O paradoxo do ser no mundo

No limitado espaço do ser
Carrego em mim o sentimento do mundo;
É sobre aquietar-se com as inquietações
E irromper todos os silêncios encontrados,
É sobre esvaziar-se de tudo que lhe preenche
E re-tornar-se um lugar aberto,
É sobre ser no mundo
E tentar encontrar-se
Na eterna busca por fixar-se,
À medida que se desvanece
Tenta se corporizar na liquidez
E se reconstruir cotidianamente.

O produzir é um vício

O produzir é um vício que se aparenta bom,
Ele é a fonte do vetor da produtividade,
Que em somas traz a resultante do sucesso.

O produzir é um vício bem visto,
Pois definiu o que é utilidade e sucesso,
E passou a ser a medida de todas as coisas.

O produzir é um vício que nos prende
À necessidade de estarmos ocupados
E justificar-nos de nossa ausência dos outros.

O produzir é um vício que revela
Qual a moeda de troca do atual ser humano,
A qual dá-se no tempo mediante a perda.

O produzir é um vício que nos consome
Através das múltiplas atividades simultâneas,
Da necessidade de constante disponinilidade.

O produzir é um vício que nos impede
De perder tempo observando o mundo,
De nos encantarmos com o que leva tempo.

O produzir é um vício que exclui tudo
Que não se mede na escala da produtividade,
Aquilo que nos diferencia das máquinas.

A abertura do ser

Entre o tudo e o nada muito em comum há,
O longo percurso de um a outro começa e termina no mesmo ponto
É um túnel no espaço-tempo questionando a realidade.

O nada nos oprime e nos liberta;
O tudo nos ilude e nos mantém;
Unem-se na indeterminação que é o viver.

A temporalidade do existir nos assombra,
O tempo gasto para determinar definições
Ignora a arte que há no desocultar o indefinido que é o ser.

Homenagem Póstuma

​As marcas da saudade jazem em lembranças

Vívidas, mas que não doem,

De tempos que não exatamente fazem falta,

São construções que fizeram sentido naquele tempo,

E já hoje não seriam necessárias.

Pelo contrário, a saudade é por tantas situações 

Posteriores, que deixaram de ser compartilhadas

Pela interrupção mais indesejável que é a morte.
(Homenagem ao meu avô, que faria aniversário hoje, 21/07, falecido em 13/01/2008)

Sem caderninho, sem precedentes

(sobre um recesso de outubro em que não levei nem agenda, nem bloco de notas)

Saí de casa.

Olhei um novo horizonte, um mesmo que eu já conhecesse,

Mas se fosse toda vez igual eu saberia como terminaria

E não teria graça.

A verdade é que uma vida programada, não a é.

Bom mesmo é sair com somente o coração e a mente.

Coração pra sentir, mente pra refletir o coração.

Levo sempre comigo um caderninho.

Escrevo tudo que vejo e tudo que sinto, até que

O que acontece supera o que pode ser contado.

Me frustro sempre que vejo que perdi histórias incríveis,

Poderiam vários saber que existe vida fora de Marte,

Que não é preciso uma lua para sonhar.

Mas aprendi que há histórias para serem contadas

Somente ao coração.

Um soneto só meu

Que esse soneto seja um desabafo só meu,

Que talvez a carapuça não sirva em mais ninguém,

Que seja a expressão do que estou sentindo

E que alguém se compadeça e compartilhe.

 

Que no fim dessa etapa de vida

Eu tenha sabedoria para discernir

O que realmente importa

E o que pode deixar passar.

 

Que nessa falta de métrica e sonoridade

Eu consiga dar o grito de tudo que sinto,

De tudo que eu esperaria consertar depois,

 

Mas não haverá uma próxima vez,

E chegando a esse término tanto percebo

Que queria recomeçar e fazer melhor.