Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.

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Como crianças

Sejam como crianças, disse.
E me faz pensar no que nos tornamos,
Em quanto mudamos no tempo
Pelas marcas que carregamos
Dos erros cometidos,
Dos traumas sofridos.

Éramos tão jovens –
Quando tínhamos coragem
De dizer tudo o que pensávamos,
Quando contávamos nossos segredos,
Quando tudo parecia compartilhável
E não tínhamos medo de ninguém.

Hoje – olhe para nós –
Cometemos erros que sempre julgamos,
Escondemos tudo que pensamos,
Fugimos de nossos próprios sentimentos,
Cogitamos na mentira e na omissão,
Nos tornamos os demônios que temíamos.

Homenagem Póstuma

​As marcas da saudade jazem em lembranças

Vívidas, mas que não doem,

De tempos que não exatamente fazem falta,

São construções que fizeram sentido naquele tempo,

E já hoje não seriam necessárias.

Pelo contrário, a saudade é por tantas situações 

Posteriores, que deixaram de ser compartilhadas

Pela interrupção mais indesejável que é a morte.
(Homenagem ao meu avô, que faria aniversário hoje, 21/07, falecido em 13/01/2008)

Fight

​You’ve gotta stay strong,

You’ve gotta fight your own battles,

You’ve gotta live up to your dreams.

People are gonna want to bring you down,

People are gonna tell you what to do,

People are gonna say you’re wrong.

Nobody has to understand you,

Nobody has to know what’s really going on,

Nobody has the right to ruin who you are.

Um soneto só meu

Que esse soneto seja um desabafo só meu,

Que talvez a carapuça não sirva em mais ninguém,

Que seja a expressão do que estou sentindo

E que alguém se compadeça e compartilhe.

 

Que no fim dessa etapa de vida

Eu tenha sabedoria para discernir

O que realmente importa

E o que pode deixar passar.

 

Que nessa falta de métrica e sonoridade

Eu consiga dar o grito de tudo que sinto,

De tudo que eu esperaria consertar depois,

 

Mas não haverá uma próxima vez,

E chegando a esse término tanto percebo

Que queria recomeçar e fazer melhor.

Sem fundamento

Borboletas sem asas,
Libélulas de vidro,
Rosas sem cheiro,
Rouxinóis de madeira;
Afagos doentes.

Portas sem maçaneta,
Janelas opacas,
Camas sem estrado,
Redes empoeiradas;
Abraços inertes.

Céu sem estrelas,
Natureza morta,
Fogo sem chamas,
Mar amarronzado;
Beijos mecanizados.

Coração sem pulso,
Vida sem alma,
Um vazio.

Um desabafo sobre as relações humanas

E em toda essa longa história de humanidade, onde foi que nos perdemos?

Como com tanto progresso não descobrimos ainda a cura para a convivência?

Será que tanto nos perdemos na disputa por novos territórios,

Que perdemos a capacidade de conquistar o outro verdadeiramente?

Ou melhor, será que em tanta ambição por novas vitórias e glórias,

Também vemos uma pessoa como um objetivo e não como um ser a ser amado?

Será que passamos tantas coisas tão facilmente no cartão de crédito,

Que passamos também a nossa vida a crédito?

Será que são tantas coisas usufruídas instantaneamente e pagas à prestação,

Que arriscamos decisões e esperamos conseguir pagá-las com o tempo?

Será que nos acostumamos tanto com a infinidade e liberdade de opções,

Que não conseguimos mais olhar um ser humano como tendo um valor único?

E será que somos tão acostumados com a imediatez das máquinas,

Que não podemos esperar o tempo do outro?

E como tudo de que não gostamos ou que não nos funciona nós trocamos,

Será que cada vez que alguém nos chateia ou não faz o que queremos, substituímos?

Calculamos distâncias entre cidades, estados, países, planetas e galáxias,

Mas não somos capazes de entender o espaço meu e seu.

Analisamos cuidadosamente gráficos de valores especulativos – nem reais são,

Vamos direto ao nosso próximo analisá-lo da mesma forma – mas ele é real.

Pesquisamos avidamente qualquer assunto científico,

Mas jamais temos paciência de entender o estado do outro.

Será que nos matamos uns aos outros cada vez que precisamos colocá-lo sob análise antes de vermos a oportunidade de estabelecer mais um laço?

Nos matamos uns aos outros quando fazendo uma agenda de prioridades entre coisas, ocasiões e pessoas?

Matamos uns aos outros ao buscar manter as pessoas sob o nosso controle?

Por fim, matamos a nós mesmos quando de tanto precisarmos de coisas para sermos,

Não vemos mais humanidade nos outros, logo mais, nem em nós.

A arte de amar – parte 1

Há algumas semanas atrás eu comecei a ler um livro enquanto esperava um ônibus na rodoviária. O nome do livro já deve chamar a atenção de alguns e provocar o afastamento de outros: “The Art of Loving” (A arte de amar), de Erich Fromm. Diferente da aparente proposta de auto-ajuda que o título parece trazer, o livro na verdade trata do amor na era do consumo. A epígrafe do livro é uma citação de Paracelsus, físico renascentista suíço-alemão que diz:

Aquele que nada sabe, nada ama. Aquele que não pode fazer nada, nada entender. Aquele que não entende nada, é sem valor. Mas aquele que entende, também ama, percebe e vê. […] Quanto mais o conhecimento for inerente a algo, maior o amor. […] Qualquer um que imagina que todas as frutas amadurecem ao mesmo tempo que os morangos, não entende nada sobre uvas.

Em suma, o que Paracelsus diz é que o amor vem pelo conhecer. Aparentemente, os passos são: perceber, conhecer, entender e amar. Outro ponto trazido é a individualidade, ou seja, a necessidade de compreender cada ser humano em sua maneira. O que chama a atenção é a forma como Fromm retoma a questão do “conhecer”, o que se dá na p. 9. É dito que ao notar seu distanciamento em relação ao outro, sem a presença do amor, esse sentimento de estranhamento pela diferença do outro é a fonte da vergonha, da culpa e da ansiedade. Assim, a maior necessidade do ser humano é a de quebrar seu enclausuramento de si mesmo, de superar sua constante vontade de se esconder em seu egoísmo e orgulho, de encontrar uma forma de união e que esta transcenda os limites físicos, mas que encontre solidez num conhecer e compreender que quebre o distanciamento da separação entre os seres.

Muitos anos antes de Fromm, a epístola de João na Bíblia já dizia “Aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4:8). Ora, mais uma vez vemos uma associação entre o conhecer e o amor. No entanto, para João a fonte do verdadeiro amor é Deus e é preciso conhecê-lo para obter esse amor e, ao fazermos isso, amaremos também os outros seres humanos, os quais ele chama de “irmãos” (1 João 4:7; 1 João 2:9). Para conhecer a Deus também precisamos sair de nossa prisão humana para conseguir encontrá-lo. Novamente, a necessidade é de unir; unir-se e permitir-se ser unido. De acordo com o apóstolo Paulo ao longo de sua epístola aos Romanos, o pecado provocou a separação de Deus e do homem e a graça através do sacrifício de Cristo se tornou como uma ponte sobre o abismo do pecado e nos permitiu a aproximação com Deus novamente. Sem aceitar essa graça, nos sentiríamos diferentes demais de Deus e não seria possível conhecê-lo.

Mediante a Bíblia, a união com os irmãos depende primeiramente da união ao criador de todos os seres humanos – Deus. Não sei se você, caro leitor, acredita num Deus dessa forma, mas lhe convido a colocar de lado as diferenças entre mim e ti e navegar nessa hipótese de encontrar em algo transcendental a resposta para algo tão impossível de viver sem, que é a relação com as pessoas.