aprendeu 17 línguas, concluiu estudos avançados, ganhou prêmios pelos seus trabalhos. Em noites esparsas ela tinha outros sonhos bizarros, havia várias outras cenas finais indiferentes ao referido contexto.

            Cinco anos haviam se passado quando ela retornou à casa dos pais. Filha única que era, encontrou seu quarto exatamente como estava quando o deixou, exceto por uma grande cesta de doces dada como boas-vindas. Ouviu- se batidas na porta da casa. Desceu as escadas apressadamente. Abrindo a porta, contudo, foi surpreendida por uma ilustre presença. E o sonho, por tanto tempo reservado ao imaginário, lhe voltou à tona enquanto seu rosto corava. As palavras se desfizeram quando seu coração foi eletrocutado pelo choque de ver ali seu antigo melhor amigo por quem um dia se apaixonara. Ele lhe interrompeu os devaneios: “tomar um café?”, ao que ela respondeu “claro!”, e assim foram.

Cinco minutos

Tudo começou com mais dez minutinhos,

Depois só mais cinco,

E o despertador me olhava com ignorância.

Passou a hora do culto burocrático,

Deu tempo de maquiar,

Café da manhã foi bom,

Sentei com a Bia,

Tanto tempo que não conversava com quem dorme no mesmo quadrado que eu.

Mais dez minutos perdidos contando da cicatriz que

Encontrei no meu coração ontem à noite,

Dessas de amores sem flores, lágrimas sem lenço.

Não tinha dinheiro no caixa, corre pro outro.

7:52 e a pressão baixando – não dá pra correr.

Passa um carro, outro, o terceiro dá carona.

Simpatia faz bem ao coração.

10 minutos entre banco e carona que deram estresse, agonia e susto.

Pudera que em tão pouco muito vivi,

Que em cinco minutos conheci alguém,

Deu tempo de saber que seus filhos também tem dois lares,

Assim subentendeu-se uma ligação empática

Por um sentimento comum que só sabe quem passa.

Em cinco minutos se passa muita vida.

Em bem menos que isso se pode perder a vida.

Que seja esse meu manifesto,

Por mais cinco minutos relevantes,

Por mais dez minutos importantes,

Por mais amor repartido,

Por menos corações a sós partidos.

Por mais vida,

Que a morte ninguém sabe.

7 coisas toscas

Eu juro que não sou supersticiosa. Também detesto encontrar mensagens subliminares. Acredito só em coincidências. Ou acreditava. Ah, nem sei mais. Mas foi tudo ridículo, ridículo. Ridiculamente lindo. Ainda me pego sorrindo sozinha olhando no espelho quando lembro tudo que tive que passar pra chegar nisso. Valeu a pena? Claro que sim. Não amo ele, só estou apaixonada. Mas dizem que é assim que começa. Mas isso não importa, nem sei se é isso mesmo que eu quero agora. Mas vamos ao que interessa.

O Allan é muito gato. Isso é fato. Tenho uma queda por ele há tanto tempo que nem sei dizer como começou. Mas ele é popular e é dois anos mais velho que eu. Não que eu não seja popular, só me escondo um pouco mais das pessoas e estou no primeiro ano da faculdade. Isso deve explicar alguma coisa. A questão é que eu sempre desacredito dessas coisas, acho totalmente fútil se preocupar. Ou achava. Aprendi a conviver com um sentimento superficial que somente me provê um friozinho na barriga quando ele passa e um olhar de admiração. Por que eu quereria algo mais que isso? É tão bom poder estudar, sair e falar qualquer coisa sem se preocupar com um anexo em sua vida. Boba, ingênua e ignorante. Mal sabia eu que o problema era eu, que não fazia nem ideia do que era ser desinibida.

Tudo começou num dia estranho. Digo estranho porque nem me recordo qual foi a última vez que choveu na minha pequena cidade de Lauro de Freitas em pleno setembro. Meu aniversário havia se passado há dois dias. Estava indo para o restaurante universitário e encontrei na mesa que eu sempre sento um bilhete colado com meu nome. Pensei, “quem quer que tenha sido, é muito corajoso, ou é piada; e se eu mudasse de mesa logo hoje?” O bilhete trazia um “Feliz aniversário, Bela. Você é linda!” Eu ri. Quem tem uma ideia tão sem criatividade para mandar uma mensagem dessas. Até pensei que fosse algum de meus amigos. Mas eles pareciam tão surpresos quanto eu. Me indignei com a surpresa deles, pois era um espanto  no sentido de desacreditar que poderia haver alguém que se interessasse por mim sem ter minha amizade. (De acordo com eles, só é possível gostar de mim se me conhecer. Do contrário, sou insuportável).

Meu nível de estresse por causa da prova de cálculo não me permitiu refletir sobre quem poderia ser. Até que no dia seguinte encontrei um bilhetinho colado na minha cadeira. Primeiro, surpresa. Depois, medo. Alguém estava me observando avidamente. O recado simplesmente dizia, “Bom dia, linda!” Todos na sala me viram pegar o bilhete, então para tapear a vergonha eu exclamei “ah, já pode parar o autor sem criatividade dessa palhaçada!” Muitos riram murmúrios, inclusive o professor. Nessa hora o monitor fechou a porta da sala demorou a se virar, então começou a distribuir as provas corrigidas. Ah, aquele monitor! A minha foi a primeira. Achei interessante observá-lo com vergonha. “Provavelmente está com vergonha por mim, vergonha alheia, como chamam,” pensei. Só queria um buraco e uma bola de cristal.

Tirei 8 na prova. Não era o que eu queria, mas está bom. Folheei a prova para ver o que errei e me decepcionei com minhas distrações. Tentando engolir ainda que alguém possivelmente estava zombando de mim com aqueles bilhetes, decidi ir ao banheiro. Não entraria na minha cabeça que era sério. Fui dar uma volta de uns cinco minutos, bebi água, comprei chiclete na cantina e voltei para a sala. O professor estava começando a falar, então abri meu caderno para começar a anotar. Remexi meu estojo e achei um papel dobrado em pelo menos 8 vezes. Já com o coração disparado e o rosto corando, abri o bilhete que dizia “um dia ainda vou te surpreender”. Mais do que está me surpreendendo com essa falta de criatividade? Impossível – pensei. Cuspi para cima. Sempre posso ser surpreendida. Quando abri o caderno havia um coração desenhado com meu nome escrito no meio. Pufei tão alto que acho que todos ao meu redor me ouviram. Mas decidi me concentrar na aula.

No intervalo, estava andando com a Dani. Ela me disse para parar de drama, que eu devia agradecer porque alguém olhava pra mim.

“Não sou como você, que precisa de alguém te admirando para me sentir especial”, eu lhe disse.

“Sabe o que eu acho, Isabela? Você é tão orgulhosa que não enxerga que precisa dessa armadura de frieza pra fingir que é feliz como está. Na verdade, você se sente superior porque diz nunca ter se apaixonado por ninguém. Você nem sabe o que é sentir aquele friozinho na barriga por ver “o cara” passar. Ou melhor, você deve saber, impossível que com 18 anos nunca tenha passado por isso. Mas você faz a pior coisa de todas: finge que nunca sentiu isso, decidiu que os estudos seriam uma desculpa muito boa para te fazer parecer a candidata do momento para o futuro brilhante. Sabe, amiga, tenho dó de você.”

Quem ela pensa que é pra despejar essa análise psicoemocional de mim como se ela tivesse se formado em psicologia e não fosse uma mera estudante de Letras?

“Minha aula de isostática vai começar e é no outro prédio, já estou atrasada. Te vejo depois da aula.” Audácia.

Segui meu caminho. Cabeça erguida, postura ereta, bolsa de lado, cara de séria, olhar firme, utilizando toda minha visão periférica para observar tudo e garantir que não seria pega de surpresa por ninguém. Na minha cabeça se misturavam todas as frases da Dani. Todas ao mesmo tempo. Acusando-me de algo tão vago, mas também tão complexo, tão superficial, mas tão profundo, tão ridículo, mas tão real. Eu sentia que estava andando em slow motion. Parecia que o olhar de todos me queimava, como se eu fosse a criatura mais pobre, miserável, sofrida já vista. Senti um choque percorrer meu corpo. Estupidez. Sou miserável porque sou um pouco mais racional que emocional? Ah, tenha dó. Acredito que simplesmente um dia tudo que deve acontecer, acontece, então não preciso me preocupar com isso nem procurar as tais das coisas que devem acontecer. Meu olhar de bichinho assustado voltou ao equilíbrio.

Foi quando senti algo acertar a lateral da minha cabeça. Uma bolinha de papel. Olhei na direção da qual ela devia ter vindo, uma porta entreaberta. Peguei a bolinha. Pensei em jogá-la de volta para sua suposta origem, mas notei o coração vermelho pintado com tinta guache. Me perguntei por que diabos alguém na faculdade teria tinta guache. Nem me ocorreu que eu estava no corredor de Arte. Abri a bolinha, já desconfiando que se tratava do mesmo autor dos bilhetes anteriores. A caligrafia não era exatamente a mesma por motivos óbvios – ninguém escreve igual de caneta e de pincel. Uma frase simples, para variar: você está linda. Eu ri e disse alto o suficiente para o corredor todo ouvir:

“Seu imbecil, se quer me conquistar não deveria sugerir que estou linda somente hoje.”

Havia dois garotos e uma rodinha de uns quatro alunos perto da porta. Todos ouviram e, claro, acharam graça. Não me senti idiota. Me senti desejada, meu olhar assumindo tons sensuais. Eu andando devagar, sentindo meus passos fortes e seguros. Mal virei a esquina do corredor e senti uma bolinha acertar minhas costas. Havia uma quantidade significativa de tinta guache acumulada em volta dela.

“Oras, ainda mancha minha blusa. Espera mesmo me conquistar?”

Abri o bilhete e não me surpreendi quando li “Você sempre está linda.” Eu disse alto, mais uma vez:

“Ainda assim, você está fazendo isso errado. Eu não estou sempre linda, eu sou.

Soou totalmente arrogante, orgulhosa, convencida a minha fala, eu sei, mas queria encontrar o autor. Uma hora eu teria que ver. Dobrei a esquina, dei mais uns quatro passos e senti mais uma bolinha. Girei nos meus calcanhares o mais rápido que pude, a tempo de vê a mão do lançador ainda apoiada no quina da parede. Fotografei o tom daquela pele. Corri o pequeno trecho a tempo de sentir o vapor de passos apressados e ver a bainha das costas de um casaco azul marinho virando-se e fechando atrás de si a porta da sala de artes. Não tive dúvidas. Corri até a sala. Alcancei a maçaneta da porta, ofegante, me recompondo e me preparando psicologicamente para descobrir que é meu admirador secreto. Antes, porém, joguei meu material – caderno, dois livros e bolsa – no chão e abri a bolinha. “Me desculpe, você é linda”. Respirei fundo e abri a porta.

Entrei na sala e imediatamente cobri minha boca com as mãos. Como eu pude ter coragem de dizer que tinha uma queda pelo playboyzinho do Allan? O admirador, quem era? O meu monitor de Cálculo. Sempre achei ele bonito, mas o sentia ainda mais inatingível que o Allan, apesar de ele sempre ter o olhar mais carinhoso e atencioso que já vi na vida. Havia simplesmente um painel que cobria um bom trecho da parede e dizia nas mais simples palavras pintadas à guache: Você quer namorar comigo? Ele se aproximou de mim e disse nas, todo envergonhado:

“Sou muito tímido e péssimo com as palavras, mas devo ser bom em alguma coisa.”

Entre risos contidos, eu disse com a maior naturalidade: “É sim, em criatividade.”

Deixei que ele me abraçasse de modo que ficamos abraçados um de frente para o outro e disse: “Podemos descobrir se você é bom de outras formas também.” Ri e emendei um beijo de leve na boca dele.

Ele me respondeu, já tão vermelho e com o sorriso paralisado: “Vou entender isso como um ‘sim’ para o meu painel.”

Nos beijamos. Não foi o melhor, ainda não, pelo menos. Mas, de acordo com a Dani, agora posso afirmar que já vivi.

No mesmo lugar

            Parece que foi ontem. Quase consigo vê-la na minha frente, corando de vergonha enquanto a amiga dela me conta que ela gosta de mim e em seguida tenta nos deixar a sós para conversar. Tenho vergonha da minha falta de reação. É claro que não era para acontecer nada, éramos muito crianças, uns 12 ou 13 anos. E foi bem aqui, debaixo dessa árvore, onde tínhamos algumas atividades escolares ao ar livre.

            Hoje tudo mudou. O lugar onde passei minha infância tem outro nome. Não mais casa, mas faculdade, internato, estudo, esforço, desgaste, saudade. A casa onde morei abriga outra família. Às vezes tenho vontade de entrar lá novamente, sentir a emoção de deitar na cama que estiver no quarto que era meu e tentar me sentir um garoto de novo, antes da notícia que iríamos embora, que eu deixaria para trás todo o universo restrito e rudimentar que eu conhecia e iria para a cidade grande, a capital nacional.

Nós só nos falamos através de redes sociais. Mas eu a vi, lá no meio de tantos conhecidos, com o sorriso mais bonito que eu poderia ter imaginado, conversando com tanta naturalidade que tive dificuldade de recordar sua antiga imagem tímida. Tento acenar, mas não tenho coragem. Não tive coragem. Nos falamos depois, lamentando não termos nos encontrado. Então descobri que ela estaria aqui definitivamente (pelo menos por enquanto) neste ano. Senti um arrepio percorrer minhas costas. Lembrei de uma frase que minha mãe me disse certa vez quando falei sobre ela logo que nos mudamos – “você vai ver, um dia você a encontrará no mesmo lugar onde se encontraram pela primeira vez”.

Decidi dar uma volta com meus amigos pelo campus e não pude deixar de fitar os banquinhos debaixo da árvore. Aquele dia. Algo tão infantil, inocente que hoje me faz tremer de nervosismo quando ela passa, obriga meus olhos a se desviarem quando encontro os dela e provoca uma amnésia de todas as palavras conhecidas ao meu vocabulário. Decido seguir a caminhada sem olhar para trás, sem olhar para aquilo dia que me obriga até hoje a avaliar qualquer outra garota baseando-me na minha amiga.

A verdade é que não tenho tempo. Para conseguir falar com ela preciso desenvolver uma conversa, no mínimo encontrar um assunto em comum. Não é por falta de identificação, temos muito em comum. Só não sei mesmo como me dirigir a ela. Mas há um medo, medo de perdê-la para tantos outros que simplesmente sabem o que falar para ela e tirar o riso mais incrível que já vi. Ao mesmo tempo, há uma certeza de que jamais perderei ela, que ela sempre voltará para mim, talvez no mesmo lugar onde a encontrei pela primeira vez. Não a primeira vez literal, mas a primeira vez que encontrei nela alguém que eu amava. Não só, era também apaixonado. Mas tantos outros a rodeiam, talvez eu devesse esperar que ela viesse diretamente até mim. Não posso perder o foco dos estudos, além de que tenho muito tempo para planejar meus relacionamentos. Mas há algo impossível naquele sorriso que se rasga naquele rosto tão meigo, tão sutil, tão imponente, tão atraente.

Ela virá até mim, naquele mesmo lugar, tenho certeza. Mas não posso esperar, mas também não posso simplesmente me assentar aqui e arquitetar uma estratégia para reconquistar uma garota. Seria perder tempo. Exceto que para o coração qualquer tempo perdido significa menos vida. Pode significar alguns dias somente sem ela, ou pode significar perder a oportunidade que me custará anos para recuperá-la. Não a vejo como um alvo a ser alcançado, um troféu a ganhar. É só o resultado natural de seguir os passos das palpitações cardíacas.

Foi numa tarde em que estava desprevenido tentando por em prática o hábito esportivo que vi uma figura familiar andando pelo gramado. Nem me lembro o que ela estava indo fazer por lá. Mas me lembro de ter notado seus cabelos esvoaçantes ao vento, aquele olhar penetrante que prende quem olhá-lo na direção exata e aquele sorriso que ainda estava se formando tão discretamente. Eu só consegui pronunciar um “olá” e disso me lembro. O restante da conversa deve estar preso no meu inconsciente e deve se revelar em imagens esparsas nos meus sonhos. Lembro-me de sentar naquele mesmo banco debaixo da árvore. E quase ouvi minha mãe dizer, “no mesmo lugar em que se encontraram da primeira vez.” E reencontrei aquela força da paixão que me fazia olhar tão diretamente em seus olhos e me perder no seu sorriso enquanto eu não fazia a menor ideia da expressão que eu tinha no meu rosto.

Devo ter digo algo bobo, algum comentário sobre a faculdade, não sei. Mas ela riu, riu e jogou sua cabeça pra trás, como sempre fazia, com os cabelos soltos e os olhos apertados pelas bochechas num sorriso largo. E eu a beijei.

A menina e o rádio

Devia ser o ano de 1995. Era engraçado ver os grupos formados pelas crianças. Elas deveriam ter dez ou onze anos. Mas havia uma garota bonitinha, tímida e centrada, que parecia não se enquadrar em nenhum grupo. Era magra, cabelos pretos bem lisos num corte chanel, olhos verdes brilhantes, o rosto pintado com discretas sardas davam a ela uma aparência meiga. Dizer que ela não tinha amigos seria radical demais. Algumas meninas tentavam enturmá-la, mas por vezes ela recusava o convite. A professora elogiava Clarisse como uma aluna inteligente, responsável e educada, porém advertia sua mãe de que ela parecia solitária por opção própria, o que não era comum para uma criança. Houve alguma compreensão importante e séria naquela última reunião de pais antes que acabasse o quinto ano, pois a professora não mais se incomodava com a clássica cena da pequena garota ouvindo rádio sozinha no pátio.

Passaram-se mais alguns anos e ela havia acabado de começar o ensino médio. Estava acostumada a ser motivo de piadas a respeito do seu companheiro rádio. Seu limite de paciência, no entanto, foi atingido um dia, quando entrou na sala e encontrou desenhos de bullying explícito, referindo-se a ela de forma pejorativa. Ela se sentiu esvaziar por dentro enquanto os risos ecoavam dentro dela e as imagens pareciam se tornar banners gigantes em sua mente. Chorava e esbravejava, atraindo a atenção de alguns professores, mesmo sendo no horário do intervalo, porém se recusava a dar alguma explicação a eles. De alguma forma, sentia vergonha de contar a história.

Seu avô havia morrido quando ela tinha nove anos após lutar contra um câncer. Por não ter conhecido seu pai, o avô tomou este lugar. Ele tinha o costume de ouvir o rádio, desde as músicas até debates políticos e programas educacionais. Ouviu o sucesso dos Beatles e os anúncios da ditadura militar. Quando já estava de cama e sabia não ter mais solução, deu seu rádio à neta que tanto o admirava. Após seu falecimento, Clarisse passou a imitar o hábito do avô. Havia nela, porém, um olhar diferente. Era óbvio que uma garota dessa idade não se interessava ou mesmo compreendia as discussões sobre saúde, educação e política, mas ela o ouvia com tamanho favor que ninguém ousava oferecer-lhe outro passatempo.

A preocupação veio à medida que ela avançava na adolescência e o seu passatempo parecia ter se tornado uma obsessão. Sua mãe tentava descobrir o que levava a filha a agir de forma tão oposta à dos outros adolescentes. Pôs-se a conversar decisivamente para tirar o rádio dela, mas o que obteve foi um escândalo, com lágrimas e súplicas, palavras que tentavam dar alguma explicação sem sentido, algo como ouvir seu avô falar, até que Clarisse entrou no quarto com o rádio e trancou a porta.

Um ocorrido fez tudo vir à tona novamente. Certa vez no terceiro ano do ensino médio, durante uma prova de física, ela se recusava a retirar o rádio de cima de sua mesa. Diante da ameaça do professor, a menina se pôs a chorar feito criança e saiu aos prantos da sala de aula, com o rádio em uma mão, o estojo em outra, a bolsa e a blusa de frio jogadas no ombro, sabendo que ganhou uma prova anulada. A mãe foi contatada pela escola, a filha não negou. Lembranças vieram à mente da mãe, que agora se acalmava. Frases de seu pai, atitudes, a obsessão pelo rádio, uma extrema inteligência e a solidão; diagnósticos médicos, remédios que ela não conhecia a princípio, mas depois descobriu serem necessários para o avô de Clarisse. Era genético. Sabia para quem ligar – o mesmo médico que vira seu pai visitar tantas vezes. Seguindo as recomendações profissionais, Clarissa foi convidada a ficar internada numa clínica de síndromes psiquiátricas por um tempo.

Os anos já se passaram e ela estava prestes a se formar na faculdade. Todo dia é vista andando pela praça na mesma cidade em que morava, fazendo compras. Era uma manhã fria quando ela caminhava e passou na frente da escola onde estudou. Os colegas, os choros, as brincadeiras, o bullying, sua mãe, o médico, o hospital e, bem ao fundo, a imagem de seu avô, formaram-se todos na sua mente. Entrou num café, assentou-se e, enquanto aguardava seu pedido, ouvia o rádio.