Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.

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O abraço 

​Disseram que podiam me conhecer bem pelos meus abraços.

Os sentimentos são transmitidos numa energia tal

Que sai do coração e caminha pelo sangue,

Ficando presos às terminações nervosas da pele,

E quando fechamos os braços ao redor de alguém

– Chamam a isso de abraço –

Os sentimentos escapam como que eletricamente 

Para o campo magnético que é o outro a quem se toca.

Engana-se quem acha que isso é tão facilmente compreensível,

Pois que há vários tipos de abraço para cada coisa e situação.

Há aqueles abraços frios cotidianos que chegam a dar desgosto,

Enquanto há aqueles que são capazes de dizer bem mais que palavras.

Mas o que importa é que se pode talvez mentir nos abraços,

Tentar se engessar para que nada saibam e nada percebam.

Porém mais comumente o erro é o oposto,

Sem querer eu erro o abraço e lhe transmito mais que gostaria,

E o que deveria ser causal e objetivo,

Carrega-se de uma subjetividade e lhe conta o que está lá dentro,

De onde apenas o toque mais espontâneo é capaz de traduzir

O que na mente é encoberto de densas névoas do segredo.

Confissão do sentimento indefinido

Confesso que é um sorriso diferente,
Confesso que é um sentimento desengonçado
Esse negócio indefinido que encontramos por aí,
Confesso.

Confesso que é clichê apelar aos tribalistas para descrever,
Confesso que nessa hora acho Camões um exagero,
Confesso que um bom soneto de Vinícius já resolveria
Pra falar dessa coisa que não sei.

Ah, confesso também
Que não é pra resultar em poemas.