Carta aberta às amigas

Querido diário,

            Hoje eu venho agradecer pelas pessoas que realmente importam, que se importam, com quem encontro reciprocidade. Sei que isso é egoísta e anti-bíblico, mas eu estou aqui para prestar uma sincera homenagem para as pessoas que perdem seu tempo, gastam energia, riem e choram comigo. Eu não quero escrever o nome de ninguém aqui, porque se lerem isso é mais uma prova de que de fato se importam e vão saber que é delas mesmas que estou falando. Não há nada melhor do que o segredo não falado que é compreendido. Do que a mensagem recebida subentendida sem dar sinal nem alarde.

            Primeiramente preciso dizer que não menosprezo em hipótese alguma minhas amizades masculinas. Aliás, há alguns em específico que literalmente viraram noites ao telefone comigo para garantir que eu ficaria bem quando não conseguia dormir. De outros surgem chocolates quando estou de TPM, até aprendem a identificar esse meu estado. São capazes de me ouvir nos papos de menina, sabem elogiar como convém. Dão-me força de extrema importância. Não consigo compreender, muitas vezes, de onde tiram tanta paciência, sendo eles tão diferentes (ou creem eles assim).Porém, queria agradecer em especial às amigas. As mulheres têm poderes especiais quando usados para o bem.

            A verdade é que nunca encontro palavras ou gestos suficientes para agradecer pelo que elas fazem por mim. Por deixarem de fazer suas coisas para passar tempo comigo e me permitir chorar no ombro delas. Por marcarem encontros caseiros para me oferecer carinho e distrações. Por me alimentarem de coisas de sustância e de coisas altamente açucaradas. Pelo café levado nas manhãs de noites curtas. Por dividirem embalagens industrializadas pequenas. Por me doarem remédios de cólica e antialérgico. Por prestarem atenções médicas quando eu acho que vou morrer. Por ouvirem de novo a mesma história. Por escutarem áudios grandes que variam de viagens intelectuais, desabafos sobre a rotina, ou dramas sentimentais. Por empatizarem com o ranço e as mágoas. Por se tornarem agentes secretas e infiltradas.

            Muito além de pensar que unidas somos mais fortes é entender que passamos igual ou analogamente pelas mesmas coisas e que, talvez mais ainda que as qualidades, nossos problemas e feridas é que nos tornam iguais. Nesse encontro das almas cansadas – de lutar contra tudo, contra a sociedade doente, lógicas econômicas irracionais, os homens, os levantes, os mal entendidos, os desencantos com a vida, contra nós mesmas – encontramos uma na outra a força que nos falta, ou ao menos unimos os vazios na esperança de saber que não estamos sozinhas.

            Para cada uma destas pessoas que ajudaram na construção de uma versão melhor de mim, que partilham da espiritualidade, que doaram de si algo que talvez nem tivessem, eu retribuirei sempre que for preciso ou desejado.

            Com carinho para todas aquelas (e aqueles) que sabem fazer parte de mim, ou que encontram em si um toque meu,

            Eu.

Anúncios

Posfácio

            Entrei na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Eu deveria ter o hábito da leitura mais desenvolvido, mas a verdade é que o trabalho empresarial ocupa muito tempo. Lidar com números o dia todo é fatigante para a mente. Por isso, dedico minhas horas vagas à prática de exercício físico e algumas meditações. Eventualmente ganho como presente um desses livros sobre gerenciar negócios, ter mais poder, tornar-se um milionário. Imaginam que essas seriam leituras úteis para um jovem de 27 anos que ingressou há pouco tempo no mercado de trabalho. Não os condeno, apenas acho uma leitura insossa, dirigida a pessoas de ambição mal direcionada; leio por respeito a quem teve o trabalho de gastar tal dinheiro por mim.

            Porém, numa tarde de quarta-feira meu chefe me dispensou por volta das 15h e fui andar pela avenida, já que estava lá mesmo. Entrei na galeria apenas para pegar um café, quando avistei a livraria e pensei “porque é que as pessoas gostam tanto deste lugar?!”, mas por algum impulso decidi entrar. Comecei pela sessão de livros em branco, coisas que se tornam úteis para a produtividade – os molesquines, cadernetas, blocos de notas. Darei um para minha namorada, pensei, ela gosta destas coisas.

            Notei um alvoroço numa ala da livraria, um amontoado de gente: maioria mulheres, de 17-35 anos, classe B talvez definiria uma média ali. Perguntei a um vendedor o que se passava, ele me disse que se tratava do lançamento de um livro.

            “A autora é famosa?”, perguntei.

            “É bem jovem ainda, acho que sua primeira obra escrita no gênero, mas parece que era blogueira e acabou conseguindo um público interessante. Ela deu uma entrevista para um jornal e para a TV num dia desses, trabalha para a editora Abril.”

            “Sim, entendi. Pelo alvoroço feminino, suponho que seja um romance, certo?”

            “É sim, no sentido literal, não como gênero. Ela costumava ser da escrita acadêmica, migrou recentemente para as narrativas pelo que ouvi dizer.”

            “Obrigado!”, eu disse, pretendendo dispensar o moço que parecia bem empolgado para trabalhar me dando um relatório mais completo do que eu esperava.

            Dirigi-me com ar desconfiado e debochado para o ajuntamento. Achava extremamente imaturo esse comportamento das garotas em cima de um romance, não poderia imaginar algo relevante nessas leituras. Sempre agradeci que a Fabiana não é como elas, senão muito provavelmente não conseguiria namorá-la.

            A autora autografava alguns livros e conversava com as pessoas, parecia realmente muito simpática. Ao me aproximar mais notei que também era bem bonita. “Não é à toa que conseguiu esses empregos, entrevistas, fama”. Não era uma beleza espetacular, era um ar curiosamente cativante. Pele levemente morena, longos cabelos castanhos presos num rabo de cavalo caído. Vestida bem simples, uma camiseta preta com jeans claro. “Na verdade ela até parece uma moça bem comum”. Julguei pela aparência que ela tinha por volta da minha idade. Não usava aliança. “Solteira aos 20 e tantos, escrevendo um romance”, eu ria sozinho.

            Enviei um áudio pelo WhatsApp para minha namorada contando da minha empreitada de tentar entender o alvoroço deste público do qual eu agradecia ela não fazer parte. Vesti uma nova expressão facial, fingindo real interesse no evento. Entrei no aglomerado, peguei um exemplar da pilha de livros e tentei olhar nos olhos da jovem autora, pretendia cumprimentá-la e fazer questionamentos objetivos sobre sua obra, mas ela parecia bem atenta ao desabafo de uma menina que aparentava ter seus 17 anos e ter se identificado com a história fictícia presente nas 280 páginas.

            Percebi que eu precisaria aguardar um pouco para ser atendido, então decidi folhear o livro e ver se pelo menos se tratava de uma boa escrita. Abri em páginas avulsas, escolhendo parágrafos soltos – as ideias me pareciam coesas, de repente eu até seguia adiante, algumas ironias embora bobas me fizeram rir, outras frases me pareceram bem filosóficas. “Que combinação estranha”, pensei, “mas parece que deu certo”. Foi quando consegui finalmente ouvir sua voz e tentei aplicá-la àquelas palavras escritas – e eu senti um arrepio. Olhei para ela novamente.

            Havia algo familiar naqueles gestos, no jeito de balançar a cabeça e os ombros, no seu sorriso, mas eu não conseguia ver bem seus olhos. Eu a conhecia. Ocorreu-me que eu não havia olhado o seu nome na capa do livro, nem perguntado ao funcionário-informante. Mirella Cortês. Por Deus! Não era possível! Minha respiração até parou por uns quatro segundos. Eu tive uma espécie de relacionamento com essa garota, anos atrás. Quanto tempo? Eu não conseguia me lembrar ao certo, cinco ou seis anos.

            Meio atordoado, sentei num pufe que encontrei por ali e tentei ler por alto mais páginas do livro. Ela sempre gostou de escrever, é verdade, bem que me lembrava dela ter cursado Jornalismo, eu nunca tive muita paciência de ouvi-la falar sobre seus estudos e trabalho, na verdade. Não imaginaria que ela estivesse no Brasil ainda; uma pena, alguém que não aproveitou seu potencial para crescer tanto.

            Voltei ao livro, apenas para perder ainda mais o fôlego. Algumas impressões daquela história me pareciam familiares. Mas que viagem! Aquela era a nossa história. Ela escreveu um livro para contar o que aconteceu entre nós dois?! Que loucura é essa, fui vendido, descrito certamente como um decrépito garoto que acabou com sua vida amorosa e a levou a dar a volta por cima. Ou será que ela romantizou tudo para ter um “felizes para sempre”? Com raiva, continuei lendo. Ela alterou apenas alguns detalhes objetivos, mas era a história na íntegra, até os diálogos me pareceram bastante possíveis de serem reais.

            Ela ainda lembrava? Não superou? Ah não, lembrei-me de que ela me disse certa vez, enquanto ainda estávamos juntos, que havia feito algumas tentativas de escrever nossa história porque ela era bizarra. De fato, não poderia negar que eu devo tê-la magoado bastante. A realidade é que depois do segundo término perdemos o contato quando fiz um intercâmbio e eu nunca mais procurei saber dela.

            Considerei ter sido um grande erro ter ido até ali, uma perda de tempo. De que me importava? Levantei-me e ia me virando para ir embora, mas me desequilibrei e quase caí. Ótimo, chamei a atenção do conglomerado de apaixonadinhas. De volta à estabilidade, em pé, o olhar dela me alcançou. Eu, acanhado, apenas disse “está tudo bem”. Ela me reconheceu, fisgava o canto da boca, dando um meio sorriso.

            “Você não veio para o lançamento, imagino”, ela disse simpaticamente.

            Ela obteve como resposta meu silêncio e um olhar embaraçado.

            “Mas fique à vontade, logo mais haverá um café com entrevista aberta.”

            “Você acha que esse livro seria um bom presente para minha namorada?”, não sei por que, mas agi com essa audácia.

            “Na verdade eu queria lhe dar um de presente, Pedro.”

            Senti que meu rosto se avermelhava e a multidão tentava compreender de que se tratava aquela tensão toda.

            “Não, não precisa. Eu não tenho tempo para ler. Além do mais, eu já sei essa história”, por alguma razão a última frase saiu e me deu vontade de ver se ela saberia jogar com suas emoções em público, ela costumava ser meio descontrolada.

            Algumas pessoas pareceram suspeitar o que acontecia ali. Ela apenas assentiu, com aquele meio sorriso novamente. Eu desconhecia essa Mirella. Ela tinha os olhos determinados, frios. Ela não retrucou, não haveria o circo pegando fogo. Dei as costas, caminhei uns três passos, mas parei e me virei para ela.

            “Mirella, você tem uma versão da história crua, sem as camadas fictícias?”

            “Não foi preciso. Mas uma boa história sempre deve ser contada, mesmo que de maneira diferente.”

            Eu sorri discretamente. Dirigi-me ao caixa e comprei um exemplar e uma caderneta. Enquanto saía da livraria imaginava-a tendo que explicar às suas fãs que eu era a razão daquele livro ter sido escrito, ou inventando alguma explicação improvisada. Talvez eu nem lerei aquele livro, acho que me falta a coragem. Darei para a Fabiana de presente – a caderneta, com boa razão; o livro como um presente de amigo da onça, e ela vai ler, rir e dizer que é tudo bobagem.

Guardo-lhe como a um segredo

Guardo-lhe como a um segredo,
Já que está longe dos olhos de todos
Permaneça também distante dos ouvidos.

Guardo-lhe numa parte do coração
Que aprendi a cobrir com a normalidade
E apenas desvelo a mim mesma.

Guardo-lhe sem nome e sem endereço,
Pois do que os outros não sabem, não perguntam
E apenas farei força para que não percebam.

Guardo-lhe numa caixinha de surpresas,
Não a vejo com constância, nem a abro,
Mas tenho na memória tudo o que contém.

Guardo-lhe em nossas conversas,
Junto a abraços e beijos de lembranças,
Os quais paradoxalmente desejo compartilhar.

Guardo-lhe, por fim, neste poema,
E será que, se passar, ainda estará aqui;
Mas quanto menos falo, mais real você fica.

Debaixo da Lua Cheia

Na linha tênue do horizonte
Sob uma noite bem iluminada
O mar levemente toca a areia fria
Chiando suavemente pelas suas ondas

Um abraço repentino captura um coração
Sequestrando o fôlego num suspiro
Os olhares distando sobre a água
Os corpos tímidos encostados

Então os olhares se encontram
E numa longa pausa o pensamento
Se desfaz no vento que ali os envolve

E sussurra-lhes: “Deixe a lua os guiar!”
Que ela é cheia de amor; e os une
Num suave e eterno beijo.

Oração de um pecador

Que a salvação me acorde a cada manhã
E apague a noite de culpa que sonhei.
Tenha misericórdia dessa minha inconstância
De orar pela manhã e dormir sem dizer adeus.
Me convença do meu pecado,
Mas garanta também que há perdão para mim.

Que o meu sorriso contagie a quem precisa
Independente das minhas queixas.
Tenha paciência com minhas distrações,
Quero tantas coisas que esqueço o principal.
Me ajuda a entender que só é bênção
Se não terminar em mim.

Que as minhas palavras digam apenas
Coisas que valem a pena serem ouvidas.
Tenha piedade da incoerência que há
Entre o que eu afirmo crer e o que eu faço.
Me torne em alguém que é ponte,
Que não é muro, nem abismo, nem vácuo.

Que o teu amor seja a tonalidade e a tua graça
O compasso em que reges a minha vida.
Tenha cuidado com minhas brechas
E use-as para que a tua luz me atravesse.
Me carrega por onde quiser como lhe convém,
Porque eu não posso viajar só.

Quando encontrar esse alguém

O que fazer quando se encontra aquela pessoa
Capaz de lhe arrancar um sorriso somente
Por lembrar-se dela e imaginar-se perto?
Quando ao ouvir sua voz os olhos até brilham,
Chegam a doer as bochechas pelo quanto
Se é incapaz de esconder o bem que lhe faz.

Do que chamaremos tal sentimento? Não sei.
Seria injusto querer rotular algo tão belo e meu
E expor a todos que o julguem mediante as
Definições que cercam a nós todos falantes
E nos impedem de viver e sermos livres na
Liberdade do outro diante do nosso afeto.

Ah, mas quando encontrar esse alguém…
Meu caro, que sorte a sua, perceberás.
Notarás que menos importa que corresponda
E mais importa que de alguma forma
Se faça presente na sua vida esse humano
Que em meio a todo caos lhe traz um refúgio.
Digo isso porque já encontrei esse alguém.

Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.

Amores instantâneos

Os maiores amores se travam
Na primeira troca de olhares,
No primeiro abraço,
Na primeira conversa longa,
No primeiro sorriso tímido,
No primeiro riso sincero.

Aos maiores amores
Preferem chamar de paixão,
Porque quando é amor
Sentem a obrigação de agir,
Quando na verdade o amor é
A libertação do coração do ser
Esperando encontrar aquele
Outro ser aberto para se unir.

Pessoas

A grande massa delas lhe carrega no fluxo,

Mascara o vazio andar por entre a gente,
São como figuras que preenchem espaços
Das paisagens conhecidas em que passamos,
Permitindo às rotinas mais valor do que
Os seres que conosco dividem cenário.

Mas quando dentre toda essa multidão
Encontramos uns com quem nos ligamos,
Ah… não aqueles a quem somos obrigados,
Aqueles que quando os olhares cruzaram
Atou-se um nó inexplicável nos corações
E entendemos o que significa comunicação.

Há aqueles que seguem uma sequência
Lógica da amizade enquanto outros nunca
Entendemos qual foi a conversa culpada.
Há aqueles que fazemos força para gostar,
Mas fazem falta, só que menos do que aqueles
Que se possível carregaríamos no bolso.

Há aqueles por quem fazemos força para não
Apaixonar, mesmo sabendo do perigo, o que é
Melhor do que aqueles que nunca saberão.
O que importa é que quanto mais se tenta
Explicar, mais constrangidos ficamos diante da
Incapacidade de dizer o que se sente do outro.

Sem fundamento

Borboletas sem asas,
Libélulas de vidro,
Rosas sem cheiro,
Rouxinóis de madeira;
Afagos doentes.

Portas sem maçaneta,
Janelas opacas,
Camas sem estrado,
Redes empoeiradas;
Abraços inertes.

Céu sem estrelas,
Natureza morta,
Fogo sem chamas,
Mar amarronzado;
Beijos mecanizados.

Coração sem pulso,
Vida sem alma,
Um vazio.