Debaixo da Lua Cheia

Na linha tênue do horizonte
Sob uma noite bem iluminada
O mar levemente toca a areia fria
Chiando suavemente pelas suas ondas

Um abraço repentino captura um coração
Sequestrando o fôlego num suspiro
Os olhares distando sobre a água
Os corpos tímidos encostados

Então os olhares se encontram
E numa longa pausa o pensamento
Se desfaz no vento que ali os envolve

E sussurra-lhes: “Deixe a lua os guiar!”
Que ela é cheia de amor; e os une
Num suave e eterno beijo.

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Oração de um pecador

Que a salvação me acorde a cada manhã
E apague a noite de culpa que sonhei.
Tenha misericórdia dessa minha inconstância
De orar pela manhã e dormir sem dizer adeus.
Me convença do meu pecado,
Mas garanta também que há perdão para mim.

Que o meu sorriso contagie a quem precisa
Independente das minhas queixas.
Tenha paciência com minhas distrações,
Quero tantas coisas que esqueço o principal.
Me ajuda a entender que só é bênção
Se não terminar em mim.

Que as minhas palavras digam apenas
Coisas que valem a pena serem ouvidas.
Tenha piedade da incoerência que há
Entre o que eu afirmo crer e o que eu faço.
Me torne em alguém que é ponte,
Que não é muro, nem abismo, nem vácuo.

Que o teu amor seja a tonalidade e a tua graça
O compasso em que reges a minha vida.
Tenha cuidado com minhas brechas
E use-as para que a tua luz me atravesse.
Me carrega por onde quiser como lhe convém,
Porque eu não posso viajar só.

Quando encontrar esse alguém

O que fazer quando se encontra aquela pessoa
Capaz de lhe arrancar um sorriso somente
Por lembrar-se dela e imaginar-se perto?
Quando ao ouvir sua voz os olhos até brilham,
Chegam a doer as bochechas pelo quanto
Se é incapaz de esconder o bem que lhe faz.

Do que chamaremos tal sentimento? Não sei.
Seria injusto querer rotular algo tão belo e meu
E expor a todos que o julguem mediante as
Definições que cercam a nós todos falantes
E nos impedem de viver e sermos livres na
Liberdade do outro diante do nosso afeto.

Ah, mas quando encontrar esse alguém…
Meu caro, que sorte a sua, perceberás.
Notarás que menos importa que corresponda
E mais importa que de alguma forma
Se faça presente na sua vida esse humano
Que em meio a todo caos lhe traz um refúgio.
Digo isso porque já encontrei esse alguém.

Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.

Amores instantâneos

Os maiores amores se travam
Na primeira troca de olhares,
No primeiro abraço,
Na primeira conversa longa,
No primeiro sorriso tímido,
No primeiro riso sincero.

Aos maiores amores
Preferem chamar de paixão,
Porque quando é amor
Sentem a obrigação de agir,
Quando na verdade o amor é
A libertação do coração do ser
Esperando encontrar aquele
Outro ser aberto para se unir.

Pessoas

A grande massa delas lhe carrega no fluxo,

Mascara o vazio andar por entre a gente,
São como figuras que preenchem espaços
Das paisagens conhecidas em que passamos,
Permitindo às rotinas mais valor do que
Os seres que conosco dividem cenário.

Mas quando dentre toda essa multidão
Encontramos uns com quem nos ligamos,
Ah… não aqueles a quem somos obrigados,
Aqueles que quando os olhares cruzaram
Atou-se um nó inexplicável nos corações
E entendemos o que significa comunicação.

Há aqueles que seguem uma sequência
Lógica da amizade enquanto outros nunca
Entendemos qual foi a conversa culpada.
Há aqueles que fazemos força para gostar,
Mas fazem falta, só que menos do que aqueles
Que se possível carregaríamos no bolso.

Há aqueles por quem fazemos força para não
Apaixonar, mesmo sabendo do perigo, o que é
Melhor do que aqueles que nunca saberão.
O que importa é que quanto mais se tenta
Explicar, mais constrangidos ficamos diante da
Incapacidade de dizer o que se sente do outro.

Sem fundamento

Borboletas sem asas,
Libélulas de vidro,
Rosas sem cheiro,
Rouxinóis de madeira;
Afagos doentes.

Portas sem maçaneta,
Janelas opacas,
Camas sem estrado,
Redes empoeiradas;
Abraços inertes.

Céu sem estrelas,
Natureza morta,
Fogo sem chamas,
Mar amarronzado;
Beijos mecanizados.

Coração sem pulso,
Vida sem alma,
Um vazio.

A arte de amar – parte 2

Erich Fromm aborda rapidamente o amor na sociedade do consumo, que resulta em enxergar as pessoas como opções no mercado e escolher aquela que parece ser a melhor opção disponível no mercado. Isso até lembra Bauman em Amor Líquido, dizendo que o se apaixonar na era do consumo se assemelha à especulação na bolsa de valores. Outro problema do amor na era atual, para Fromm, é que poucas pessoas aceitam que ele é uma arte – tanto quanto viver é uma arte – e, portanto, é necessário aprender esta arte. Diante disso, surge outro problema: demanda-se tempo, raciocínio e aprendizado para se tornar hábil nesta arte; e mais uma vez recorremos a Bauman, dizendo que na sociedade líquida (veloz e incerta) não há tempo a perder, e nisso a natureza humana cabe bem (convenhamos, todos nós somos egoístas, só não gostamos de assumir isso para não manchar nossa moral, o que prova novamente que somos egoístas).

Irônico é observar um comentário de Fromm acerca da lógica capitalista. Diz ele que assumiu-se um pensamento de igualdade no sentindo de des-individualizar o ser humano, tal qual os autômatos e os objetos produzíveis o são. De certa forma, seres humanos são produzíveis também – é para isso que nos reproduzimos como espécie. Assustador é termos a coragem de comparar tais coisas como se fossem iguais. Um pensador atual de comunicação e sociologia, Ciro Marcondes Filho, afirma em várias de suas obras que o ser humano criou as máquinas e passou a admirá-las mais do que a si mesmo, tanto que, inicialmente, ele delegava algumas de suas tarefas, seu sonho passou a ser que elas fizessem todas suas atividades, como se as máquinas pudessem viver por ele para que então o ser pudesse “curtir” (pergunto o que é que sobra se a máquina faz tudo); finalmente, ele deseja ser uma máquina.

Mas se a máquina e/ou o produto são seriados, embora eles façam as atividades de cada indivíduo, eles são todos iguais – objetos subordinados e ao mesmo tempo dominadores. Ao mesmo tempo em que se buscar ter um algo que se encaixe só para si mesmo, todos desejam ter o que é comum ao grupo e ao status para que possam estar coberto dos signos que lhe fazem ser alguém. Eis um paradoxo, ser um único igual. Mas se olhamos para todos como iguais, onde está a grande dificuldade de escolha? Porque que fizemos das nossas relações um mercado especulativo e analisamos tanto sem vivê-lo de fato? De tão autênticos que tentamos ser no nosso comportamento, nos tornamos mais um de todos.

Tentando falar do coração – 2

Eu aqui me questionando onde foi que eu deixei a consciência parar

Nessa loucura que significa encontrar alguém –

Ou seria ser encontrado? –

Mas que nada, nada de nada faz sentido

E isso é um clichê…

De nada somos obrigados

Nem ninguém é

E talvez seja isso que nos mata por dentro

Que nos faz querer gritar por saber o porquê

De certas coisas terem a capacidade de passar por todos

Os verbos de ligação

Ser, estar, parecer, permanecer, continuar e ficar

Sem explicação de um coração que só procura

Saber o porquê que é você.