Vistas Saudosas

Quando subo a Avenida Sete,
Debaixo das voluptuosas árvores,
As grandes portas de madeira maciça,
Vejo o lar e da coleção de pedras,
A casa que julguei assombrada,
O prédio onde tantas impressões habitam.

E ao final daquele caminho
Chega -se a um alto onde o olhar
Repousa sobre um belo mar azul,
Sob os braços de um Castro Alves de pedra,
Mas não belo como o ápice de ruas acima,
Ao lado do elevador, mirando a baía.

Saudades destas vistas eu sinto,
Vontade de tornar-me parte do lugar;
Quisera eu que fossem banidas as azias,
Houvesse uma completude lá do ser-aí,
Porém aquilo que de mais vantajoso se espera
Torna-se o veneno da melancolia

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Homenagem Póstuma

​As marcas da saudade jazem em lembranças

Vívidas, mas que não doem,

De tempos que não exatamente fazem falta,

São construções que fizeram sentido naquele tempo,

E já hoje não seriam necessárias.

Pelo contrário, a saudade é por tantas situações 

Posteriores, que deixaram de ser compartilhadas

Pela interrupção mais indesejável que é a morte.
(Homenagem ao meu avô, que faria aniversário hoje, 21/07, falecido em 13/01/2008)

Como lidar com o saudosismo

São sentimentos presos nos corredores,

Dos dias transitados numa rotina

Que se passou tão repetidamente

Rápida, que de repente já não era.

 

É uma construção emocional presa nos prédios,

Moldada nos pedaços de concreto do ser,

Como se aquilo tivesse que ser eterno,

Deixando de lado a pluralidade.

 

E chega um novo tempo em que não

Importa o que se fez ou foi feito,

Que a vida obriga à nova existência.

 

Mas quão difícil é a aceitação de que

Tempo que é tempo passa e nós,

Que somos, ficamos, somos e existimos.

 

Texto sobre tempo.

Perder pessoas

Por tão pouco perdemos as pessoas.
A cada dia um pedacinho,
De nós e dos outros
Porque quando negamos alguém,
Negamos o ser, o humano,
Nos perdemos de nós também.

Sumimos da vida de quem não queremos,
Deixamos a vida acontecer somente
Para que tenhamos algo para culpar
Que não seja nós mesmos.

Estamos tão acostumados a perder pessoas,
Já superamos rápido, ou acostumamos com a dor,
E achamos normal viver faltando partes de nós.

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  • fotografia do Blog https://ingaphotography.wordpress.com/2014/01/07/dead-flowers/

Trailer de cinema

A falta que você me faz
Eu queria que fosse dos romances,
Clichês em que tudo dá errado o tempo todo,
E no fim, sem nexo algum, os dois se encontram.
A falta que você me faz,
Queria que fosse das comédias românticas,
Toscamente engraçadas,
Quando o par era a cereja do bolo pra deixar tudo perfeito.
A falta que você me faz
Queria que fosse de romances adolescentes,
Quando de tão idiota é trágico,
Mas no fim tudo se resolve com um beijo.
A falta que você me faz
Queria que estivesse no drama,
Que pelo menos todos chorassem e se compadecessem da dor.
A falta que você me faz
Queria que fosse dos musicais,
Para que cantando eu expressasse tudo que eu sinto.
A falta que você me faz
Queria que fosse só o trailer,
E que eu pudesse logo ver o filme e saber o que vem pela frente.

Soneto do sentimento sem fim

Por todas as noites prolongadas,
Por todo o sono desperdiçado,
Por todas as conversas criadas,
Por todo o tempo desperdiçado,

Por todos os sonhos imaginados,
Por toda a criatividade aguçada,
Pelos momentos engraçados,
Por toda a emoção elevada,

Por todas as lágrimas derramadas,
Pelos suspiros abafados,
Por todos os dias alegrados,

Por todo o sentimento exaltado,
Por toda a vida planejada,
Por toda a falta apegada..

Soneto para minha bisavó

Doce anjo que agora dorme,
Teus meigos olhos se fecharam,
Tuas simples mãos se juntaram
Numa imóvel oração desforme.

Linda flor que ainda sublime,
Mesmo quando suas pétalas murcharam,
E as folhas, perdendo o brilho, caíram,
E o céu aguarda que se transforme.

Tenra luz que suave brilha
Subiu em flocos luminosos,
Sorrisos em lágrimas sob o céu ladrilha.

Meiga, seus atos sonhos e desejosos,
Em todo tempo confiou a Deus a manilha,
Acabou em paz, deixando-nos saudasos.


Escrito em memória da minha bisavó Noemia, durante duas semanas após seu falecimento, cuja data foi 14 de agosto de 2014, exatamente dois dias antes de seu aniversário de 92 anos. A imagem parece não ter nada a ver com o texto, mas eu é um lugar que me transmite paz e perfeição – para mim, uma paz que ela tinha, e a perfeição do Deus no qual ela cria e eu também creio.