Aviso prévio da Modernidade – A perda da visão 

Se eu pudesse voltar quarenta anos
Eu avisaria as pessoas que surgirá
Um bloco eletrônico que todos terão
Acumulando funções manuais
Instaurando a praticidade na palma da mão.

A atratividade desse slogan
É compatível com o vício resultante
Evolucionistas diriam que as gerações
Posteriores terão dedos alongados
De tanto e para tanto manuseá-lo.

Olhando ao redor penso que os criadores
Queriam demitir o mundo da vista,
E conseguiram que todos andassem cabisbaixos,
Com os olhos presos às malditas telas.

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Corpos desalmados

Abaixo o platonismo,
Que dividiu mente e corpo,
Pois eis que somos uma coisa só.
Porém a palavra “alma”
Carrega em si uma aura
Que representa, vez ou outra,
Aquela essência do ser,
O que nos torna humanos.
Aí que vem a técnica,
Perfeita e funcional,
Nos encanta a mente,
Brilha os olhos cansados,
No reflexo de uma tela.
E com os olhares fixos,
Ficamos o carcaço,
Corpos desalmados.

O Romance na Era Digital

                                     1

Comportamento bizarro e inconstante
De olhares furtados e sorrateiros,
Contrastados a frequentes
Curtidas e visualizações.
Um ritual de conversas noturnas
Vazias, que almejam
Sair de uma tela
Mas, no processo,
Perdem-se no
Des-
Interesse.

                                     2
Os céus das cidades, azuis opacos,
Riscados de fios elétricos condutores
Permeados de ondas invisíveis,
Que carregam a codificação criada
Para representar o que pouco sabemos.
Mensagens de amor, de cônjuges a amantes,
Destinadas a cruzarem-se revestidas
Da aura do sigilo e do mistério.

                                      3
As medidas no virtual são sígnicas;
Os comportamentos codificados significam
Análises objetivas das atitudes digitais.
Entre visitas às histórias e reações às
Exposições feitas de si mesmo – pergunta-se –
O que resta saber e que importa além da tela
Para além do espectro magnético;
Como é que se transita do holograma ao físico?