Prólogo – a história

“Decidi contar tudo não por que eu pensasse que ia ganhar alguma coisa contando da minha vida para você, Bruno. Mas porque eu penso que boas histórias não podem ser perdidas.”

Outro dia eu conversava com uma amiga sobre ter histórias legais de conquista, romance e coisas do gênero para contar. Muitos me chamam de louca por querer achar que essa história foi boa, afinal, ela foi motivo de muitos suspiros, lágrimas, dramas, desabafos, confusões e de profundos arrependimentos. Mas também foi a causa de eu repensar muitas coisas sobre relacionamentos, comportamentos e ideologias que já tive, e me fez sorrir e rir muito também, me emocionar, suspirar por motivos bons.

Eu enrolei até agora e não contei a história.

“Vamos lá, Bruno, eu estou com calor e ficar aqui debaixo deste coqueiro não vai ajudar muito.”

“Quer aproveitar aquela piscina ali para o meio? Não tem ninguém lá. Danilo, dê seu aval”, com seu tom peculiar de ordem e impaciência cômico.

“Hum, não sei, água me relaxa e me distrai, acho que vou demorar ainda mais para contar a história. Você já sabe que ela é longa”, eu disse.

“Mas o lugar parece tão atraente…”, Danilo olhando para o horizonte como se nunca tivesse visto uma praia.

“Ai, já te disse que você é complicada? Eu to é morto de curiosidade e querendo matar esse canalha!”

“Sem escândalos, por favor, guarde-os para a história, você vai precisar, prometo”, só que na verdade eu estava mesmo querendo enrolar.

O Bruno já tinha me pedido para contar tantas vezes sobre meu último romance, mas nossa amizade se deu quando tudo estava no fim, então eu não me sentia encorajada a contar tudo. O Danilo acompanhou cada passo. Agora que ambos são meus confidentes, decidi fazer o Bruno de divã e o Dan acompanhará por pura graça. Estamos calmamente aproveitando um solzinho em Aruba, após uns três anos de economias para essa viagem.

“Ali naquele quiosque tem sorvetes de sabores naturais da fruta, acho que estou com vontade, sentemos ali saboreando e apreciando a vista”

Oui oui, madam, você que manda!” Danilo, eu, e nosso mísero francês.

Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.

Amores instantâneos

Os maiores amores se travam
Na primeira troca de olhares,
No primeiro abraço,
Na primeira conversa longa,
No primeiro sorriso tímido,
No primeiro riso sincero.

Aos maiores amores
Preferem chamar de paixão,
Porque quando é amor
Sentem a obrigação de agir,
Quando na verdade o amor é
A libertação do coração do ser
Esperando encontrar aquele
Outro ser aberto para se unir.

Dèja vu

Eis que estava num ônibus comum,
De um caminho quase constante,
Na vista que tantas vezes olhei.

Sentei do lado oposto ao de sempre,
Olhei para o meu antigo banco,
Lembrei de uma vez inusitada.

Aquele dia em que descobri que
As surpresas não se superam
Pelas rotas combinadas.

Quando o encontro é inesperado,
Algumas coisas se tornam obrigatórias,
E não importa se fazem sentido.

Como crianças

Sejam como crianças, disse.
E me faz pensar no que nos tornamos,
Em quanto mudamos no tempo
Pelas marcas que carregamos
Dos erros cometidos,
Dos traumas sofridos.

Éramos tão jovens –
Quando tínhamos coragem
De dizer tudo o que pensávamos,
Quando contávamos nossos segredos,
Quando tudo parecia compartilhável
E não tínhamos medo de ninguém.

Hoje – olhe para nós –
Cometemos erros que sempre julgamos,
Escondemos tudo que pensamos,
Fugimos de nossos próprios sentimentos,
Cogitamos na mentira e na omissão,
Nos tornamos os demônios que temíamos.