Debaixo da Lua Cheia

Na linha tênue do horizonte
Sob uma noite bem iluminada
O mar levemente toca a areia fria
Chiando suavemente pelas suas ondas

Um abraço repentino captura um coração
Sequestrando o fôlego num suspiro
Os olhares distando sobre a água
Os corpos tímidos encostados

Então os olhares se encontram
E numa longa pausa o pensamento
Se desfaz no vento que ali os envolve

E sussurra-lhes: “Deixe a lua os guiar!”
Que ela é cheia de amor; e os une
Num suave e eterno beijo.

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Soneto dos Detalhes

São aquelas pequenas coisas
Que de tão pequenas você
Desacredita e acha que são
Mentira, imaginação ou invenção.

Aquelas coisas como olhares
Desencontradamente cruzados,
Notar os esboços dos sorrisos
E suas peculiaridades.

A proximidade dos corpos,
Os risos sincronizados,
As mãos se juntando inesperadas.

Como sentir algo por tão pouco,
Capaz de dar calafrios e trazer
Nova rota para os pensamentos?

Como lidar com o saudosismo

São sentimentos presos nos corredores,

Dos dias transitados numa rotina

Que se passou tão repetidamente

Rápida, que de repente já não era.

 

É uma construção emocional presa nos prédios,

Moldada nos pedaços de concreto do ser,

Como se aquilo tivesse que ser eterno,

Deixando de lado a pluralidade.

 

E chega um novo tempo em que não

Importa o que se fez ou foi feito,

Que a vida obriga à nova existência.

 

Mas quão difícil é a aceitação de que

Tempo que é tempo passa e nós,

Que somos, ficamos, somos e existimos.

 

Texto sobre tempo.

Um soneto só meu

Que esse soneto seja um desabafo só meu,

Que talvez a carapuça não sirva em mais ninguém,

Que seja a expressão do que estou sentindo

E que alguém se compadeça e compartilhe.

 

Que no fim dessa etapa de vida

Eu tenha sabedoria para discernir

O que realmente importa

E o que pode deixar passar.

 

Que nessa falta de métrica e sonoridade

Eu consiga dar o grito de tudo que sinto,

De tudo que eu esperaria consertar depois,

 

Mas não haverá uma próxima vez,

E chegando a esse término tanto percebo

Que queria recomeçar e fazer melhor.

Soneto do sentimento sem fim

Por todas as noites prolongadas,
Por todo o sono desperdiçado,
Por todas as conversas criadas,
Por todo o tempo desperdiçado,

Por todos os sonhos imaginados,
Por toda a criatividade aguçada,
Pelos momentos engraçados,
Por toda a emoção elevada,

Por todas as lágrimas derramadas,
Pelos suspiros abafados,
Por todos os dias alegrados,

Por todo o sentimento exaltado,
Por toda a vida planejada,
Por toda a falta apegada..

Soneto para minha bisavó

Doce anjo que agora dorme,
Teus meigos olhos se fecharam,
Tuas simples mãos se juntaram
Numa imóvel oração desforme.

Linda flor que ainda sublime,
Mesmo quando suas pétalas murcharam,
E as folhas, perdendo o brilho, caíram,
E o céu aguarda que se transforme.

Tenra luz que suave brilha
Subiu em flocos luminosos,
Sorrisos em lágrimas sob o céu ladrilha.

Meiga, seus atos sonhos e desejosos,
Em todo tempo confiou a Deus a manilha,
Acabou em paz, deixando-nos saudasos.


Escrito em memória da minha bisavó Noemia, durante duas semanas após seu falecimento, cuja data foi 14 de agosto de 2014, exatamente dois dias antes de seu aniversário de 92 anos. A imagem parece não ter nada a ver com o texto, mas eu é um lugar que me transmite paz e perfeição – para mim, uma paz que ela tinha, e a perfeição do Deus no qual ela cria e eu também creio.

Soneto “Amor é fogo” – Camões trocado

Amor é fogo que arde e não se quer ver;
É ferida que dói e se sente;
É um descontentamento contente;
É dor silente a se esconder.

É um querer esquecer mais do que poder;
É um complicado andar por entre a gente;
É nunca contentar-se com o presente;
É querer ganhar mesmo quando se perder.

É trocar o novo por saudade;
É querer justificar o causador;
É sorrir triste em simplicidade.

Mas como pode fingir tal dor,
Acabar dita como amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Nos achamos fortes

Nos achamos fortes,

Acreditamos em mil sortes,

Sentimos com as mentes,

Pensamos com os inconscientes.

 

Nos convencemos de sete nortes,

Desenhamos o coração com cortes,

Querendo desunir pontos congruentes,

Crendo em unir retas concorrentes.

 

Se tudo vale a pena,

Tudo faz pleno sentido,

Quando a alma não é pequena,

 

Não incomoda reouvir o ruído,

Quando se reassiste cada cena,

Mesmo que apenas o querer seja revivido.

E se…

(baseado no “Eterno Retorno” de Nietzsche)

E se lhe fosse dado reviver,
Cada único dia da tua vida,
Se lhe tirasse da escolha o poder,
E fazer das memórias infinitas.

Se for obrigado sentir doer,
As alegrias do primeiro amor,
Se forem imputados os perfumes,
Das lágrimas das angústias e mágoas,

Se quando dormir os sonhos vierem,
E te assombrarem todos os sentidos,
Quando acordares, para e toma nota:

Pois não te valerão os anos vividos,
Se quando vir nos sonhos revivê-los,
Chorares amargamente até o fim.

Soneto da Saudade

Mas que infinita dor que invade a alma!
Louca, cega, tão tola e inevitável.
Capaz de me tirar o sono e a calma,
Grandiosa, falta que é incomparável.

Falo tanto que posso esquecer fácil
Nas corridas, nas massas, nos respiros,
De tanto amor que longe é tão difícil
Que agora restou somente em suspiros.

Sentimento que sofre, mas acalma,
Que vem de uma espera longa, infindável;
Não há palavras, somente as da alma.

Pois antes de um estado deplorável,
Há o sentimento que traduz a calma,
Aquele amor que tornou lamentável.