Foi tudo culpa de um sonho

            O shopping center estava bastante movimentado. Escondida no vão de um corredor estava uma garota. Carregava em seu bolso um pequeno papel com palavras-chave das quais deveria se lembrar para finalizar um caso que estava investigando. A lógica diria que ela era jovem demais para isso. Ao que tudo indicava, uma menina sofria de abuso emocional e físico por parte de seu pai e mais dois irmãos brutos.

            Os três homens desnecessariamente másculos também circulavam pelo edifício capitalista de quatro andares como pessoas normais em busca da garota que se escondia com algumas provas do que estava acontecendo. Em algum canto do lugar também estava a menina, que havia procurado por ela para lhe ajudar por indicação de uma outra amiga. O problema é que a suposta detetive não conseguia descobrir o motivo da mais recente explosão de fúria e buscava seguir os passos da menina para chegar a alguma evidência, uma vez que esta se recusava a se pronunciar.

            Ao final daquele corredor havia um sanitário feminino, o último local em que a vítima havia estado. Entrou discretamente pela porta única. Trancou-a, fitou o lixo e revirou-o. Um teste de gravidez – ela deveria estar desconfiada e causou um transtorno em sua família machista que provavelmente se envergonharia de uma jovem filha grávida sem sequer ter um namorado.

            Naquele momento, a porta, violentamente golpeada, se abriu e lá estavam os três brutamontes, prontos para encurralar a nada profissional scherlock. Ela estendeu a mão com o teste envolto num papel higiênico: negativo. Os três suspiraram aliviados. Três nomes foram anunciados no auto-falante do shopping e os homens com olhar de pânico decidiram atender ao chamado, já imaginando que a filha conseguira chamar a polícia.

            Acabou o drama. Quem sabe devesse seguir uma carreira de investigadora, delegada, ou advogada. O caso não estava mais em suas mãos, o que era de fato um alívio. O que diabos estava fazendo se metendo em tal enrascada?! Uma temporada toda de Jessica Jones em uma semana definitivamente não lhe fez bem.

            Mas o cenário já era outro. Passado o estresse da resolução de um caso que nada lhe competia, agora a garota era vista encostada na parede do shopping abraçada por um garoto pouco mais alto que ela. Os olhos de um estão fixados nos do outro, hesitantes. Os dois se beijam – tensos, finalmente, apaixonados. São longos os beijos subsequentes e várias pessoas reparam no belo casal que nem se importava com a publicidade do local.

            De um sobressalto, ela sentou na cama. Tudo foi um sonho. Passado o susto, ela riu loucamente. Detetive… logo ela, tão medrosa. Realmente, péssimo negócio a escolha do seriado. Mas os risos voltaram com força ao se lembrar que ao final ela estava beijando um de seus melhores amigos. “Nada a ver, nada a ver”, repetia para si mesma. Compartilhou o fato com sua amiga companheira de apartamento, elas riram juntas. Porém, lá no fundo, alguma coisa daquele sonho havia ficado. Aquele beijo… ela sentiu aquele beijo fora do sonho. Não fazia sentido algum, mas foi bom. Bastante bom. Parecia simplesmente certo. Quer saber? Fazia sentido sim.

            Naquela tarde, encontrou o tal amigo para tomar um café. Contou-lhe o sonho omitindo a parte que lhe cabia.  Enquanto olhava convenientemente em seus olhos lembrava da loucura que era essa ideia. Como parte da rotina, se encontravam frequentemente e ela acostumada com aquela sensação insossa. Passaram-se meses, mudaram as estações, e o sonho era uma lembrança escondida atrás das cortinas da mente, mas engolia seco cada vez que as mãos se encostavam. Poucos dias depois era seu aniversário. Ele lhe deu um pequeno caderno roxo e ela achou justo que fosse como um livro em branco.

            Logo ele estava namorando uma outra garota. Ela também namorou outro garoto. Ela se mudou de cidade. Mudou de estado. De país. Continente. Foi muito feliz, conheceu 58 países, aprendeu 17 línguas, concluiu estudos avançados, ganhou prêmios pelos seus trabalhos. Em noites esparsas ela tinha outros sonhos bizarros, havia várias outras cenas finais indiferentes ao referido contexto.

            Cinco anos haviam se passado quando ela retornou à casa dos pais. Filha única que era, encontrou seu quarto exatamente como estava quando o deixou, exceto por uma grande cesta de doces dada como boas-vindas. Ouviu- se batidas na porta da casa. Desceu as escadas apressadamente. Abrindo a porta, contudo, foi surpreendida por uma ilustre presença. E o sonho, por tanto tempo reservado ao imaginário, lhe voltou à tona enquanto seu rosto corava. As palavras se desfizeram quando seu coração foi eletrocutado pelo choque de ver ali seu antigo melhor amigo por quem um dia se apaixonara. Ele lhe interrompeu os devaneios: “tomar um café?”, ao que ela respondeu “claro!”, e assim foram.

No mesmo lugar

            Parece que foi ontem. Quase consigo vê-la na minha frente, corando de vergonha enquanto a amiga dela me conta que ela gosta de mim e em seguida tenta nos deixar a sós para conversar. Tenho vergonha da minha falta de reação. É claro que não era para acontecer nada, éramos muito crianças, uns 12 ou 13 anos. E foi bem aqui, debaixo dessa árvore, onde tínhamos algumas atividades escolares ao ar livre.

            Hoje tudo mudou. O lugar onde passei minha infância tem outro nome. Não mais casa, mas faculdade, internato, estudo, esforço, desgaste, saudade. A casa onde morei abriga outra família. Às vezes tenho vontade de entrar lá novamente, sentir a emoção de deitar na cama que estiver no quarto que era meu e tentar me sentir um garoto de novo, antes da notícia que iríamos embora, que eu deixaria para trás todo o universo restrito e rudimentar que eu conhecia e iria para a cidade grande, a capital nacional.

Nós só nos falamos através de redes sociais. Mas eu a vi, lá no meio de tantos conhecidos, com o sorriso mais bonito que eu poderia ter imaginado, conversando com tanta naturalidade que tive dificuldade de recordar sua antiga imagem tímida. Tento acenar, mas não tenho coragem. Não tive coragem. Nos falamos depois, lamentando não termos nos encontrado. Então descobri que ela estaria aqui definitivamente (pelo menos por enquanto) neste ano. Senti um arrepio percorrer minhas costas. Lembrei de uma frase que minha mãe me disse certa vez quando falei sobre ela logo que nos mudamos – “você vai ver, um dia você a encontrará no mesmo lugar onde se encontraram pela primeira vez”.

Decidi dar uma volta com meus amigos pelo campus e não pude deixar de fitar os banquinhos debaixo da árvore. Aquele dia. Algo tão infantil, inocente que hoje me faz tremer de nervosismo quando ela passa, obriga meus olhos a se desviarem quando encontro os dela e provoca uma amnésia de todas as palavras conhecidas ao meu vocabulário. Decido seguir a caminhada sem olhar para trás, sem olhar para aquilo dia que me obriga até hoje a avaliar qualquer outra garota baseando-me na minha amiga.

A verdade é que não tenho tempo. Para conseguir falar com ela preciso desenvolver uma conversa, no mínimo encontrar um assunto em comum. Não é por falta de identificação, temos muito em comum. Só não sei mesmo como me dirigir a ela. Mas há um medo, medo de perdê-la para tantos outros que simplesmente sabem o que falar para ela e tirar o riso mais incrível que já vi. Ao mesmo tempo, há uma certeza de que jamais perderei ela, que ela sempre voltará para mim, talvez no mesmo lugar onde a encontrei pela primeira vez. Não a primeira vez literal, mas a primeira vez que encontrei nela alguém que eu amava. Não só, era também apaixonado. Mas tantos outros a rodeiam, talvez eu devesse esperar que ela viesse diretamente até mim. Não posso perder o foco dos estudos, além de que tenho muito tempo para planejar meus relacionamentos. Mas há algo impossível naquele sorriso que se rasga naquele rosto tão meigo, tão sutil, tão imponente, tão atraente.

Ela virá até mim, naquele mesmo lugar, tenho certeza. Mas não posso esperar, mas também não posso simplesmente me assentar aqui e arquitetar uma estratégia para reconquistar uma garota. Seria perder tempo. Exceto que para o coração qualquer tempo perdido significa menos vida. Pode significar alguns dias somente sem ela, ou pode significar perder a oportunidade que me custará anos para recuperá-la. Não a vejo como um alvo a ser alcançado, um troféu a ganhar. É só o resultado natural de seguir os passos das palpitações cardíacas.

Foi numa tarde em que estava desprevenido tentando por em prática o hábito esportivo que vi uma figura familiar andando pelo gramado. Nem me lembro o que ela estava indo fazer por lá. Mas me lembro de ter notado seus cabelos esvoaçantes ao vento, aquele olhar penetrante que prende quem olhá-lo na direção exata e aquele sorriso que ainda estava se formando tão discretamente. Eu só consegui pronunciar um “olá” e disso me lembro. O restante da conversa deve estar preso no meu inconsciente e deve se revelar em imagens esparsas nos meus sonhos. Lembro-me de sentar naquele mesmo banco debaixo da árvore. E quase ouvi minha mãe dizer, “no mesmo lugar em que se encontraram da primeira vez.” E reencontrei aquela força da paixão que me fazia olhar tão diretamente em seus olhos e me perder no seu sorriso enquanto eu não fazia a menor ideia da expressão que eu tinha no meu rosto.

Devo ter digo algo bobo, algum comentário sobre a faculdade, não sei. Mas ela riu, riu e jogou sua cabeça pra trás, como sempre fazia, com os cabelos soltos e os olhos apertados pelas bochechas num sorriso largo. E eu a beijei.

A menina e o rádio

Devia ser o ano de 1995. Era engraçado ver os grupos formados pelas crianças. Elas deveriam ter dez ou onze anos. Mas havia uma garota bonitinha, tímida e centrada, que parecia não se enquadrar em nenhum grupo. Era magra, cabelos pretos bem lisos num corte chanel, olhos verdes brilhantes, o rosto pintado com discretas sardas davam a ela uma aparência meiga. Dizer que ela não tinha amigos seria radical demais. Algumas meninas tentavam enturmá-la, mas por vezes ela recusava o convite. A professora elogiava Clarisse como uma aluna inteligente, responsável e educada, porém advertia sua mãe de que ela parecia solitária por opção própria, o que não era comum para uma criança. Houve alguma compreensão importante e séria naquela última reunião de pais antes que acabasse o quinto ano, pois a professora não mais se incomodava com a clássica cena da pequena garota ouvindo rádio sozinha no pátio.

Passaram-se mais alguns anos e ela havia acabado de começar o ensino médio. Estava acostumada a ser motivo de piadas a respeito do seu companheiro rádio. Seu limite de paciência, no entanto, foi atingido um dia, quando entrou na sala e encontrou desenhos de bullying explícito, referindo-se a ela de forma pejorativa. Ela se sentiu esvaziar por dentro enquanto os risos ecoavam dentro dela e as imagens pareciam se tornar banners gigantes em sua mente. Chorava e esbravejava, atraindo a atenção de alguns professores, mesmo sendo no horário do intervalo, porém se recusava a dar alguma explicação a eles. De alguma forma, sentia vergonha de contar a história.

Seu avô havia morrido quando ela tinha nove anos após lutar contra um câncer. Por não ter conhecido seu pai, o avô tomou este lugar. Ele tinha o costume de ouvir o rádio, desde as músicas até debates políticos e programas educacionais. Ouviu o sucesso dos Beatles e os anúncios da ditadura militar. Quando já estava de cama e sabia não ter mais solução, deu seu rádio à neta que tanto o admirava. Após seu falecimento, Clarisse passou a imitar o hábito do avô. Havia nela, porém, um olhar diferente. Era óbvio que uma garota dessa idade não se interessava ou mesmo compreendia as discussões sobre saúde, educação e política, mas ela o ouvia com tamanho favor que ninguém ousava oferecer-lhe outro passatempo.

A preocupação veio à medida que ela avançava na adolescência e o seu passatempo parecia ter se tornado uma obsessão. Sua mãe tentava descobrir o que levava a filha a agir de forma tão oposta à dos outros adolescentes. Pôs-se a conversar decisivamente para tirar o rádio dela, mas o que obteve foi um escândalo, com lágrimas e súplicas, palavras que tentavam dar alguma explicação sem sentido, algo como ouvir seu avô falar, até que Clarisse entrou no quarto com o rádio e trancou a porta.

Um ocorrido fez tudo vir à tona novamente. Certa vez no terceiro ano do ensino médio, durante uma prova de física, ela se recusava a retirar o rádio de cima de sua mesa. Diante da ameaça do professor, a menina se pôs a chorar feito criança e saiu aos prantos da sala de aula, com o rádio em uma mão, o estojo em outra, a bolsa e a blusa de frio jogadas no ombro, sabendo que ganhou uma prova anulada. A mãe foi contatada pela escola, a filha não negou. Lembranças vieram à mente da mãe, que agora se acalmava. Frases de seu pai, atitudes, a obsessão pelo rádio, uma extrema inteligência e a solidão; diagnósticos médicos, remédios que ela não conhecia a princípio, mas depois descobriu serem necessários para o avô de Clarisse. Era genético. Sabia para quem ligar – o mesmo médico que vira seu pai visitar tantas vezes. Seguindo as recomendações profissionais, Clarissa foi convidada a ficar internada numa clínica de síndromes psiquiátricas por um tempo.

Os anos já se passaram e ela estava prestes a se formar na faculdade. Todo dia é vista andando pela praça na mesma cidade em que morava, fazendo compras. Era uma manhã fria quando ela caminhava e passou na frente da escola onde estudou. Os colegas, os choros, as brincadeiras, o bullying, sua mãe, o médico, o hospital e, bem ao fundo, a imagem de seu avô, formaram-se todos na sua mente. Entrou num café, assentou-se e, enquanto aguardava seu pedido, ouvia o rádio.