Nos olhares dos campos

            “Pela quinta, vez Maria Helena, a ideia foi sua de não virmos com o nosso carro, agora não reclame. Estou carregando sua bagagem e a minha, deixe-me subir as escadas em paz!” – resmungava seu Eduardo, enquanto caminhava atrás de sua esposa rumo a um novo quarto na pousada, ouvindo-a reclamar de seus pés.

            A família composta pelo casal e a única filha, Heloísa, tirou folga no fim de semana e foi a Campos do Jordão. Infelizmente, pediram ao motorista da empresa que os deixasse lá e não fizeram boa pesquisa sobre o local onde ficariam hospedados. A bela pousada ficava no alto da serra, com belíssima vista da cidade e da natureza disposta nos montes, proporcionando ares mais frios e úmidos pela chuva quase constante naqueles dias. Porém, a distância do vale resultava numa longa e desconfortável caminhada e não haviam notado também que as atrações da cidade eram um pouco distantes uma da outra. Os pais saberiam de tudo isso se tivessem ouvido a filha, que havia checado as informações nos aplicativos e blogs de viagem.

            Cansada de ouvir a discussão de seus pais, Heloísa agradecia por estar sozinha num quarto separado e se jogou na cama decepcionada com a viagem que mal começava e já ia por água abaixo. Após uma tentativa de manhã de compras e de voltar a pé para a hospedagem – no meio do caminho chamaram um carro – ambos estavam estressados e decidiram descansar fazendo bom uso do quarto. Abriu a janela e viu que o céu preguiçosamente se abria azul e resolveu que poderia ficar emburrada em outro lugar. Lembrou-se que a ligação para o carro foi feita no seu celular, alguém do hotel havia lhe passado o contato, e decidiu ligar novamente para o rapaz. Pegou a bolsa e desceu rapidamente para a recepção.

            “Mal tive tempo de chegar ao final da serra, para sua sorte. É Heloísa, né?”

            “Sim. O seu é Tales, certo?”

            “Exato. Para onde você quer ir?”

            Foi então que lhe ocorreu que ela não sabia para onde queria ir. Suas pesquisas pareceram terem sido feitas em vão, pois nem se lembrava de mais nada.

            “Não sei, essa cidade é tão falada, mas não achei nada de tão interessante nela. Aquele tal centro turístico, o Capivari, só tem comida e lojas, numa leve semelhança com uns cantos da Europa. Você disse que é guia, me ofereça opções.”

            Tales estava acostumado com turistas desinformados e sem direção, mas não com indiferença e toque de grosseria por parte de seus clientes. Respirou fundo.

            “Podemos ir ao pico do Itapeva, a vista é muito bonita, você terá fotos boas.”

            Ela nem respondeu, apenas fez um “hum” e encostou sua cabeça na janela, o que ele entendeu como um sinal afirmativo. Pela astúcia de sua passageira, ele até se surpreendeu que ela se sentasse ao seu lado no banco do carona e não no banco de trás deixando clara sua posição serviçal. Não tinha muita paciência com essas garotas mimadas e ricas, ele era um cara da simplicidade, mas não podia deixar de notar que ela era bastante atraente. Quem sabe no fundo ela fosse uma pessoa legal, pensou.

            Heloísa estava calada, apenas mentalmente agradecendo pela boa playlist do motorista. Ainda com a cabeça deitada, olhou para ele de canto e só então reparou que ele deveria ter mais ou menos sua idade; e que era bonitinho. A paisagem do caminho era de fato muito bela, o que a levou a manter o olhar perdido nos verdes morros, de modo que nem sentia a estrada estreita e as curvas pelas quais passava. Seus pensamentos divagaram tanto que ela cochilou, acordando apenas com o freio de mão sendo puxado para estacionar o carro. A vista era linda e Tales, empenhado, lhe explicava detalhadamente o que era possível ver ali, as cidades, plantações, os mirantes, lagos, hotéis e clubes – as palavras-chave que ela guardava, enquanto continuava com seus olhos pairando por todo o horizonte. Voltaram para o carro.

            “Você é sempre quieta assim ou só quando gostou do passeio?”

            “Ah, me desculpa, estou um pouco chateada. Eu adorei a vista, muito obrigada. Sinto muito pelo meu mau humor, é que meus pais estavam brigando quando eu saí e…”, franziu sua testa, “por que estou te contando isso mesmo?”, ela riu levemente.

            “Pode falar, se quiser. Ou você pode escolher deixar isso pra lá e aproveitar o passeio”, ele forçando a simpatia. “Quantos anos você tem? O que faz em São Paulo?”

            “Tenho 21, estou me formando em Administração. E você?”

            “Tenho 25, sou professor de Geografia no Ensino Fundamental numa escola pública aqui na cidade e aos finais de semana eu faço umas corridas para tirar mais uma grana. Já descemos a serra, quer outra sugestão de lugar para ir agora?”

            “Pode ser, meus pais ainda nem se manifestaram sobre minha ausência.”

            “Você disse que conseguiu ir ao museu Felícia Leirner ontem, mas não ao Palácio da Boa Vista que é ali perto, correto? Então vamos lá.”

            Após uma hora de visita e várias fotos ela já estava sorrindo mais naturalmente e interagindo com seu motorista, a quem já sentia vontade de chamar de amigo. Chegando perto do carro, deu uma última olhada na vista.

            “Devo admitir que você é um ótimo guia, sabe os lugares certos para levar as pessoas. Ficar ali no centro não tem muita graça, isso sim faz a viagem valer a pena.”

            “Estou feliz que esteja apreciando tudo, para mim, são esses olhares ao redor da cidade que mostram o que a cidade é de fato”, ele fechou a porta do carro, acionou a chave e esperou que ela também entrasse, “mas precisa de tempo para apreciar”.

            Eles se olharam, sorriram, e ele engatou a marcha ré para seguir o passeio.

            “Lá na capital a gente não tem tempo de ver bem as coisas, nem de perto nem de longe, a gente só segue o fluxo na rapidez necessária e faz o que é a obrigação.” Suspirou, olhou pela janela do carro, desencostou do banco, “mas como que se vive aqui todos os dias? O que lhe faz gostar daqui? Não pensa em se mudar do interior?”

            “Às vezes, sim. Já fiz uns planos de distribuir uns currículos em outras cidades, lugares grandes, para ampliar minha experiência profissional, ou avançar nos estudos”, ele desacelerou o carro para uma lombada e aproveitou para olhar em volta pelos vidros do carro, “eu tenho uma história aqui, um trabalho, uma missão na escola, as crianças daqui precisam entender a cidade em que vivem, aprender a valorizar os recursos naturais que temos, se orgulharem de serem cidadãos.”

            Ele dirigiu em silêncio até a pousada, ela pensava sobre como era ter raízes em algum lugar por razões com significados que excedessem o que era prático e lucrativo. Não é como se aquela reflexão fosse fazê-la mudar os planos de vida, mas quem sabe aquele final de semana se tornasse relevante por trazer novas perspectivas; ou para incluir uma nova pessoa em sua mente. Foi quando ele parou o carro em frente à entrada que ela sentiu a mão dele em seu braço.

            “Acho que você já pode descer agora, seus pais já ligaram, eu tenho outro cliente… e você nem parecia estar muito inserida no seu próprio passeio.”

            Ela acordou do transe, “ah, meu deus”, eles riram juntos. Ela, sem graça, fez com que os olhos dele encontrassem novamente os seus, “obrigada por hoje.”

            O sorriso retribuído fez seu coração acelerar um pouco, desceu do carro medindo a distância de cada passo, com medo de tropeçar. Foi interrompida.

            “Ei, se precisar de mais alguma corrida hoje, só mandar mensagem.”

            Entrou no quarto, bateu a porta atrás de si e escorregou para até o chão. O que estava acontecendo? Seria uma péssima ideia contar para suas amigas que estava gamada no motorista que conheceu na viagem? Não resistiu e, após mover-se para a varanda, mandou um áudio contando de seus flertes com o Tales. Assim que terminou sua narrativa, seus pais abriram a porta do quarto avisando-a para se aprontar em vinte minutos para irem jantar.

            Colocou um vestido simples, seu preto básico, apenas por hábito. Chegaram a um restaurante chique, como a maioria do Capivari, onde encontraram outro casal amigo de seus pais. Não demorou muito para ficar entediada, já que terminou de comer em trinta minutos e ainda via muitas carnes chegarem à mesa. Enquanto os mais adultos riam e se engorduravam, Heloísa mexia no celular quando recebeu uma mensagem que dizia “olhe para a frente”. Era o Tales, em pé a poucos metros do restaurante. Ela sorriu, ele acenou e o olhar dela era um “por favor, me salve”.           Tales veio para a mesa, cumprimentou os pais, o outro casal.

            “Eu vim acompanhar um cliente a um restaurante ali na outra rua. Estou livre agora e pensando em comer algo. Posso levar a Heloísa comigo?”

            “Mas é claro!”, os pais disseram, “não é como se ela estivesse interagindo conosco de qualquer maneira. Vamos a um bar para uns drinques depois, então deixe-a no hotel”, a filha lançou ao pai um olhar de estranhamento, “ou… como ela quiser.”

            “Obrigada, pai, mãe!”, deu um beijo nos dois, despediu-se dos demais e saiu.

            Andavam a passos largos, ele contando do seu dia desde quando a deixou.

            “Cadê o carro?”, ela o interrompeu.

            “Vamos a pé, eu deixei o carro no bistrô para onde estamos indo.”

            Apesar de alguns protestos dela, seguiram a caminhada. Após uns dez minutos, ela já o havia deixado falando sozinho enquanto cruzava seus braços de frio e olhava ao seu redor um pouco assustada. “Não é perigoso andarmos aqui nesse escuro?”

            “Você interrompe assim sempre? Mas, não, aqui é tranquilo, algumas lâmpadas estão queimadas, apenas. Está com frio?”

            “Não, só gosto de andar encolhida mesmo. Ok, desculpa, sim estou um pouco.”

            Ele passou o braço ao redor dela, “posso tentar ajudar?”

            Ela corou, o que ele não viu graças ao escuro. “Sim, eu agradeço.”

            Andaram abraçados até chegarem ao destino. Comeram, conversaram, riram. Ao final da noite, ele a levava de volta à pousada. Preocupou-se, no entanto, com algo:

            “Você estava toda falante lá no bistrô, de repente está tão calada. Tudo bem? Em que está pensando?”, estavam a um quilômetro do local.

            Ela não poderia responder a verdade, que pensava em como ele era interessante, bonito, divertido e sua companhia estava a fazendo sorrir mais que o normal. “Apenas pensando que o fim de semana passou muito rápido e já vou embora amanhã à tarde. Mesmo assim, obrigada, sem você não teria aproveitado nada.”

            Por essa resposta ele não esperava. Engoliu seco. Pensava em quanto conversaram naquela noite, no que descobriu sobre ela, agora gostava dela. Colocou a mão no queixo e a observava, olhando-a furtivamente, desejava pegar sua mão. Chegando à pousada, ficaram ambos em silêncio por meio minuto, que pareceu durar uns cinco, até que ele disse “que tal amanhã eu te levar para o Jardim Amantikir?”

            “Pode ser”, ela respondeu num sorriso tímido, torcendo para que ele não ouvisse seu coração palpitando. “Mas eu quero dormir, te ligo amanhã para combinar o horário, ok?”. Ele apenas assentiu com a cabeça. “Eu vou… então”.

            “Até amanhã!”, e se inclinou para beijá-la no rosto.

            Heloísa foi para o quarto sentindo aquela leve náusea causada pelo pequeno nervosismo de estar em volta de quem se gosta. Mandou uma mensagem para os pais avisando-os que chegou bem e foi dormir. Acordou assustada com uma ligação de sua mãe dizendo que, novamente na companhia do casal amigo, iriam visitar a cervejaria artesanal Baden Baden; prevendo o desgosto da filha, sugeriu um passeio com seu novo amigo, ao que a garota pretendeu responder com a maior casualidade possível.

            Era por volta das 9h30 quando saíram em direção ao jardim. Ao longo do caminho, Tales lhe explicava diversas curiosidades sobre Campos do Jordão e explicava o trajeto, a vegetação que admiravam, mas nada se comparava com as deslumbrantes vistas que teve no parque.

            “Terminamos a visita? Olha, aprendi demais com você, espero conseguir lembrar-me de tudo quando eu vir as fotos e mostrar para os outros.”

            “Ah, não se faça, você sabe que vai apenas postar as fotos com uma legenda para impressionar e vai ficar por isso mesmo. Ninguém se importa em entender bem as imagens mais, nem quem posta, nem quem curte.”

            “Certo. Não precisava estragar meu momento, estava lhe elogiando.”

            “Obrigado”, riu com ar vitorioso. “Mas temos mais um ponto nesse jardim e nesse faço questão que você vá – o labirinto. Pretendo não ajudar muito.”

            À medida que andavam, ele deixava-a seguir em frente e ria de suas frustrações ao notar que estava errada. Tales esgueirou-se para a curva anterior enquanto via Heloísa fingir fazer algum cálculo geométrico para sair dali. Ao perceber que estava só, sentiu pânico por três segundos e virou-se para todas as direções assustada.

            “Tales! Eu vou te matar!”, voltava de costas naquela linha, “eu nem sei lidar com plantas, muito menos me guiar por elas e…”, foi puxada pelo braço para o canto da linha de trás e encontrou-se de frente para seu companheiro.

            Os olhares se travaram, ele ainda a segurava com força no braço, o coração dela acelerado. A mão dele esgueirou-se do braço para suas costas e ele pretendia dizer algo sobre estar tudo bem e que ela se acalmasse, mas ao notar aquele par de olhos desafiantes e os lábios entreabertos inclinou-se em sua direção, com as duas mãos na sua cintura, e a beijou. De tão fora de si que se sentiam, encontraram-se em suas auras expandidas pelo ambiente, onde o tempo para e o espaço encapsula os envolvidos numa sensação louca de coisa certa a se fazer.

            O que se passa após um beijo honesto – a instabilidade dos corações, as mentes a anos-luz, as palavras trocadas sem sentido algum – isso tudo não se conta, é segredo e ridículo, compete apenas a quem viveu. O que vale saber é que terminaram o passeio sorridentes e de mãos dadas, ela retornou aos seus pais e Tales levou todos até a rodoviária. Ali caíram uns fragmentos de dois corações apertados que se encostaram num forte abraço, mas foram sufocados por olhares de cumplicidade, disfarçando até a mais forte vontade de se manifestar. Voltava para São Paulo uma Heloísa diferente, mais leve, e ficava em Campos do Jordão um Tales inquieto, questionando a origem de seus impulsos tão desconhecidos à sua timidez. Seguiam todos normalmente suas vidas na segunda-feira, após o estranho vácuo chamado domingo à noite.

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Insensato Coração

Insensato coração,

Perde-se no passado

Olhando por frestas e fechaduras

De um futuro que não houve.

 

Insensato coração,

Ainda sorri e suspira

Por antigos beijos e abraços,

Cartas e pedidos de perdão.

 

Insensato coração,

Sem agarrar-se a nada

Quer ter tudo ao mesmo tempo

E, cansado, acaba só.

 

Ah, insensato coração,

Acredita demais em si,

Acalma-se e silencia-se

Ansioso e impaciente por viver.

Do que se aprende no tempo

Há beleza na vida ao compreender

O que é que se deixa passar

E o que se leva adiante.

 

Na diversidade do que cada um passa

Desenvolvemos nossas forças

E encontramos empatia.

 

Do perdão que oferecemos ao que recebemos

Há relações a serem reconstruídas

E outras a serem silenciadas.

 

Adquirimos com o tempo grande intuição

Sobre quando é hora de fugir

E quando se entregar.

 

Perde-se muito de nós no que escondemos

Desgastando-nos pelo medo

De sermos sinceros com a vida.

Intersecções temáticas

            “Vivemos hoje sob o governo da velocidade”, é a frase que eu já havia cansado de escrever, citando o pensador atual Eugênio Trivinho. Parecia caber perfeitamente enquanto eu visualizava o que seria o dia que eu estava prestes a encarar após a curta noite de sono que eu teria. Eu tinha metas, chegar a São Paulo, apresentar um artigo num congresso na USP, ir para o aeroporto de Guarulhos pegar o voo para Porto Alegre, embarcando numa missão madrinha de um de meus amigos mais próximos. Todo esse trajeto ocuparia 20h daquele 15 de dezembro. “Devemos estar prontos para sermos refinados, evoluídos, modificados – mesmo que isso signifique a própria perda de contato com o que consideramos como “humano” atualmente”, eu relia repetidamente as quotes chave do resumo expandido que eu deveria apresentar amanhã, sem a companhia da amiga com quem escrevi o artigo em perfeita sincronia.

            Não me lembro como foi que dormi, apenas sei que acordei bem cedo, como não estava acostumada há bastante tempo. Estava no carro enquanto minha mãe me levava para a rodoviária para alcançar o horário mais cedo de ônibus para São Paulo. A primeira reviravolta indicou que o dia tinha potencial para ser inesperado. Enquanto andava pela estrada que chegava à cidade, visualizei um carro conhecido que seguia o mesmo caminho e, por uma luz, suspeitei que ele estivesse indo para o mesmo destino que eu. Toda a família estava no carro e eles, de fato, me deram carona, deixando-me à frente da ponte que liga o início da marginal para o terminal rodoviário Tietê. “Quarenta e cinco reais economizados… vou comer em paz!”

            Entrei no metrô e dispus-me a correr tanto quanto pude, notando que as chances de chegar pontualmente eram remotas. Faltava um trecho que seria possível somente de ônibus, dado o trânsito e a pressa, optei por pegar um Uber. Oito minutos para o horário da minha apresentação e eu sequer havia encontrado o prédio correto. Para minha surpresa, porém, ao entrar finalmente no saguão, encontrei meu antigo orientador, o professor Paulo, ali mesmo e descobri que eu havia errado por meia hora o horário do meu painel temático. O alívio tomou conta de mim. A apresentação correu bem, embora eu tenha optado, parcialmente por covardia da discussão, por não expor totalmente minha perspectiva filosófica. Estava circundada por gente que achava inútil a pergunta pelo que é o humano e empolgados com o pós-humanismo. Que decepção. O moderador do painel merecia destaque, jovem e bonito.

            Almocei com o Paulo, uma conversa agradável, e depois tomamos nossos rumos separados. Eu estava fazendo hora, contemplando todo o movimento ao redor, procurei o café de cortesia – que evento de humanas não tem café grátis? Frustrada, encontrei outra distração: um estande da editora Paulus, um dos meus pontos fracos. Naveguei pelos títulos, desejei vários deles, quando de repente pensei que deveria conferir meus horários e notei que havia calculado tudo bastante mal. O gasto de dinheiro e de tempo eram altos de onde eu estava. Droga. Larguei tudo e apenas fui.

            Novamente, saí correndo para pegar um ônibus, entrei no metrô e desci na Avenida Paulista – infelizmente, numa altura oposta àquela em que eu deveria estar para pegar a linha fretada que chegaria ao aeroporto de Guarulhos. A peregrinação começou e imediatamente notei que eu não estava usando os calçados mais apropriados para uma longa caminhada. À medida que andava, me perdi com a diversidade dos problemas que podem ser confrontados num perímetro tão curto. A avenida parecia um painel pós-moderno, o encontro de todos e quaisquer discursos, gritando, a espera de não serem apenas ruído, redundância.

            Em meio à tentativa de manter o foco, minha mente perdia partes de si em cada esquina. Um mendigo abraçado a um cachorro grande portando uma placa pedindo dinheiro para ambos. Uma parada de resistência à ideologia de gênero por um grupo radical tradicional (aka MBL). Voluntários da Abring pedindo apoio com apenas uma curtida no Facebook. Como seria possível de fato apoiar uma ONG apenas num clique de uma rede social? Enquanto eu ouvia o discurso, duas outras garotas também representando a Abring elogiaram meu cabelo e perguntaram se eu era cabeleireira, tão bem feito lhes pareceu minha coloração. Claramente não viram as mechas inferiores, com falhas e marcas na tinta.

            Passei mais um quarteirão e eis que um Hare Krishna tentou me vender livros de sua filosofia religiosa e até me convidou para conhecer o templo. Eu estava andando há vinte minutos, debaixo de um sol quente, vestindo uma camisa social, calça jeans e uma sapatilha que já arrancava a pele do meu calcanhar. Na verdade havia me perdido nos quarteirões e frustrada por não ter conseguido ainda entrar em um Starbucks.

            Aproximando-me do meu ponto, percebi que os hotéis eram refinados o suficiente para eu nem pensar em pisar no lobby. Pedi informação fingindo sotaque estrangeiro à espera de misericórdia. Finalmente, encontrei o local onde o ônibus passaria e em poucos minutos embarquei rumo ao aeroporto. Chegando lá, passei tempo ignorando minha fome, esperando um tempo mais oportuno para evitar gastos posteriores, já que eu havia chegado com pelo menos 4 horas de antecedência. Para quem corria atrasada, definitivamente cálculos não são meu ponto forte. Iludi-me com o que parecia ser Yakisoba de cogumelos, na verdade era apenas shimeji refogado.

            Após 3 horas andando à toa, um café no Starbucks e infinitos cálculos para comprar um chocolate bom do qual eu desisti, mal acreditei quando enfim cruzei a sala de embarque. Já passava a hora do pôr-do-sol. Exausta e reflexiva, sentei ao lado da enorme fila para o vôo que já se atrasava em mais de uma hora. Meu amigo ia casar. Eu sequer conhecia sua noiva, mas não importava diante do quanto ele me contava dela. Todas as vivências do dia passavam como flashes em minha mente; eu ia me derramar em lágrimas; “quero minha mãe”, eu pensei.

            Para ignorar o presente vazio existencial (aka fome) e ocupar minha mente com outras coisas que não me fizessem chorar, pensava em todos os diferentes grupos de pessoas que encontrei, os diversos objetivos, maneiras de viver, necessidades, polos e forças opostas. Lá estava a lágrima prestes a escorrer novamente. Lembrei-me de um antigo medo: voar, principalmente viajando sozinha. Não fazia mais parte de mim, ou eu estava cansada demais para me importar. Havia tantas incertezas em minha mente, caixas de crises que eu me recusava a abrir naquele momento. Como toda pessoa da presente era virtual, eu pensava em tudo isso enquanto mexia no meu smartphone. Especificamente, eu estava limpando o bloco de notas.

            Deparei-me com uma mensagem salva. Notei que ainda não tinha pensado nele naquele dia. Estaria esse sentimento tomando espaço como fuga da exaustão mental? Durante as últimas duas semanas pretendia contar ao Kaike como eu me sentia. Nunca é fácil dizer a alguém “eu gosto de você”. Como não encontrei um bom momento para fazê-lo havia decidido deixar para lá, mas não resisti e escrevi uma mensagem seguindo minha intuição de “ele precisa saber”. Ridículo, é claro.

            Porém, sentada ali, prestes a voar, o ano de 2017 terminando, as férias por começar, após um dia totalmente maluco, não parecia haver muito a perder. Não sei se foi um pensamento romanceado sobre o que poderia dar errado naquela viagem, ou se estava comovida pela minha participação no casamento. Selecionei o texto, copiei, abri o WhatsApp, a conversa dele, colei o texto. Apaguei. Repeti o processo duas ou três vezes, até que apertei a tecla de envio de uma vez por todas e decidi não esperar por uma resposta.

            Foi anunciado o início do embarque na aeronave, a fila começou a andar. Reli a mensagem mais umas vezes, ele não estava online. Por que é que ele precisava saber? O que eu esperava que ele fizesse. “Tonta”, pensei, “agora já foi”. Aquela mensagem era a última coisa a ser resolvida do acúmulo de interjeições nas minhas amizades ao longo do ano. Não que causasse algum impacto social, era somente para mim mesmo. Retomando o foco no propósito matrimonial do fim de semana, apenas me preocupei em entrar no avião e torcer por haver algo além de água no serviço de bordo da TAM. Passei a viagem fazendo uma lista dos fatos que compuseram esse dia.

            Em menos de duas horas já estava em solo gaúcho. Tirei o celular do modo avião, encontrei meu povo e estava a caminho da casa da noiva – ela falando todo o itinerário até domingo, minhas responsabilidades e funções; eu pensando no que ela teria à disposição na geladeira de sua casa. Liguei a tela do celular e estremeci, a tão temida resposta. Pensei em apagar a conversa sem ler a resposta, talvez fosse mais cômodo apenas saber que mandei a mensagem e nunca saber o feedback, manter a ilusão da possibilidade, da abertura. “A origem etimológica de commodity está na palavra commodus: ‘adequado, em forma, conveniente, cômodo, fácil, apropriado, favorável, amigável’ – o texto do congresso ainda circulando em minha mente.

            A quem eu estava querendo enganar? Óbvio que eu não aguentaria de curiosidade. “Você me pegou desprevenido. Nem sei o que te responder agora. Posso lhe retornar depois? Não quero que você pense que estou lhe ignorando.” Ah sim, agora precisamos nos prevenir contra os sentimentos. “Não se preocupe, responda se quiser, está tudo bem”, eu devolvi. Poucos minutos depois, meu celular se colocou em estado de coma e fui obrigada emergir do virtual, encarando apenas a tela preta que esboçava indefinidamente minha feição de preocupada com os preparativos daquele casamento. Foi um domingo incrível. Retornei para São Paulo na segunda e a vida seguiu. Mal sabia eu que aquela mensagem voltaria a me perseguir quando nem me lembrava mais dela.

Caro colega

A sua ausência é extremamente incômoda,
A indiferença atingida por você me assusta,
O descarte do seu discurso me machuca,
O laço desatado entre nós atou-me.

A pessoa que conheci em você se perdeu,
A sua face que agora vejo me desconhece,
O bem que você me fez ficou em outra era,
O sumiço fez parecer que nunca existiu.

Agora eu lhe discurso sem que você ouça,
Onde sei que também não me encontrará.
Acomodo as palavras para fora de mim,

Orientando-as a deixarem rastros,
Até que desvaneçam sem resposta,
Obrigadas a retraírem-se no esquecimento.

Corpos desalmados

Abaixo o platonismo,
Que dividiu mente e corpo,
Pois eis que somos uma coisa só.
Porém a palavra “alma”
Carrega em si uma aura
Que representa, vez ou outra,
Aquela essência do ser,
O que nos torna humanos.
Aí que vem a técnica,
Perfeita e funcional,
Nos encanta a mente,
Brilha os olhos cansados,
No reflexo de uma tela.
E com os olhares fixos,
Ficamos o carcaço,
Corpos desalmados.

Foi tudo culpa de um sonho

            O shopping center estava bastante movimentado. Escondida no vão de um corredor estava uma garota. Carregava em seu bolso um pequeno papel com palavras-chave das quais deveria se lembrar para finalizar um caso que estava investigando. A lógica diria que ela era jovem demais para isso. Ao que tudo indicava, uma menina sofria de abuso emocional e físico por parte de seu pai e mais dois irmãos brutos.

            Os três homens desnecessariamente másculos também circulavam pelo edifício capitalista de quatro andares como pessoas normais em busca da garota que se escondia com algumas provas do que estava acontecendo. Em algum canto do lugar também estava a menina, que havia procurado por ela para lhe ajudar por indicação de uma outra amiga. O problema é que a suposta detetive não conseguia descobrir o motivo da mais recente explosão de fúria e buscava seguir os passos da menina para chegar a alguma evidência, uma vez que esta se recusava a se pronunciar.

            Ao final daquele corredor havia um sanitário feminino, o último local em que a vítima havia estado. Entrou discretamente pela porta única. Trancou-a, fitou o lixo e revirou-o. Um teste de gravidez – ela deveria estar desconfiada e causou um transtorno em sua família machista que provavelmente se envergonharia de uma jovem filha grávida sem sequer ter um namorado.

            Naquele momento, a porta, violentamente golpeada, se abriu e lá estavam os três brutamontes, prontos para encurralar a nada profissional scherlock. Ela estendeu a mão com o teste envolto num papel higiênico: negativo. Os três suspiraram aliviados. Três nomes foram anunciados no auto-falante do shopping e os homens com olhar de pânico decidiram atender ao chamado, já imaginando que a filha conseguira chamar a polícia.

            Acabou o drama. Quem sabe devesse seguir uma carreira de investigadora, delegada, ou advogada. O caso não estava mais em suas mãos, o que era de fato um alívio. O que diabos estava fazendo se metendo em tal enrascada?! Uma temporada toda de Jessica Jones em uma semana definitivamente não lhe fez bem.

            Mas o cenário já era outro. Passado o estresse da resolução de um caso que nada lhe competia, agora a garota era vista encostada na parede do shopping abraçada por um garoto pouco mais alto que ela. Os olhos de um estão fixados nos do outro, hesitantes. Os dois se beijam – tensos, finalmente, apaixonados. São longos os beijos subsequentes e várias pessoas reparam no belo casal que nem se importava com a publicidade do local.

            De um sobressalto, ela sentou na cama. Tudo foi um sonho. Passado o susto, ela riu loucamente. Detetive… logo ela, tão medrosa. Realmente, péssimo negócio a escolha do seriado. Mas os risos voltaram com força ao se lembrar que ao final ela estava beijando um de seus melhores amigos. “Nada a ver, nada a ver”, repetia para si mesma. Compartilhou o fato com sua amiga companheira de apartamento, elas riram juntas. Porém, lá no fundo, alguma coisa daquele sonho havia ficado. Aquele beijo… ela sentiu aquele beijo fora do sonho. Não fazia sentido algum, mas foi bom. Bastante bom. Parecia simplesmente certo. Quer saber? Fazia sentido sim.

            Naquela tarde, encontrou o tal amigo para tomar um café. Contou-lhe o sonho omitindo a parte que lhe cabia.  Enquanto olhava convenientemente em seus olhos lembrava da loucura que era essa ideia. Como parte da rotina, se encontravam frequentemente e ela acostumada com aquela sensação insossa. Passaram-se meses, mudaram as estações, e o sonho era uma lembrança escondida atrás das cortinas da mente, mas engolia seco cada vez que as mãos se encostavam. Poucos dias depois era seu aniversário. Ele lhe deu um pequeno caderno roxo e ela achou justo que fosse como um livro em branco.

            Logo ele estava namorando uma outra garota. Ela também namorou outro garoto. Ela se mudou de cidade. Mudou de estado. De país. Continente. Foi muito feliz, conheceu 58 países, aprendeu 17 línguas, concluiu estudos avançados, ganhou prêmios pelos seus trabalhos. Em noites esparsas ela tinha outros sonhos bizarros, havia várias outras cenas finais indiferentes ao referido contexto.

            Cinco anos haviam se passado quando ela retornou à casa dos pais. Filha única que era, encontrou seu quarto exatamente como estava quando o deixou, exceto por uma grande cesta de doces dada como boas-vindas. Ouviu- se batidas na porta da casa. Desceu as escadas apressadamente. Abrindo a porta, contudo, foi surpreendida por uma ilustre presença. E o sonho, por tanto tempo reservado ao imaginário, lhe voltou à tona enquanto seu rosto corava. As palavras se desfizeram quando seu coração foi eletrocutado pelo choque de ver ali seu antigo melhor amigo por quem um dia se apaixonara. Ele lhe interrompeu os devaneios: “tomar um café?”, ao que ela respondeu “claro!”, e assim foram.

Prólogo – a história

“Decidi contar tudo não por que eu pensasse que ia ganhar alguma coisa contando da minha vida para você, Bruno. Mas porque eu penso que boas histórias não podem ser perdidas.”

Outro dia eu conversava com uma amiga sobre ter histórias legais de conquista, romance e coisas do gênero para contar. Muitos me chamam de louca por querer achar que essa história foi boa, afinal, ela foi motivo de muitos suspiros, lágrimas, dramas, desabafos, confusões e de profundos arrependimentos. Mas também foi a causa de eu repensar muitas coisas sobre relacionamentos, comportamentos e ideologias que já tive, e me fez sorrir e rir muito também, me emocionar, suspirar por motivos bons.

Eu enrolei até agora e não contei a história.

“Vamos lá, Bruno, eu estou com calor e ficar aqui debaixo deste coqueiro não vai ajudar muito.”

“Quer aproveitar aquela piscina ali para o meio? Não tem ninguém lá. Danilo, dê seu aval”, com seu tom peculiar de ordem e impaciência cômico.

“Hum, não sei, água me relaxa e me distrai, acho que vou demorar ainda mais para contar a história. Você já sabe que ela é longa”, eu disse.

“Mas o lugar parece tão atraente…”, Danilo olhando para o horizonte como se nunca tivesse visto uma praia.

“Ai, já te disse que você é complicada? Eu to é morto de curiosidade e querendo matar esse canalha!”

“Sem escândalos, por favor, guarde-os para a história, você vai precisar, prometo”, só que na verdade eu estava mesmo querendo enrolar.

O Bruno já tinha me pedido para contar tantas vezes sobre meu último romance, mas nossa amizade se deu quando tudo estava no fim, então eu não me sentia encorajada a contar tudo. O Danilo acompanhou cada passo. Agora que ambos são meus confidentes, decidi fazer o Bruno de divã e o Dan acompanhará por pura graça. Estamos calmamente aproveitando um solzinho em Aruba, após uns três anos de economias para essa viagem.

“Ali naquele quiosque tem sorvetes de sabores naturais da fruta, acho que estou com vontade, sentemos ali saboreando e apreciando a vista”

Oui oui, madam, você que manda!” Danilo, eu, e nosso mísero francês.

Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.