Aviso prévio da Modernidade – A perda da visão 

Se eu pudesse voltar quarenta anos
Eu avisaria as pessoas que surgirá
Um bloco eletrônico que todos terão
Acumulando funções manuais
Instaurando a praticidade na palma da mão.

A atratividade desse slogan
É compatível com o vício resultante
Evolucionistas diriam que as gerações
Posteriores terão dedos alongados
De tanto e para tanto manuseá-lo.

Olhando ao redor penso que os criadores
Queriam demitir o mundo da vista,
E conseguiram que todos andassem cabisbaixos,
Com os olhos presos às malditas telas.

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Corpos desalmados

Abaixo o platonismo,
Que dividiu mente e corpo,
Pois eis que somos uma coisa só.
Porém a palavra “alma”
Carrega em si uma aura
Que representa, vez ou outra,
Aquela essência do ser,
O que nos torna humanos.
Aí que vem a técnica,
Perfeita e funcional,
Nos encanta a mente,
Brilha os olhos cansados,
No reflexo de uma tela.
E com os olhares fixos,
Ficamos o carcaço,
Corpos desalmados.

O produzir é um vício

O produzir é um vício que se aparenta bom,
Ele é a fonte do vetor da produtividade,
Que em somas traz a resultante do sucesso.

O produzir é um vício bem visto,
Pois definiu o que é utilidade e sucesso,
E passou a ser a medida de todas as coisas.

O produzir é um vício que nos prende
À necessidade de estarmos ocupados
E justificar-nos de nossa ausência dos outros.

O produzir é um vício que revela
Qual a moeda de troca do atual ser humano,
A qual dá-se no tempo mediante a perda.

O produzir é um vício que nos consome
Através das múltiplas atividades simultâneas,
Da necessidade de constante disponinilidade.

O produzir é um vício que nos impede
De perder tempo observando o mundo,
De nos encantarmos com o que leva tempo.

O produzir é um vício que exclui tudo
Que não se mede na escala da produtividade,
Aquilo que nos diferencia das máquinas.

Vistas Saudosas

Quando subo a Avenida Sete,
Debaixo das voluptuosas árvores,
As grandes portas de madeira maciça,
Vejo o lar e da coleção de pedras,
A casa que julguei assombrada,
O prédio onde tantas impressões habitam.

E ao final daquele caminho
Chega -se a um alto onde o olhar
Repousa sobre um belo mar azul,
Sob os braços de um Castro Alves de pedra,
Mas não belo como o ápice de ruas acima,
Ao lado do elevador, mirando a baía.

Saudades destas vistas eu sinto,
Vontade de tornar-me parte do lugar;
Quisera eu que fossem banidas as azias,
Houvesse uma completude lá do ser-aí,
Porém aquilo que de mais vantajoso se espera
Torna-se o veneno da melancolia

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A abertura do ser

Entre o tudo e o nada muito em comum há,
O longo percurso de um a outro começa e termina no mesmo ponto
É um túnel no espaço-tempo questionando a realidade.

O nada nos oprime e nos liberta;
O tudo nos ilude e nos mantém;
Unem-se na indeterminação que é o viver.

A temporalidade do existir nos assombra,
O tempo gasto para determinar definições
Ignora a arte que há no desocultar o indefinido que é o ser.

Se puder vir à minha casa…

A limpeza não foi das mais profundas,
Sei que há uns cantinhos de poeira,
Umas teias de aranha escondidas no teto,
Talvez uma ou outra mancha na parede que não consegui tirar;
E hoje mesmo derrubei um prato – se estilhaçou todo,
Logo, se não cuidar, pode ser que ache pequenos cacos de vidro que machucam.
Tento manter a organização, mas nada está perfeito;
Não há condição para uma decoração rebuscada,
Nem mesmo muito senso para embelezar com o pouco que se tem.
Perdoa a mediocridade, perdoa a pequenez!
Tem misericórdia deste coração que é tal qual a minha casa.
Contudo, mesmo com Sua grandeza, humildemente eu peço,
Se puder, venha à minha casa hoje.

[1 Reis 8:27]

Dèja vu

Eis que estava num ônibus comum,
De um caminho quase constante,
Na vista que tantas vezes olhei.

Sentei do lado oposto ao de sempre,
Olhei para o meu antigo banco,
Lembrei de uma vez inusitada.

Aquele dia em que descobri que
As surpresas não se superam
Pelas rotas combinadas.

Quando o encontro é inesperado,
Algumas coisas se tornam obrigatórias,
E não importa se fazem sentido.

Pessoas

A grande massa delas lhe carrega no fluxo,

Mascara o vazio andar por entre a gente,
São como figuras que preenchem espaços
Das paisagens conhecidas em que passamos,
Permitindo às rotinas mais valor do que
Os seres que conosco dividem cenário.

Mas quando dentre toda essa multidão
Encontramos uns com quem nos ligamos,
Ah… não aqueles a quem somos obrigados,
Aqueles que quando os olhares cruzaram
Atou-se um nó inexplicável nos corações
E entendemos o que significa comunicação.

Há aqueles que seguem uma sequência
Lógica da amizade enquanto outros nunca
Entendemos qual foi a conversa culpada.
Há aqueles que fazemos força para gostar,
Mas fazem falta, só que menos do que aqueles
Que se possível carregaríamos no bolso.

Há aqueles por quem fazemos força para não
Apaixonar, mesmo sabendo do perigo, o que é
Melhor do que aqueles que nunca saberão.
O que importa é que quanto mais se tenta
Explicar, mais constrangidos ficamos diante da
Incapacidade de dizer o que se sente do outro.

Gente Bege

​Uma classe de pessoas que facilmente se infiltram nas nossas vidas,

Chegam de mansinho e estão discretamente presentes, fazem parte da composição.

Bege combina com tudo, é o que dizem, aí é bom ser uma pessoa bege.

Mas que nada! Que não tem coisa pior do que gente indiferente,

Indiferente tipo bege, que está ali só porque está ali,

Não fede nem cheira, não chove e não molha;

Gente indecifrável, não entendível, que não se expressa

Tanto quanto o bege passa toda a vida presente escondido nas paredes,

Sem se expressar para o mundo.