Desabafo da mágoa

Não é estranho que quanto mais tentamos fugir das pessoas, mais elas nos encontram? Junto a isso, uma terrível sensação – de que a mágoa que lhe machuca nem sequer é lembrança por quem a causou. São várias náuseas em cada encontro e desencontro com aquele a quem se dirige a mágoa.
Assim, você anda por aí torcendo para que os caminhos não se cruzem. Nos compromissos em comum, finge que nunca conheceu a criatura. Cada vez que mencionam seu nome numa conversa, faz comentários superficiais e distantes a seu respeito. Se de longe o avista, depressa recalcula a rota para evitar a fadiga.
Mas se não houver jeito e passarem um pelo outro, pega o celular e finge haver algo de muita importância a ser resolvido (como visualizar os contatos da agenda). Se ele quase esbarrar em você, apenas continue rindo com quem estiver à sua volta, siga fazendo o que deveria estar fazendo. Se realmente não tiver como, se está bem sentado à sua frente, faça cara de paisagem e conte histórias, fale sobre seu dia normalmente, ignore o suave sorrisinho que dirigir a você.
Porém, a real desgraça é que não importa o quanto você fuja, parece que o drama brota dos bueiros. Dos lugares mais óbvios aos inimagináveis, lá estará a pessoa evitada. Você vai se corroer cada vez que vê-la, pensando em quão desconfortável é, e em quanto o outro parece nem ligar. Vai ficar imaginando o que se passa naquela cabeça alheia e sempre torcer para que seja recíproca a sensação de estranheza.
No entanto, apesar do risco de ser todo um mal entendido, muito provavelmente toda a sua frieza, distância e olhares fulminantes serão suficientes para aniquilar qualquer tentativa de reconciliação. E lá estará você, com o estômago nas mãos, revirando cada vez que pensar que pode encontrar a carcaça que criou-se na sua mente.

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Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.

O abraço 

​Disseram que podiam me conhecer bem pelos meus abraços.

Os sentimentos são transmitidos numa energia tal

Que sai do coração e caminha pelo sangue,

Ficando presos às terminações nervosas da pele,

E quando fechamos os braços ao redor de alguém

– Chamam a isso de abraço –

Os sentimentos escapam como que eletricamente 

Para o campo magnético que é o outro a quem se toca.

Engana-se quem acha que isso é tão facilmente compreensível,

Pois que há vários tipos de abraço para cada coisa e situação.

Há aqueles abraços frios cotidianos que chegam a dar desgosto,

Enquanto há aqueles que são capazes de dizer bem mais que palavras.

Mas o que importa é que se pode talvez mentir nos abraços,

Tentar se engessar para que nada saibam e nada percebam.

Porém mais comumente o erro é o oposto,

Sem querer eu erro o abraço e lhe transmito mais que gostaria,

E o que deveria ser causal e objetivo,

Carrega-se de uma subjetividade e lhe conta o que está lá dentro,

De onde apenas o toque mais espontâneo é capaz de traduzir

O que na mente é encoberto de densas névoas do segredo.

Confissão do sentimento indefinido

Confesso que é um sorriso diferente,
Confesso que é um sentimento desengonçado
Esse negócio indefinido que encontramos por aí,
Confesso.

Confesso que é clichê apelar aos tribalistas para descrever,
Confesso que nessa hora acho Camões um exagero,
Confesso que um bom soneto de Vinícius já resolveria
Pra falar dessa coisa que não sei.

Ah, confesso também
Que não é pra resultar em poemas.