Vistas Saudosas

Quando subo a Avenida Sete,
Debaixo das voluptuosas árvores,
As grandes portas de madeira maciça,
Vejo o lar e da coleção de pedras,
A casa que julguei assombrada,
O prédio onde tantas impressões habitam.

E ao final daquele caminho
Chega -se a um alto onde o olhar
Repousa sobre um belo mar azul,
Sob os braços de um Castro Alves de pedra,
Mas não belo como o ápice de ruas acima,
Ao lado do elevador, mirando a baía.

Saudades destas vistas eu sinto,
Vontade de tornar-me parte do lugar;
Quisera eu que fossem banidas as azias,
Houvesse uma completude lá do ser-aí,
Porém aquilo que de mais vantajoso se espera
Torna-se o veneno da melancolia

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A digestão da raiva

Raiva: uma explosão indizível do ser,
Aquilo que sempre se achou pecado,
Mas de tão inevitável se tornou processo,
Que começou num simples mal estar do ser,
Uma queimação de sentimentos inquietos,
A gastrite ansiosa pela incerteza da falta de poder;
A sensação se torna em revertério quando
O estômago embrulha o coração
Em trágicas batidas engolidas
Pelo choro.

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(Foto disponível no link aqui, uma pintura em aquarela da espanhola Jone Bengoa, de 19 anos)

Paz com as palavras

Mas que triste o dia,
Aquela hora ingrata,
Em que você procura
Em vão – não encontra –
As palavras corretas,
Mesmo as erradas,
Qualquer sequência
de emoções expostas,
Com ou sem ritmo,
Ou lógica, ou sentido sequer.
Não conseguir por pra fora
Toda essa angústia vocabular,
Essa náusea linguística,
Para tentar viver em
Paz com as palavras.
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(Imagem: blog Crônicas da vida offline)

Tentando falar do coração – 2

Eu aqui me questionando onde foi que eu deixei a consciência parar

Nessa loucura que significa encontrar alguém –

Ou seria ser encontrado? –

Mas que nada, nada de nada faz sentido

E isso é um clichê…

De nada somos obrigados

Nem ninguém é

E talvez seja isso que nos mata por dentro

Que nos faz querer gritar por saber o porquê

De certas coisas terem a capacidade de passar por todos

Os verbos de ligação

Ser, estar, parecer, permanecer, continuar e ficar

Sem explicação de um coração que só procura

Saber o porquê que é você.

A arte de amar – parte 1

Há algumas semanas atrás eu comecei a ler um livro enquanto esperava um ônibus na rodoviária. O nome do livro já deve chamar a atenção de alguns e provocar o afastamento de outros: “The Art of Loving” (A arte de amar), de Erich Fromm. Diferente da aparente proposta de auto-ajuda que o título parece trazer, o livro na verdade trata do amor na era do consumo. A epígrafe do livro é uma citação de Paracelsus, físico renascentista suíço-alemão que diz:

Aquele que nada sabe, nada ama. Aquele que não pode fazer nada, nada entender. Aquele que não entende nada, é sem valor. Mas aquele que entende, também ama, percebe e vê. […] Quanto mais o conhecimento for inerente a algo, maior o amor. […] Qualquer um que imagina que todas as frutas amadurecem ao mesmo tempo que os morangos, não entende nada sobre uvas.

Em suma, o que Paracelsus diz é que o amor vem pelo conhecer. Aparentemente, os passos são: perceber, conhecer, entender e amar. Outro ponto trazido é a individualidade, ou seja, a necessidade de compreender cada ser humano em sua maneira. O que chama a atenção é a forma como Fromm retoma a questão do “conhecer”, o que se dá na p. 9. É dito que ao notar seu distanciamento em relação ao outro, sem a presença do amor, esse sentimento de estranhamento pela diferença do outro é a fonte da vergonha, da culpa e da ansiedade. Assim, a maior necessidade do ser humano é a de quebrar seu enclausuramento de si mesmo, de superar sua constante vontade de se esconder em seu egoísmo e orgulho, de encontrar uma forma de união e que esta transcenda os limites físicos, mas que encontre solidez num conhecer e compreender que quebre o distanciamento da separação entre os seres.

Muitos anos antes de Fromm, a epístola de João na Bíblia já dizia “Aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4:8). Ora, mais uma vez vemos uma associação entre o conhecer e o amor. No entanto, para João a fonte do verdadeiro amor é Deus e é preciso conhecê-lo para obter esse amor e, ao fazermos isso, amaremos também os outros seres humanos, os quais ele chama de “irmãos” (1 João 4:7; 1 João 2:9). Para conhecer a Deus também precisamos sair de nossa prisão humana para conseguir encontrá-lo. Novamente, a necessidade é de unir; unir-se e permitir-se ser unido. De acordo com o apóstolo Paulo ao longo de sua epístola aos Romanos, o pecado provocou a separação de Deus e do homem e a graça através do sacrifício de Cristo se tornou como uma ponte sobre o abismo do pecado e nos permitiu a aproximação com Deus novamente. Sem aceitar essa graça, nos sentiríamos diferentes demais de Deus e não seria possível conhecê-lo.

Mediante a Bíblia, a união com os irmãos depende primeiramente da união ao criador de todos os seres humanos – Deus. Não sei se você, caro leitor, acredita num Deus dessa forma, mas lhe convido a colocar de lado as diferenças entre mim e ti e navegar nessa hipótese de encontrar em algo transcendental a resposta para algo tão impossível de viver sem, que é a relação com as pessoas.

Quando nossas testas se tocaram

Se bem que nunca as coisas são como esperamos,
As pessoas que vemos – bem, não se pode ver dentro delas –
E nem adivinhar como elas mudam, ou mesmo nós também.
Tampouco me importam aqui rimas e métrica, quando eu só queria dizer o que senti.

Porque é que vivemos com tanta gente em banho maria?
E como que olhamos para todo mundo como coadjuvante,
E nos sentimos estrelas do nosso próprio espetáculo,
Sem dar conta que somos o reverso do ponto de vista do outro?

Aí acontece de vir um momento de solidão a dois,
Vendo-se obrigados a consolar-se pelo acaso que os trouxe ali,
E num silêncio de vozes e diários da vida abertos,
Aquilo de que falávamos se tornara realidade – e meu maior medo era que fosse como um todo, inclusive os problemas.

O ponto chave pode até ter sido o abraço, ou um deles,
Mas posso me lembrar de um auge:
Quando numa pausa de falas nossas testas se tocaram,
E de repente meu maior medo passou a ser esse,
Que fosse você o próximo a ocupar as linhas dessa poesia.