Corpos desalmados

Abaixo o platonismo,
Que dividiu mente e corpo,
Pois eis que somos uma coisa só.
Porém a palavra “alma”
Carrega em si uma aura
Que representa, vez ou outra,
Aquela essência do ser,
O que nos torna humanos.
Aí que vem a técnica,
Perfeita e funcional,
Nos encanta a mente,
Brilha os olhos cansados,
No reflexo de uma tela.
E com os olhares fixos,
Ficamos o carcaço,
Corpos desalmados.

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O Romance na Era Digital

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Comportamento bizarro e inconstante
De olhares furtados e sorrateiros,
Contrastados a frequentes
Curtidas e visualizações.
Um ritual de conversas noturnas
Vazias, que almejam
Sair de uma tela
Mas, no processo,
Perdem-se no
Des-
Interesse.

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Os céus das cidades, azuis opacos,
Riscados de fios elétricos condutores
Permeados de ondas invisíveis,
Que carregam a codificação criada
Para representar o que pouco sabemos.
Mensagens de amor, de cônjuges a amantes,
Destinadas a cruzarem-se revestidas
Da aura do sigilo e do mistério.

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As medidas no virtual são sígnicas;
Os comportamentos codificados significam
Análises objetivas das atitudes digitais.
Entre visitas às histórias e reações às
Exposições feitas de si mesmo – pergunta-se –
O que resta saber e que importa além da tela
Para além do espectro magnético;
Como é que se transita do holograma ao físico?

Oração de um pecador

Que a salvação me acorde a cada manhã
E apague a noite de culpa que sonhei.
Tenha misericórdia dessa minha inconstância
De orar pela manhã e dormir sem dizer adeus.
Me convença do meu pecado,
Mas garanta também que há perdão para mim.

Que o meu sorriso contagie a quem precisa
Independente das minhas queixas.
Tenha paciência com minhas distrações,
Quero tantas coisas que esqueço o principal.
Me ajuda a entender que só é bênção
Se não terminar em mim.

Que as minhas palavras digam apenas
Coisas que valem a pena serem ouvidas.
Tenha piedade da incoerência que há
Entre o que eu afirmo crer e o que eu faço.
Me torne em alguém que é ponte,
Que não é muro, nem abismo, nem vácuo.

Que o teu amor seja a tonalidade e a tua graça
O compasso em que reges a minha vida.
Tenha cuidado com minhas brechas
E use-as para que a tua luz me atravesse.
Me carrega por onde quiser como lhe convém,
Porque eu não posso viajar só.

Quando encontrar esse alguém

O que fazer quando se encontra aquela pessoa
Capaz de lhe arrancar um sorriso somente
Por lembrar-se dela e imaginar-se perto?
Quando ao ouvir sua voz os olhos até brilham,
Chegam a doer as bochechas pelo quanto
Se é incapaz de esconder o bem que lhe faz.

Do que chamaremos tal sentimento? Não sei.
Seria injusto querer rotular algo tão belo e meu
E expor a todos que o julguem mediante as
Definições que cercam a nós todos falantes
E nos impedem de viver e sermos livres na
Liberdade do outro diante do nosso afeto.

Ah, mas quando encontrar esse alguém…
Meu caro, que sorte a sua, perceberás.
Notarás que menos importa que corresponda
E mais importa que de alguma forma
Se faça presente na sua vida esse humano
Que em meio a todo caos lhe traz um refúgio.
Digo isso porque já encontrei esse alguém.