O produzir é um vício

O produzir é um vício que se aparenta bom,
Ele é a fonte do vetor da produtividade,
Que em somas traz a resultante do sucesso.

O produzir é um vício bem visto,
Pois definiu o que é utilidade e sucesso,
E passou a ser a medida de todas as coisas.

O produzir é um vício que nos prende
À necessidade de estarmos ocupados
E justificar-nos de nossa ausência dos outros.

O produzir é um vício que revela
Qual a moeda de troca do atual ser humano,
A qual dá-se no tempo mediante a perda.

O produzir é um vício que nos consome
Através das múltiplas atividades simultâneas,
Da necessidade de constante disponinilidade.

O produzir é um vício que nos impede
De perder tempo observando o mundo,
De nos encantarmos com o que leva tempo.

O produzir é um vício que exclui tudo
Que não se mede na escala da produtividade,
Aquilo que nos diferencia das máquinas.

Vistas Saudosas

Quando subo a Avenida Sete,
Debaixo das voluptuosas árvores,
As grandes portas de madeira maciça,
Vejo o lar e da coleção de pedras,
A casa que julguei assombrada,
O prédio onde tantas impressões habitam.

E ao final daquele caminho
Chega -se a um alto onde o olhar
Repousa sobre um belo mar azul,
Sob os braços de um Castro Alves de pedra,
Mas não belo como o ápice de ruas acima,
Ao lado do elevador, mirando a baía.

Saudades destas vistas eu sinto,
Vontade de tornar-me parte do lugar;
Quisera eu que fossem banidas as azias,
Houvesse uma completude lá do ser-aí,
Porém aquilo que de mais vantajoso se espera
Torna-se o veneno da melancolia

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A abertura do ser

Entre o tudo e o nada muito em comum há,
O longo percurso de um a outro começa e termina no mesmo ponto
É um túnel no espaço-tempo questionando a realidade.

O nada nos oprime e nos liberta;
O tudo nos ilude e nos mantém;
Unem-se na indeterminação que é o viver.

A temporalidade do existir nos assombra,
O tempo gasto para determinar definições
Ignora a arte que há no desocultar o indefinido que é o ser.

Se puder vir à minha casa…

A limpeza não foi das mais profundas,
Sei que há uns cantinhos de poeira,
Umas teias de aranha escondidas no teto,
Talvez uma ou outra mancha na parede que não consegui tirar;
E hoje mesmo derrubei um prato – se estilhaçou todo,
Logo, se não cuidar, pode ser que ache pequenos cacos de vidro que machucam.
Tento manter a organização, mas nada está perfeito;
Não há condição para uma decoração rebuscada,
Nem mesmo muito senso para embelezar com o pouco que se tem.
Perdoa a mediocridade, perdoa a pequenez!
Tem misericórdia deste coração que é tal qual a minha casa.
Contudo, mesmo com Sua grandeza, humildemente eu peço,
Se puder, venha à minha casa hoje.

[1 Reis 8:27]

Dèja vu

Eis que estava num ônibus comum,
De um caminho quase constante,
Na vista que tantas vezes olhei.

Sentei do lado oposto ao de sempre,
Olhei para o meu antigo banco,
Lembrei de uma vez inusitada.

Aquele dia em que descobri que
As surpresas não se superam
Pelas rotas combinadas.

Quando o encontro é inesperado,
Algumas coisas se tornam obrigatórias,
E não importa se fazem sentido.

Pessoas

A grande massa delas lhe carrega no fluxo,

Mascara o vazio andar por entre a gente,
São como figuras que preenchem espaços
Das paisagens conhecidas em que passamos,
Permitindo às rotinas mais valor do que
Os seres que conosco dividem cenário.

Mas quando dentre toda essa multidão
Encontramos uns com quem nos ligamos,
Ah… não aqueles a quem somos obrigados,
Aqueles que quando os olhares cruzaram
Atou-se um nó inexplicável nos corações
E entendemos o que significa comunicação.

Há aqueles que seguem uma sequência
Lógica da amizade enquanto outros nunca
Entendemos qual foi a conversa culpada.
Há aqueles que fazemos força para gostar,
Mas fazem falta, só que menos do que aqueles
Que se possível carregaríamos no bolso.

Há aqueles por quem fazemos força para não
Apaixonar, mesmo sabendo do perigo, o que é
Melhor do que aqueles que nunca saberão.
O que importa é que quanto mais se tenta
Explicar, mais constrangidos ficamos diante da
Incapacidade de dizer o que se sente do outro.