Tempo e momento

Tempo e momento
São incoerentes,
São paradoxo;
Ambos se odeiam,
Não se encontram;
Assim anulam
Um ao outro…
Impossobilitando
Desenrolar-se,
Arriscar-se,
E descobrir se
Se outrora fosse
Haveria outro fim.

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Uma oração ao coração

Me ajuda a perceber o que sinto no espaço possível,

Me ajuda a permanecer em sanidade nas distâncias.

Não permita que eu deixe passar a afeição

Apenas para a hora em que os lugares se afastam.

Faça com que eu encontre o outro na sua essência,

Que eu aprenda a amá-lo em apesares,

Mesmo em contradição com aquilo que espero.

O tempo em viagem

A cada tempo que passa
Convenço-me mais de que
A vida está no movimento.

Dos poucos prazeres inocentes
Encontra-se o estar no mundo
E ser um ponto numa aparente semi-reta;

Usar os cabelos como cortinas,
Ter os olhos banhados de sol,
Simplesmente sentir a beleza do espaço-tempo.

Contudo, as nuvens passando aceleradas
Lembram o vazio que é a fugacidade
Da injusta incerteza de ser no mundo.

tempo em viagem

Como lidar com o saudosismo

São sentimentos presos nos corredores,

Dos dias transitados numa rotina

Que se passou tão repetidamente

Rápida, que de repente já não era.

 

É uma construção emocional presa nos prédios,

Moldada nos pedaços de concreto do ser,

Como se aquilo tivesse que ser eterno,

Deixando de lado a pluralidade.

 

E chega um novo tempo em que não

Importa o que se fez ou foi feito,

Que a vida obriga à nova existência.

 

Mas quão difícil é a aceitação de que

Tempo que é tempo passa e nós,

Que somos, ficamos, somos e existimos.

 

Texto sobre tempo.

Um soneto só meu

Que esse soneto seja um desabafo só meu,

Que talvez a carapuça não sirva em mais ninguém,

Que seja a expressão do que estou sentindo

E que alguém se compadeça e compartilhe.

 

Que no fim dessa etapa de vida

Eu tenha sabedoria para discernir

O que realmente importa

E o que pode deixar passar.

 

Que nessa falta de métrica e sonoridade

Eu consiga dar o grito de tudo que sinto,

De tudo que eu esperaria consertar depois,

 

Mas não haverá uma próxima vez,

E chegando a esse término tanto percebo

Que queria recomeçar e fazer melhor.

Quando nossas testas se tocaram 2

A vida não é feita dos encontros marcados,
Nem é marcada pelos horários cumpridos,
Muito menos se deixa levar pelo planejado.

Seja o acaso a solução para sobrevivência,
Enquanto a vida nos obriga à consciência,
Me convenço de que os maiores suspiros estão no inesperado.

E parece que a vida não quis nos favorecer,
Mas em meio a tantos desencontros e desvios,
Eis que nos últimos minutos da partida algo se reservava.

Coração sabe quando algo bom está para acontecer,
E, quando nossas testas se tocaram,
Num curto momento talvez conseguimos fazer valer
O que o medo e o tempo nos roubaram da outra vez.

Um desabafo sobre as relações humanas

E em toda essa longa história de humanidade, onde foi que nos perdemos?

Como com tanto progresso não descobrimos ainda a cura para a convivência?

Será que tanto nos perdemos na disputa por novos territórios,

Que perdemos a capacidade de conquistar o outro verdadeiramente?

Ou melhor, será que em tanta ambição por novas vitórias e glórias,

Também vemos uma pessoa como um objetivo e não como um ser a ser amado?

Será que passamos tantas coisas tão facilmente no cartão de crédito,

Que passamos também a nossa vida a crédito?

Será que são tantas coisas usufruídas instantaneamente e pagas à prestação,

Que arriscamos decisões e esperamos conseguir pagá-las com o tempo?

Será que nos acostumamos tanto com a infinidade e liberdade de opções,

Que não conseguimos mais olhar um ser humano como tendo um valor único?

E será que somos tão acostumados com a imediatez das máquinas,

Que não podemos esperar o tempo do outro?

E como tudo de que não gostamos ou que não nos funciona nós trocamos,

Será que cada vez que alguém nos chateia ou não faz o que queremos, substituímos?

Calculamos distâncias entre cidades, estados, países, planetas e galáxias,

Mas não somos capazes de entender o espaço meu e seu.

Analisamos cuidadosamente gráficos de valores especulativos – nem reais são,

Vamos direto ao nosso próximo analisá-lo da mesma forma – mas ele é real.

Pesquisamos avidamente qualquer assunto científico,

Mas jamais temos paciência de entender o estado do outro.

Será que nos matamos uns aos outros cada vez que precisamos colocá-lo sob análise antes de vermos a oportunidade de estabelecer mais um laço?

Nos matamos uns aos outros quando fazendo uma agenda de prioridades entre coisas, ocasiões e pessoas?

Matamos uns aos outros ao buscar manter as pessoas sob o nosso controle?

Por fim, matamos a nós mesmos quando de tanto precisarmos de coisas para sermos,

Não vemos mais humanidade nos outros, logo mais, nem em nós.