Posfácio

            Entrei na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Eu deveria ter o hábito da leitura mais desenvolvido, mas a verdade é que o trabalho empresarial ocupa muito tempo. Lidar com números o dia todo é fatigante para a mente. Por isso, dedico minhas horas vagas à prática de exercício físico e algumas meditações. Eventualmente ganho como presente um desses livros sobre gerenciar negócios, ter mais poder, tornar-se um milionário. Imaginam que essas seriam leituras úteis para um jovem de 27 anos que ingressou há pouco tempo no mercado de trabalho. Não os condeno, apenas acho uma leitura insossa, dirigida a pessoas de ambição mal direcionada; leio por respeito a quem teve o trabalho de gastar tal dinheiro por mim.

            Porém, numa tarde de quarta-feira meu chefe me dispensou por volta das 15h e fui andar pela avenida, já que estava lá mesmo. Entrei na galeria apenas para pegar um café, quando avistei a livraria e pensei “porque é que as pessoas gostam tanto deste lugar?!”, mas por algum impulso decidi entrar. Comecei pela sessão de livros em branco, coisas que se tornam úteis para a produtividade – os molesquines, cadernetas, blocos de notas. Darei um para minha namorada, pensei, ela gosta destas coisas.

            Notei um alvoroço numa ala da livraria, um amontoado de gente: maioria mulheres, de 17-35 anos, classe B talvez definiria uma média ali. Perguntei a um vendedor o que se passava, ele me disse que se tratava do lançamento de um livro.

            “A autora é famosa?”, perguntei.

            “É bem jovem ainda, acho que sua primeira obra escrita no gênero, mas parece que era blogueira e acabou conseguindo um público interessante. Ela deu uma entrevista para um jornal e para a TV num dia desses, trabalha para a editora Abril.”

            “Sim, entendi. Pelo alvoroço feminino, suponho que seja um romance, certo?”

            “É sim, no sentido literal, não como gênero. Ela costumava ser da escrita acadêmica, migrou recentemente para as narrativas pelo que ouvi dizer.”

            “Obrigado!”, eu disse, pretendendo dispensar o moço que parecia bem empolgado para trabalhar me dando um relatório mais completo do que eu esperava.

            Dirigi-me com ar desconfiado e debochado para o ajuntamento. Achava extremamente imaturo esse comportamento das garotas em cima de um romance, não poderia imaginar algo relevante nessas leituras. Sempre agradeci que a Fabiana não é como elas, senão muito provavelmente não conseguiria namorá-la.

            A autora autografava alguns livros e conversava com as pessoas, parecia realmente muito simpática. Ao me aproximar mais notei que também era bem bonita. “Não é à toa que conseguiu esses empregos, entrevistas, fama”. Não era uma beleza espetacular, era um ar curiosamente cativante. Pele levemente morena, longos cabelos castanhos presos num rabo de cavalo caído. Vestida bem simples, uma camiseta preta com jeans claro. “Na verdade ela até parece uma moça bem comum”. Julguei pela aparência que ela tinha por volta da minha idade. Não usava aliança. “Solteira aos 20 e tantos, escrevendo um romance”, eu ria sozinho.

            Enviei um áudio pelo WhatsApp para minha namorada contando da minha empreitada de tentar entender o alvoroço deste público do qual eu agradecia ela não fazer parte. Vesti uma nova expressão facial, fingindo real interesse no evento. Entrei no aglomerado, peguei um exemplar da pilha de livros e tentei olhar nos olhos da jovem autora, pretendia cumprimentá-la e fazer questionamentos objetivos sobre sua obra, mas ela parecia bem atenta ao desabafo de uma menina que aparentava ter seus 17 anos e ter se identificado com a história fictícia presente nas 280 páginas.

            Percebi que eu precisaria aguardar um pouco para ser atendido, então decidi folhear o livro e ver se pelo menos se tratava de uma boa escrita. Abri em páginas avulsas, escolhendo parágrafos soltos – as ideias me pareciam coesas, de repente eu até seguia adiante, algumas ironias embora bobas me fizeram rir, outras frases me pareceram bem filosóficas. “Que combinação estranha”, pensei, “mas parece que deu certo”. Foi quando consegui finalmente ouvir sua voz e tentei aplicá-la àquelas palavras escritas – e eu senti um arrepio. Olhei para ela novamente.

            Havia algo familiar naqueles gestos, no jeito de balançar a cabeça e os ombros, no seu sorriso, mas eu não conseguia ver bem seus olhos. Eu a conhecia. Ocorreu-me que eu não havia olhado o seu nome na capa do livro, nem perguntado ao funcionário-informante. Mirella Cortês. Por Deus! Não era possível! Minha respiração até parou por uns quatro segundos. Eu tive uma espécie de relacionamento com essa garota, anos atrás. Quanto tempo? Eu não conseguia me lembrar ao certo, cinco ou seis anos.

            Meio atordoado, sentei num pufe que encontrei por ali e tentei ler por alto mais páginas do livro. Ela sempre gostou de escrever, é verdade, bem que me lembrava dela ter cursado Jornalismo, eu nunca tive muita paciência de ouvi-la falar sobre seus estudos e trabalho, na verdade. Não imaginaria que ela estivesse no Brasil ainda; uma pena, alguém que não aproveitou seu potencial para crescer tanto.

            Voltei ao livro, apenas para perder ainda mais o fôlego. Algumas impressões daquela história me pareciam familiares. Mas que viagem! Aquela era a nossa história. Ela escreveu um livro para contar o que aconteceu entre nós dois?! Que loucura é essa, fui vendido, descrito certamente como um decrépito garoto que acabou com sua vida amorosa e a levou a dar a volta por cima. Ou será que ela romantizou tudo para ter um “felizes para sempre”? Com raiva, continuei lendo. Ela alterou apenas alguns detalhes objetivos, mas era a história na íntegra, até os diálogos me pareceram bastante possíveis de serem reais.

            Ela ainda lembrava? Não superou? Ah não, lembrei-me de que ela me disse certa vez, enquanto ainda estávamos juntos, que havia feito algumas tentativas de escrever nossa história porque ela era bizarra. De fato, não poderia negar que eu devo tê-la magoado bastante. A realidade é que depois do segundo término perdemos o contato quando fiz um intercâmbio e eu nunca mais procurei saber dela.

            Considerei ter sido um grande erro ter ido até ali, uma perda de tempo. De que me importava? Levantei-me e ia me virando para ir embora, mas me desequilibrei e quase caí. Ótimo, chamei a atenção do conglomerado de apaixonadinhas. De volta à estabilidade, em pé, o olhar dela me alcançou. Eu, acanhado, apenas disse “está tudo bem”. Ela me reconheceu, fisgava o canto da boca, dando um meio sorriso.

            “Você não veio para o lançamento, imagino”, ela disse simpaticamente.

            Ela obteve como resposta meu silêncio e um olhar embaraçado.

            “Mas fique à vontade, logo mais haverá um café com entrevista aberta.”

            “Você acha que esse livro seria um bom presente para minha namorada?”, não sei por que, mas agi com essa audácia.

            “Na verdade eu queria lhe dar um de presente, Pedro.”

            Senti que meu rosto se avermelhava e a multidão tentava compreender de que se tratava aquela tensão toda.

            “Não, não precisa. Eu não tenho tempo para ler. Além do mais, eu já sei essa história”, por alguma razão a última frase saiu e me deu vontade de ver se ela saberia jogar com suas emoções em público, ela costumava ser meio descontrolada.

            Algumas pessoas pareceram suspeitar o que acontecia ali. Ela apenas assentiu, com aquele meio sorriso novamente. Eu desconhecia essa Mirella. Ela tinha os olhos determinados, frios. Ela não retrucou, não haveria o circo pegando fogo. Dei as costas, caminhei uns três passos, mas parei e me virei para ela.

            “Mirella, você tem uma versão da história crua, sem as camadas fictícias?”

            “Não foi preciso. Mas uma boa história sempre deve ser contada, mesmo que de maneira diferente.”

            Eu sorri discretamente. Dirigi-me ao caixa e comprei um exemplar e uma caderneta. Enquanto saía da livraria imaginava-a tendo que explicar às suas fãs que eu era a razão daquele livro ter sido escrito, ou inventando alguma explicação improvisada. Talvez eu nem lerei aquele livro, acho que me falta a coragem. Darei para a Fabiana de presente – a caderneta, com boa razão; o livro como um presente de amigo da onça, e ela vai ler, rir e dizer que é tudo bobagem.

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O homem que não vigiava

Um homem vivia seguro de seu orgulho. Advogado, tinha segurança de que fazia justiça todos os dias em seu trabalho e conhecia o que se passava em sua cidade com toda a confiança. Certa noite, deitou-se para dormir ao lado da esposa. Lá pelas tantas da madrugada, ouviu-se um estouro. Assustado, acordam os dois juntos. Ele desespera-se com o som do tiro. Ouve mais um. Se lembram de que não têm nada para se defender, não possuíam mais armas em casa. A casa, aliás, de dia era um agradável lar familiar, mas de noite facilmente acomodaria um conto mal assombrado. Alocada ao fundo de um terreno cheio de árvores, a casa era fria e velha, cheia de quadros de tinta a óleo e papeis de parede decorados. Alguns azulejos e pisos rachados, tal que quando alguém andava todos ouviam. Ouviu passos. Apavorado, esgueirou-se cama abaixo e, deixando sua esposa no quarto, engatinhou até o quarto da sogra, que dormia só. Acordou-a e implorou que se unisse no medo e numa solução. Ela fez pouco caso, disse que não ouviu nada. Ele voltou do modo como foi, talvez ela nem quisesse mais viver ou estivesse surda. Ligou para os vizinhos, um advogado, outro juiz, outro ainda médico. Por fim, tornou a dormir. Na manhã seguinte notou que ainda vivia e que nada faltava em casa. Intrigado, olhou debaixo da cama e dos móveis em busca  de alguma bala perdida. Ao invés disso, encontrou o resto de bexigas de aniversário  estouradas e lembrou-se da festa da filha. Decepcionado consigo mesmo, foi trabalhar de cabeça baixa. Os vizinhos vieram consolar e saber o que houvera. Envergonhado disse apenas que nenhum suspeito foi encontrado.

Morrer pelos companheiros

 

 

A cidade de Pensilvânia estava sitiada por zumbis. O último batalhão sobrevivente do quartel estava pronto para salvar sua cidade do ataque.  O coronel Christian reuniu seu pequeno exército par organizar a defesa.

– Faremos um pacto agora.

Ele pegou um de seus uniformes antigos e começou a cortá-lo em doze pedaços, um para cada soldado restante

– Eu vou para a linha de frente sozinho para morrer, já analisei as estratégias e será melhor assim. Guardem esse pedaço da minha roupa e mantenham a população segura. Sempre que se sentirem fracos, olhem para o pedaço de pano e lembrem-se de que quando tudo isso acabar, eu prometi que virá uma solução maior. Pensem no motivo mais importante para sobreviver e se amem, acima de tudo.

 

Esse texto foi feito durante uma classe de estudos sobre a Bíblia. Contei com a ajuda de duas colegas – a Gladys e a Jeana. Como tivemos apenas 5 minutos para escrever, ficou curtinha assim. Acho que poderia chamá-la de uma “mini-crônica”. Achei que ficou legalzinho, resolvi compartilhar com vocês.

A intenção é que seja uma espécie de paráfrase do texto bíblico descrito em Mateus 26: 17-30.

Eu queria uma imagem não convencional da célebre pintura de Da Vinci, A última ceia, e encontrei essa releitura cubista de Kika Goldstein (http://www.kikagoldstein.com.br/2012/04/santa-ceia/).

Um breve comentário sobre ética

Esse texto foi um relatório de uma matéria de ética na faculdade. Foi feita à partir do texto de Renato Janine Ribeiro “Ser ético, ser herói”, disponível no link http://renatojanine.pro.br/etica/heroi.html .

Talvez a questão da ética na sociedade esteja em um dos momentos mais críticos e crescentes na história. São vários vieses. De um lado, assistimos à descrença da ética na justiça, sendo que talvez fosse o campo de onde mais esperaríamos atitudes corretas – nossos representantes executivos, legislativos e judiciários. Espera-se ética também na justiça social, no lidar cotidianamente com o ser humano, que nem sempre age de formas respeitáveis. Porém, mesmo de nossos reguladores sociais – policiais, seguranças etc – há dúvidas sobre os procedimentos que eles tomarão e sobre sua cumplicidade com o crime (convenhamos que qualquer atitude que infrinja alguma lei ou direito é um crime). Por fim, chegamos a um ponto da sociedade em que o que se espera o pior do ser humano e, portanto, olhamos para o outro com olhos julgadores.

Por outro lado, temos o ponto de vista social, bastante conturbada nas questões humanitárias e de grupos sociais. Por exemplo, como fica a relação da ética com o aborto, a eutanásia, as pesquisas com células tronco e a manipulação genética? O que a ética diz sobre a justiça própria e a auto defesa? E quanto às minorias – aliás, se são tantas pessoas, como podem ser minorias? – quando falamos de homossexuais, existe algum código de ética sobre o comportamento e sobre o matrimônio e a constituição familiar? A aplicação de cotas raciais ou étnicas tem relação com a ética, bem como as cotas sociais, de escolas públicas e classes sociais? Como medimos a ética no trabalho, tanto em detalhes como resolver coisas pessoais em ambiente de trabalho, como em situações mais sérias no tocante a lidar com superiores? E as manifestações, até que ponto as atitudes fazem jus ao propósito? E o que dizer do mundo das propagandas, das mídias e das mensagens e conteúdos de filmes, novelas e séries?

Provavelmente, para nenhuma dessas perguntas haverá respostas definidas, mas serão decorridos debates, discussões, protestos – até atitudes agressivas – que muito possivelmente seriam também passíveis da própria discussão de ética, uma certa metalinguística do assunto. Deixando de lado essas grandes questões e causas – não que não valha a pena lutar por elas, mas, sejamos realistas, muitas delas tem atravessado séculos e continuarão a orbitar no relativismo – podemos navegar pela parte mais próxima de nós, as coisas mais simples da ética, como escreve Renato Janine no referido texto. Hoje em dia, associa-se ética com heroísmo: num mundo onde todos não presta, eu sou herói por ser alguém diferente dos demais; sou uma pessoa decente e correta. Todos querem ser heróis, ninguém quer ser culpado pelo desastre que é a sociedade. Lutemos, pois pela dignidade humana, por sermos heróis para alguém, por não permitirmos que a leis (vide caso do homem que morreu na França porque o último que tocasse nele seria responsável pela sua vida, sendo que bastava um simples remédio) padrões éticos e tradicionalismos nos impeça de sermos pessoas decentes e humanas.

Hoje escolho perder uma perna

Por não ir à cidade com tanta frequência, há tempo que não via mendigos, pobres, pessoas com necessidades especiais. Mas o que mais me chamou a atenção foi que vi duas pessoas cegas. A primeira era uma mulher, que andava com uma muleta e com uma amiga ou a mãe guiando-a. Mas quando vi um homem, que aparentava uns 60 anos, usando apenas uma muleta, totalmente perdido em sua noção espacial, tentando atravessar a rua, foi como se eu sentisse o desespero dele de não ver nada à sua volta – nem mesmo a cor do semáforo.

Me perguntei o que que eu preferiria perder, se tivesse que escolher –  a visão, a fala, a audição, um braço ou uma perna. Se eu não enxergasse, me angustiaria por saber que não veria como eu estava, nem pinturas, imagens, pessoas, tons, mas  esse tivesse nascido cega? Sequer saberia o que é azul, amarelo ou vermelho, e aposto que você não sabe definir o que é azul sem falar “é a cor do céu”, amarelo sem dizer “é a cor do Sol”, ou vermelho dizendo “é a cor do sangue”. Parabéns, eu não teria visto nenhuma dessas coisas para saber do que você estaria falando. Se eu não falasse, não poderia cantar também, sem contar que ficar sem falar é angustiante. Se eu perdesse a audição, não poderia ouvir música, até poderia tocar, mas não saberia como estaria soando. Se eu perdesse o braço ou a mão, não poderia escrever, desenhar, tocar piano ou violino. E se eu perdesse uma perna, não poderia andar. Talvez até conseguisse uma perna mecânica. Seria essa a opção menos pior para mim?

Foi quando me dei conta de que até nisso eu era egoísta. As pessoas que nascem com alguma dessas deficiências ou adquirem-nas com o passar do tempo, não puderam escolher uma opção “menos pior”. Eu, que nasci perfeita, quero ainda me dar a luxo de escolher o sofrimento menos penoso, o defeito que me faria sentir “menos mal,” não por altruísmo ou compaixão dos que já o tem, mas simplesmente para não deixar de fazer o que mais me apraz.

O Jardim

O Jardim

Algumas sementes podem ficar por um longo tempo em estado dormente. Estão lá, plantadas, mas você nem as nota, ou prefere não notar. Alguns amigos até lhe aconselham: “cuida!”,“rega!”.  Você, porém, simplesmente diz: “cuidar do quê?”, “regar o quê?”, “não há nada ali”. Pensamos que tudo é eterno, que sempre estará a nossa disposição, independente do que fizermos por isso.

Porém, como muito tempo se passou, o jardineiro desiste de cuidar do que o dono não lhe permite. Esquecemos que ele não pode ficar sem seu trabalho e não lhe provemos essa oportunidade. Mas ao desistir do seu jardim, ele procura outro para cuidar.

Passa-se o tempo e em outro jardim nasce uma nova flor. Talvez não tão bonita como a que você teria, se tivesse cuidado. Agora, no entanto, a planta até cresceu, torta, seca, doente e sem sentido. Ou sadia, só não a mais bonita já vista.

Outra flor pode até crescer cuidada por outro jardineiro, mas aquela que está seca ficará ali, fixa, semimorta para sempre. O final dela será diferente somente se o jardineiro arrancá-la ou decidir dar intensivo cuidado a ela.

Você pode ser o dono do jardim ou o jardineiro. Independente do que você for, faça o melhor que puder para não fazer brotar uma planta seca à toa. E não se lamente caso seu jardim não esteja tão bonito; a culpa pode ser sua.