Desabafo da mágoa

Não é estranho que quanto mais tentamos fugir das pessoas, mais elas nos encontram? Junto a isso, uma terrível sensação – de que a mágoa que lhe machuca nem sequer é lembrança por quem a causou. São várias náuseas em cada encontro e desencontro com aquele a quem se dirige a mágoa.
Assim, você anda por aí torcendo para que os caminhos não se cruzem. Nos compromissos em comum, finge que nunca conheceu a criatura. Cada vez que mencionam seu nome numa conversa, faz comentários superficiais e distantes a seu respeito. Se de longe o avista, depressa recalcula a rota para evitar a fadiga.
Mas se não houver jeito e passarem um pelo outro, pega o celular e finge haver algo de muita importância a ser resolvido (como visualizar os contatos da agenda). Se ele quase esbarrar em você, apenas continue rindo com quem estiver à sua volta, siga fazendo o que deveria estar fazendo. Se realmente não tiver como, se está bem sentado à sua frente, faça cara de paisagem e conte histórias, fale sobre seu dia normalmente, ignore o suave sorrisinho que dirigir a você.
Porém, a real desgraça é que não importa o quanto você fuja, parece que o drama brota dos bueiros. Dos lugares mais óbvios aos inimagináveis, lá estará a pessoa evitada. Você vai se corroer cada vez que vê-la, pensando em quão desconfortável é, e em quanto o outro parece nem ligar. Vai ficar imaginando o que se passa naquela cabeça alheia e sempre torcer para que seja recíproca a sensação de estranheza.
No entanto, apesar do risco de ser todo um mal entendido, muito provavelmente toda a sua frieza, distância e olhares fulminantes serão suficientes para aniquilar qualquer tentativa de reconciliação. E lá estará você, com o estômago nas mãos, revirando cada vez que pensar que pode encontrar a carcaça que criou-se na sua mente.

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A arte de amar – parte 2

Erich Fromm aborda rapidamente o amor na sociedade do consumo, que resulta em enxergar as pessoas como opções no mercado e escolher aquela que parece ser a melhor opção disponível no mercado. Isso até lembra Bauman em Amor Líquido, dizendo que o se apaixonar na era do consumo se assemelha à especulação na bolsa de valores. Outro problema do amor na era atual, para Fromm, é que poucas pessoas aceitam que ele é uma arte – tanto quanto viver é uma arte – e, portanto, é necessário aprender esta arte. Diante disso, surge outro problema: demanda-se tempo, raciocínio e aprendizado para se tornar hábil nesta arte; e mais uma vez recorremos a Bauman, dizendo que na sociedade líquida (veloz e incerta) não há tempo a perder, e nisso a natureza humana cabe bem (convenhamos, todos nós somos egoístas, só não gostamos de assumir isso para não manchar nossa moral, o que prova novamente que somos egoístas).

Irônico é observar um comentário de Fromm acerca da lógica capitalista. Diz ele que assumiu-se um pensamento de igualdade no sentindo de des-individualizar o ser humano, tal qual os autômatos e os objetos produzíveis o são. De certa forma, seres humanos são produzíveis também – é para isso que nos reproduzimos como espécie. Assustador é termos a coragem de comparar tais coisas como se fossem iguais. Um pensador atual de comunicação e sociologia, Ciro Marcondes Filho, afirma em várias de suas obras que o ser humano criou as máquinas e passou a admirá-las mais do que a si mesmo, tanto que, inicialmente, ele delegava algumas de suas tarefas, seu sonho passou a ser que elas fizessem todas suas atividades, como se as máquinas pudessem viver por ele para que então o ser pudesse “curtir” (pergunto o que é que sobra se a máquina faz tudo); finalmente, ele deseja ser uma máquina.

Mas se a máquina e/ou o produto são seriados, embora eles façam as atividades de cada indivíduo, eles são todos iguais – objetos subordinados e ao mesmo tempo dominadores. Ao mesmo tempo em que se buscar ter um algo que se encaixe só para si mesmo, todos desejam ter o que é comum ao grupo e ao status para que possam estar coberto dos signos que lhe fazem ser alguém. Eis um paradoxo, ser um único igual. Mas se olhamos para todos como iguais, onde está a grande dificuldade de escolha? Porque que fizemos das nossas relações um mercado especulativo e analisamos tanto sem vivê-lo de fato? De tão autênticos que tentamos ser no nosso comportamento, nos tornamos mais um de todos.

A arte de amar – parte 1

Há algumas semanas atrás eu comecei a ler um livro enquanto esperava um ônibus na rodoviária. O nome do livro já deve chamar a atenção de alguns e provocar o afastamento de outros: “The Art of Loving” (A arte de amar), de Erich Fromm. Diferente da aparente proposta de auto-ajuda que o título parece trazer, o livro na verdade trata do amor na era do consumo. A epígrafe do livro é uma citação de Paracelsus, físico renascentista suíço-alemão que diz:

Aquele que nada sabe, nada ama. Aquele que não pode fazer nada, nada entender. Aquele que não entende nada, é sem valor. Mas aquele que entende, também ama, percebe e vê. […] Quanto mais o conhecimento for inerente a algo, maior o amor. […] Qualquer um que imagina que todas as frutas amadurecem ao mesmo tempo que os morangos, não entende nada sobre uvas.

Em suma, o que Paracelsus diz é que o amor vem pelo conhecer. Aparentemente, os passos são: perceber, conhecer, entender e amar. Outro ponto trazido é a individualidade, ou seja, a necessidade de compreender cada ser humano em sua maneira. O que chama a atenção é a forma como Fromm retoma a questão do “conhecer”, o que se dá na p. 9. É dito que ao notar seu distanciamento em relação ao outro, sem a presença do amor, esse sentimento de estranhamento pela diferença do outro é a fonte da vergonha, da culpa e da ansiedade. Assim, a maior necessidade do ser humano é a de quebrar seu enclausuramento de si mesmo, de superar sua constante vontade de se esconder em seu egoísmo e orgulho, de encontrar uma forma de união e que esta transcenda os limites físicos, mas que encontre solidez num conhecer e compreender que quebre o distanciamento da separação entre os seres.

Muitos anos antes de Fromm, a epístola de João na Bíblia já dizia “Aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4:8). Ora, mais uma vez vemos uma associação entre o conhecer e o amor. No entanto, para João a fonte do verdadeiro amor é Deus e é preciso conhecê-lo para obter esse amor e, ao fazermos isso, amaremos também os outros seres humanos, os quais ele chama de “irmãos” (1 João 4:7; 1 João 2:9). Para conhecer a Deus também precisamos sair de nossa prisão humana para conseguir encontrá-lo. Novamente, a necessidade é de unir; unir-se e permitir-se ser unido. De acordo com o apóstolo Paulo ao longo de sua epístola aos Romanos, o pecado provocou a separação de Deus e do homem e a graça através do sacrifício de Cristo se tornou como uma ponte sobre o abismo do pecado e nos permitiu a aproximação com Deus novamente. Sem aceitar essa graça, nos sentiríamos diferentes demais de Deus e não seria possível conhecê-lo.

Mediante a Bíblia, a união com os irmãos depende primeiramente da união ao criador de todos os seres humanos – Deus. Não sei se você, caro leitor, acredita num Deus dessa forma, mas lhe convido a colocar de lado as diferenças entre mim e ti e navegar nessa hipótese de encontrar em algo transcendental a resposta para algo tão impossível de viver sem, que é a relação com as pessoas.

Sim, nós temos pedigree!

Vivemos num mundo de marcas e rótulos, os quais ganham seu valor de acordo com seu branding. Isso quer dizer que o preço de cada marca não está necessariamente em seu gasto para ser produzido, mas em quanto valor se pode agregar à marca. Antes da marca, porém, está o dono dela, que recebe royalties ou no mínimo tem direitos autorais ou a patente sobre seu produto.

O Salmo 100:3 diz que nós fomos feitos por Deus e que nós somos o povo dele e o rebanho do seu pastoreio, portanto devemos conhecê-lo. Esse verso confirma o relato da criação de Gênesis 1:26 e 27, onde é dito que nós fomos formados a imagem e semelhança de Deus. Se quisermos usar termos técnicos, podemos dizer que Deus é nosso “produtor” e que nós somos sua “manufatura”. Soou comercial? Aí é que está o detalhe. Deus não nos fabricou para sermos vendidos, mas para servimos de sua companhia, para sermos amigos dele, para servirmos de sua imagem e para sua honra e glória.

Soa egoísta agora? Prazer, esse é o teocentrismo, o melhor sistema de governo que já existiu, mas nunca foi testado na Terra em totalidade. E como eu sei que é o melhor? Vejamos, o universo todo, menos nosso planeta, é regido por esse sistema e está de pé até hoje, sem conflitos e sem pecado. Ora, se você acha que o pecado não é tão ruim assim e que podemos conviver com ele, experimente observar o fim dos resultados dele – nem o capitalismo, nem o socialismo ou comunismo, nem a anarquia resolveram.

Bem, pertencemos a Deus por direitos dele, pois somos criação dele. Então o pecado nos roubou de Deus. A continuação da história da humanidade, porém, revela uma resolução inacreditável – João 3:16 diz que Deus entregou seu filho unigênito para salvar a humanidade simplesmente porque nos ama. A morte de Jesus por nós devolveu a ele sua patente sobre nós. Ele nos comprou e pagou o preço (1 Co 6:20), o preço do pecado (Rm 6:23). Agora, além dos royalties por criação, ele tem todo o direito de consumidor por ter nos adquirido em troca de algo – este algo, o “algo” mais precioso jamais visto, a vida de Deus.

Sim, pertencemos a Deus duas vezes – fomos criados e comprados. Acho, mas, assim, só acho, que isso já faz de nós especial. Contudo, se não te basta, nós somos “raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a ele” (1 Pe 2:9). Agora sim, além de criados e comprados, fomos considerados como de alto valor e qualidade. Nós temos pedigree.

A moldura

A verdade é que todos os dias são iguais; somos todos dependentes de uma rotina. Acordamos, meditamos, tomamos o desjejum, estudamos, almoçamos, trabalhamos, jantamos. E aí vem a noite. O vazio. O momento indefinido, que depende totalmente de ti. Podemos dizer que o dia é uma pintura. Oras, nenhuma tela se torna quadro sem uma moldura. Assim, o dia por si só, ou melhor, a rotina é uma pintura bruta; os detalhes do dia formam a moldura que será dada à obra.

Não é errado afirmar que a moldura é relativa, pode ser trocada e, aliás, deve. À medida que o dia transcorre, nos tornamos frios, alheios aos outros e alienados às mudanças. Não é por esse motivo que devemos deixar de manter uma rotina, de sequenciar nosso dia, pois somente dessa forma temos a base de nossas atividades. Essa ordem, de alguma forma, nos dá um prazer de termos algo palpável para construir quem somos através do que fazemos. Esse pensamento, apesar de parecer um tanto racional demais, não pode ser negado, pois a realização de nossas atividades nos dá a sensação de segurança, capacidade e habilidade, uma certa autossuficiência.

Essas realizações, porém, de nada valem se não tivermos o sorriso de alguém, um olhar de atenção, uma risada sincera, a alegria de uma companhia especial. Vale também observar o nascer ou o por do sol, uma flor, uma árvore; vale tudo que vier das mãos do criador que te faça crescer e ter paz. Esses detalhes do dia determinam qual será a moldura do dia.

Devemos cuidar, no entanto, pois nos enganamos facilmente com o que vier do dia anterior. A moldura será a mesma quando acordares, mas ela não pode permanecer ali, pois um novo dia exige novas experiências. E ela te encara, te desafia. Se a moldura for triste, angustiante, ela te questionará se ousas mudá-la; se ela for alegre, radiante te provará para mantê-la. A verdade, a única verdade, é que quem determina tudo isto é tu mesmo. Contudo, nada poderá desafiar a ordem superior das coisas, porque esta vem do alto.